O labirinto dinâmico de Rem Koolhaas. Circulação e percurso em espaços de arte e cultura

Categoria: Ciências sociais aplicadas: Arquitetura Imprimir Email

 

ANA TAGLIARI

WILSON FLORIO

Resumo:

Com foco no estudo do sistema e elementos de circulação, no presente artigo foram selecionados edifícios que abrigam arte e cultura projetados pelo arquiteto Rem Koolhaas (OMA), organizados de modo a estruturar o partido, além de direcionar caminhos, percursos, percepção, visuais e olhares dos usuários pelo espaço. Os sete projetos selecionados envolvem diferentes expressões de arte e cultura:  Kunsthal (Roterdã, 1992), Educatorium (Utrecht, 1997), Prada Epicenter (Nova York, 2000), Prada Epicenter (Bervely Hills, 2002), Casa da Música (Porto, 2005), Stedelijck BASE (Amsterdã, 2017) e Fondazione Prada (Milano, Itália, 2018). Por meio da investigação realizada envolvendo pesquisa bibliográfica, iconográfica, leituras, visitas, fotografias e desenhos analíticos, pode-se verificar a importância singular da circulação e percurso na materialização de conceitos definidos pelo arquiteto: o labirinto dinâmico de Rem Koolhaas.

Palavras-chave: Rem Koolhaas, circulação e percurso, espaço-tempo, arquitetura contemporânea.

 

Introdução

O presente artigo, fruto de uma pesquisa com auxílio do CNPq, investiga circulação e percurso em arquitetura, e destaca a importância do sistema e dos elementos de circulação nos edifícios de arte e cultura projetados pelo arquiteto Rem Koolhaas (OMA). Foram identificadas estratégias do arquiteto na definição e organização de caminhos e percursos no interior dos edifícios, de modo a aguçar percepção, destacar visuais e direcionar o olhar dos usuários pelo espaço. Durante a pesquisa foram analisados e visitados sete edifícios concebidos por Koolhaas, que envolvem diferentes expressões de arte e cultura: Kunsthal (Roterdã,1992), Educatorium (Utrecht, 1997), Prada Epicenter (Nova York, 2000), Prada Epicenter (Bervely Hills, 2002), Casa da Música (Porto, 2005),  Stedelijck BASE (Amsterdã, 2017) e Fondazione Prada (Milano, Itália, 2018).

A partir dos conceitos e premissas estabelecidos e declarados pelo próprio arquiteto, e da análise dos projetos, foram identificadas suas estratégias projetuais (Moneo, 2004) relacionadas ao movimento pelo espaço, para direcionar caminhos, percursos, percepção, visuais e olhares dos usuários. A leitura do livro Elements (2014) de Koolhaas, com especial enfoque nos elementos de circulação destacados nos livros contribuiu para a fundamentação teórica na condução das análises dos projetos.

Por meio da leitura dos textos do próprio arquiteto, notou-se que Koolhaas explora diferentes modos de representação para apresentar suas ideias. Por este motivo, como método de investigação optou-se por análises gráficas e sequência de fotos tipo storyboard, pois vem ao encontro da essência desta pesquisa: movimento, circulação e o direcionamento de olhares e visuais pelos espaços. A axonométrica também se apresentou eficaz no processo de investigação dos projetos e apresentação das análises de modo sintético. As axonométricas foram muito exploradas por arquitetos do período pós-moderno, como, por exemplo, James Stirling, com o objetivo de revelar, de modo mais intenso, o espaço por onde o usuário poderia caminhar. Esta representação democratiza várias vistas em um só desenho, além de conferir o dinamismo, algo inerente às diagonais, que se harmonizam com o tema estudado.

Durante a pesquisa pode-se notar que as visuais definidas pelos percursos planejados pelo arquiteto são fundamentais para que o usuário perceba o espaço. Assim, a partir da investigação conceitual e funcional do percurso e da circulação das obras, foram estabelecidos os seguintes procedimentos metodológicos: i) levantamentos de textos escritos pelo arquiteto, textos de estudiosos e críticos, e de material gráfico a partir de fontes primárias; ii) verificação da relação entre conceitos e prática projetual estabelecidos pelo arquiteto; iii) visitas às obras selecionadas; iv)  desenhos de observação e fotografias; v) análise por meio de desenhos e diagramas; vi) reflexão e síntese.

  1. Movimento pelo espaço: circulação, percurso e visuais

Se eu sonho, é com lugares que devem ser tão acessíveis e públicos quanto possível.

Rem Koolhaas, entrevista concedida para Rauterberg (2008, p.102).

