A relojoaria do MASP – versão revista e ampliada

Categoria: Arquitetura EDITE GALOTE CARRANZA E RICARDO CARRANZA Imprimir Email

O MASP, aos olhos do observador interessado apenas no seu aspecto exterior, é uma obra prima da simplicidade: uma caixa de vidro suspensa por dois pórticos vermelhos (figura 1). Dirigindo-se ao interior, o mesmo observador encontrará, no grande salão de exposições, nada mais que obras de arte mergulhadas em transparência. Com o tempo e o estudo, o edifício revela sua complexidade como uma caixa de relógio aberta

 

expõe seu mecanismo. Sucesso de público, o MASP alcançou o coletivo e teria se tornado “monumental” [i] como desejara Lina Bo (figura 2).

Primeiramente, precisamos fundamentar, sem pretender encerrar a questão, o conceito de pórtico que aqui adotamos. Segundo o professor Carlos A.C. Lemos pórtico significa – Trave ou viga horizontal sustentada por dois esteios ou pés direitos. Daí, no linguajar técnico contemporâneo, o emprego da palavra para designar o elemento estrutural, que pode ser articulado, composto de dois elementos trabalhando a compressão que sustentam um terceiro que trabalha à flexão vencendo um vão[ii]

Figura 02 – MASP em 2007, vista sentido Vila Mariana Foto: Ricardo CarranzaFigura 02 – MASP em 2007, vista sentido Vila Mariana Foto: Ricardo Carranza

O professor engenheiro José Lourenço Braga Castanho, encarregado dos cálculos do projeto na Figueiredo Ferraz, em entrevista aos autores, comenta que o pórtico do MASP, inicialmente hiperestático, fora ‘cortado’ por ele, convertendo-o em um sistema de articulações móvel e fixa.

Figura 03 – Aparelho de apoio móvel. Foto: Edite Galote CarranzaFigura 03 – Aparelho de apoio móvel. Foto: Edite Galote Carranza

O engenheiro Roberto de Oliveira Alves, do Escritório Figueiredo Ferraz, declarou aos autores que considera o pórtico como a forma acima descrita, que admite duas possibilidades da estática: isostático e hiperestático; no caso do MASP, tratar-se-ia, então, de um pórtico rotulado, que admite articulação, portanto, isostático.

Em toda obra de arquitetura encontram-se combinadas três dimensões do conhecimento: técnica – o fazer em uma escala artesanal, tecnologia – princípios científicos aplicados à indústria e arte – comunicação intersubjetiva[iii].

Figura 04 – Juntas tipo Freyssinet projetadas por Figueiredo Ferraz. Desenho do projeto estrutural original do MASP.Figura 04 – Juntas tipo Freyssinet projetadas por Figueiredo Ferraz. Desenho do projeto estrutural original do MASP.Figura 05 – Tirantes Foto: Edite Galote CarranzaFigura 05 – Tirantes Foto: Edite Galote Carranza

 

Nesse aspecto, o projeto do MASP conseguiu soluções engenhosas – que combinam a tecnologia a mais avançada da época à técnica habilmente elaborada, na solução de detalhes construtivos, tais como: nos aparelhos de compressão (figura 3) e nas juntas tipo Freyssinet  projetadas especialmente para as grandes vigas e que dispensaram o uso de patentes que encareceriam a obra (figura 4); nas juntas telescópicas[iv] da caixilharia externa; nas juntas flexíveis da laje plissada de cobertura ; ou nos tirantes de aço unidos mediante luvas rosqueáveis (figura 5); em todos eles às conquistas tecnológicas, como o concreto e o aço de alto desempenho, estão aliadas um fazer adequado à precisão das condicionantes.

Figura 06 – Detalhe dos tirantes Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 06 – Detalhe dos tirantes Fonte: Edite Galote Carranza     Figura 07 – Desenho em perspectiva, solução estrutural Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 07 – Desenho em perspectiva, solução estrutural Fonte: Edite Galote Carranza

 

A interação eficaz entre técnica, tecnologia e arte, propiciada pela comunicação e interdisciplinaridade entre arquitetura e engenharia, possibilitou a realização de uma obra monumental com estrutura de poucos elementos. São quatro pilares, quatro vigas isostáticas protendidas, duas lajes de pavimentos e uma laje de cobertura. As vigas do interior do edifício sustentam tanto o primeiro pavimento mediante tirantes de aço quanto a laje nervurada do segundo pavimento (figura 06). Tais vigas foram apoiadas em consoles, reduzindo o vão de 70.00 metros para 68.00 metros. A laje de cobertura é atirantada às vigas superiores, as quais possuem seção com altura de 3.58m, largura de 2.50m e vão 70.00m, mediante vigas transversais (figura 07). As vigas protendidas têm seção caixão e septos transversais, as lajes de pavimentos são do tipo caixão perdido, no primeiro pavimento, nervurada no segundo, e plissada na cobertura A laje plissada é extremamente esbelta, um exemplo de resistência pela forma que nos remete à obra de Pier Luigi Nervi, projetada para ser flexível e impermeável. O detalhe construtivo foi resolvido mediante junta asfáltica e união de placas de cobre nos vértices superiores das dobraduras (figura 08). Os pilares são em parte ocos e em parte maciços.

Figura 08 – Detalhe da junta da laje plissada Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 08 – Detalhe da junta da laje plissada Fonte: Edite Galote Carranza

Utilidade, estabilidade e beleza são atributos da arquitetura segundo Marco Vitrúvio Polião. Em princípio, todo edifício deve ter um uso e ser belo. Entretanto, estabilidade refere-se tanto à estática quanto à estética. A primeira responde pelo equilíbrio físico do edifício. A segunda nos fala de harmonia, este vínculo entre arquitetura e arte, isto é, de uma noção de equilíbrio entre as partes.

 Lina Bo adotou as mesmas dimensões para as vigas intermediárias e superiores, embora as cargas fossem assimétricas, pois as vigas intermediárias suportam dois pavimentos enquanto a viga superior apenas a laje de cobertura, seu vigamento e calhas. Comparadas às vigas intermediárias, as vigas superiores são evidentemente menos solicitadas. Se a arquiteta tivesse um pensamento estritamente utilitário, a viga superior teria sua seção reduzida e a impressão de desequilíbrio, a nosso ver, comprometeria o êxito plástico da obra. Tal critério contribuiu, de forma decisiva, para a harmonia ou Eurritmia[v] entre as partes e o todo.

Figura 09 – Vista superior da cobertura  Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 09 – Vista superior da cobertura Fonte: Edite Galote Carranza

O MASP, pelas suas articulações e movimentações, é considerado um edifício que respira e, como tudo que vive, exige manutenção. A dignidade de sua vida útil tem recebido o acompanhamento da Figueiredo Ferraz, e na década de 1990 fez-se necessária uma revisão completa na laje de cobertura e pórticos (figura 09). Assim, a carga total da nova impermeabilização passou a 10 kgf/m2, nas palavras do Engenheiro Roberto de Oliveira Alves – bem inferior aos valores atuantes até então, resultado de sucessivas intervenções que ocorreram com o passar dos anos. Resultado este considerável, pois a redução de carga em uma laje de espessura 10 cm é sempre valiosa.

A Figueiredo Ferraz então propôs um reforço no pórtico a fim de conferir a este uma segurança adicional. Em elementos estruturais de grandes dimensões as flechas são esperadas devido a relaxação, no tempo, do aço de protensão. Tais deformações, no caso superiores a L/160, foram absorvidas devido à caixilharia telescópica prevista no projeto original. Os aços utilizados à época da construção do MASP (RN relaxação normal) apresentavam coeficientes de relaxação três vezes superiores aos aços atuais (RB relaxação baixa). A protensão original foi executada por 56 cabos de 36 fios de 5.0mm, introduzindo força inicial total da ordem de 4.000 tf por viga.

Figura 10 – Corte longitudinal  A-A  Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 10 – Corte longitudinal A-A Fonte: Edite Galote Carranza

O projeto de reforço foi executado com técnica de protensão externa (figura 10). Foram projetados 4 cabos de 12 cordoalhas de 15.2mm, aço CP 190 RB,  e força inicial total de 960 tf . Cada cordoalha foi inserida em duto de polietileno de alta densidade preenchido com graxa. As 12 cordoalhas foram introduzidas em bainhas também de polietileno com injeção de nata de cimento (figura 11). Os cabos foram ancorados em blocos de concreto armados ligado às paredes verticais e à base da vigas superiores. Como estas vigas possuem septos transversais a cada 3.50m (figura 12), foram feitas aberturas de passagem aos operários e materiais, e pequenas aberturas para os cabos (figura 13), estes protegidos por desviadores em concreto, evitando contato pontual com a face inferior do furo.

Figura 11 – Detalhe do cabo da reprotensão das vigas superiores. Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 11 – Detalhe do cabo da reprotensão das vigas superiores. Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 12 – Corte transversal viga superior Fonte: Edite Galote CarranzaFigura 12 – Corte transversal viga superior Fonte: Edite Galote Carranza

 

 

O MASP mantém programa de inspeções semestrais conduzido pela Figueiredo Ferraz e nenhuma anomalia tem sido constatada nas estruturas de cobertura; cabos de protensão e blocos de ancoragem estão em perfeitas condições.

O MASP é uma obra de grande vitalidade e batismo social, é um ícone da cidade de São Paulo e permanece um exemplo de avançada tecnologia associada a um esmero de relojoaria.

[i] Da definição de Lina Bo, na íntegra: “O monumental não depende das ‘dimensões’: o Parthenon é monumental embora sua escala seja a mais reduzida. A construção nazifascista (Alemanha de Hitler, Itália de Mussolini) é elefântica e não monumental na sua empáfia inchada, na sua não lógica. O que eu quero chamar de monumental não é a questão de tamanho ou de ‘espalhafatoso’, é apenas um fato de coletividade, de consciência coletiva. O que vai além do ‘particular’, o que alcança o coletivo, pode (e talvez deve) ser monumental.” Cf. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito – Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 126.

Figura 13 – Vista interna da viga durante a obra.  Fonte: Figueiredo FerrazFigura 13 – Vista interna da viga durante a obra. Fonte: Figueiredo Ferraz

 

[ii] LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira; Corona, Eduardo – Dicionário de arquitetura brasileira, São Paulo, Companhia das Artes, 1998.

[iii] ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

[iv] Em Arquitetura Contemporânea, de Yves Bruand, existe a informação de que os caixilhos estariam assentes sobre colchões de areia (pag.268); a divergência de informações nos parece compreensível por tratar-se de uma obra em parte resolvida durante sua execução no canteiro de obras – via de regra uma característica projetual de Li BO, informação esta que as nossas pesquisas ainda não encontraram respaldo.

[v] Para Vitrúvio: “Eurritmia é a aparência graciosa e o aspecto bem proporcionado dos elementos nas composições. É obtida quando os elementos nas obras são harmoniosos na altura em relação à largura, na largura em relação ao comprimento, todos correspondendo no conjunto à sua proporção” (POLIÃO, Marco Vitrúvio. Da arquitetura. São Paulo: Hucitec, FUPAM, 1999, p. 54)

    Edite Galote Carranza
    é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004, Doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”, sob orientação da professora Dra. Mônica Junqueira de Camargo; diretora da G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura+arte ISSN 1808-1142; professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas tadeu
      Ricardo Carranza
      é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor e professor da Universidade Paulista.
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      REFERÊNCIAS

      BARDI, Lina Bo. O novo Trianon, 1957-67. Revista Mirante das Artes e etc, São Paulo, n°.5, set-out, p.20-23, 1967.

      _____________.  Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: coord. Marcelo Suzuki, Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 1994.

      _____________.  Museu de Arte de São Paulo, São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Lisboa:  Editorial Blau, 1997.

      _____________. Contribuição Propedêutica ao ensino da Teoria da Arquitetura. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 2002.

      _____________. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008.

      _____________.  Lina por escrito – Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009.

       Nota: Este artigo foi publicado originalmente no site Vitruvius

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