A investigação de um projeto a partir do olhar sobre o sistema de circulação pode revelar aspectos conceituais e estratégias projetuais. Analisar a circulação de um projeto de arquitetura não nos oferece apenas informações sobre soluções funcionais e objetivas, mas também sobre questões conceituais, perceptivas e artísticas, que atuam diretamente no modo de olhar do usuário.

O sistema de circulação é composto por diversos tipos de elementos. É possível analisar a circulação de um projeto a partir de critérios claros e objetivos. Para tanto é necessário estabelecer uma base conceitual para a correta análise.

Quatro modos de organização do sistema de circulação foram identificados (Tagliari, 2018): 1) o modelo clássico, com espaços fragmentados e conectados sequencialmente entre si; 2) o modelo conceitual moderno, que prevê um espaço amplo e desobstruído, onde o percurso pelo espaço faz com que o usuário tenha a compreensão do todo; 3) o modelo conceitual trazido pela pós-modernidade, onde o usuário é impelido à descoberta paulatina do espaço, com descobertas graduais durante o percurso; e, por fim; 4) o modelo contemporâneo, marcado pela pluralidade e pela diversidade. Portanto, identificamos uma mescla entre conceitos modernos e pós-modernos no que diz respeito à circulação, unindo a fluidez e domínio do espaço da promenade com as descobertas quadro a quadro do período pós-moderno.

Na contemporaneidade Rem Koolhaas é o arquiteto que expressa indagações instigantes sobre circulação e percurso, seja pelos seus escritos, seja pela concretização de conceitos em seus projetos. Para o arquiteto, tanto o elevador, que fragmenta e interfere na percepção e relação dos espaços, como a escada rolante, que conduz a um movimento contínuo e lento pelo espaço, são elementos de especulação conceitual, na relação entre a vida e a cidade contemporânea. Koolhaas (2010) afirma:

Há cem anos, uma geração de descobertas conceptuais e de tecnologias estruturantes desencadearam um Big Bang arquitetônico. Através da aleatorização da circulação, do curto-circuito da distância [...] o elevador, a eletricidade, o ar-condicionado, o aço e, por fim, as novas infraestruturas formaram uma agregação de mutações que induziram outras espécies de arquitetura. (KOOLHAAS, 2010, p.16)

Consequentemente, um de seus cinco teoremas na prática projetual é justamente o elevador:

[...] com seu potencial para estabelecer ligações mecânicas em vez de arquitetônicas– e a sua família de invenções relacionadas anulam e esvaziam o repertório clássico da arquitetura. Questões de composição, escala, proporção e pormenor são agora irrelevantes (KOOLHAAS, 2010, p.16).

O arquiteto escreveu livros, onde expôs, de forma densa e profunda, seus conceitos, tais como, espaço-lixo, cultura da congestão, lobotomia, cidade genérica e bigness. Koolhaas afirmou que, quando adolescente, costumava visitar o Museu Stedelijk em Amsterdã. O arquiteto destacou a exposição Dylaby ocorrida em 1962, que tinha como conceito a ideia de que o público deveria participar e interagir mais com o espaço e a obra de arte. Segundo o arquiteto Dylaby – a dynamic labyrint agora também seria um título profético. Todas essas exposições me permitiram ser mais moderno do que os meus pais... portanto de alguma forma fui doutrinado por elas. (KOOLHAAS, 2009, p.61). Como será visto adiante, tais ideias repercutem na conceituação, organização espacial e materialização de sua obra.

 

  1. Um percurso pelos edifícios selecionados para o estudo: Circulação e visuais

Os projetos selecionados envolvem diferentes expressões de arte e cultura. Todos edifícios foram visitados ao longo dos últimos anos como parte da metodologia da pesquisa desenvolvida.

2.1. Kunsthal (Roterdã, 1987-92)

O Kunsthal (fig.1) abriga em 8000 m² espaços de exposição, um auditório, um restaurante, inseridos num edifício localizado no Museum Park, importante parque cultural de Roterdã. No livro S,M,L,XL (1995) este edifício é apresentado como uma experiência multissensorial, com ambientes contrastantes. Alexandro Zaera (1995) qualifica o Kunsthal como um elemento conector:

Between a high density traffic thoroughfare and the zone bounded to the South by the Museum Park – an important connecting element between objects and highly diverse buildings – the new construction is confronted with a dual situation. (1995, p.110)

O programa previa três amplos espaços para exposições, um auditório que deveria ser planejado de modo a ser usado independente ou em conjunto com as exposições, e um restaurante com acesso independente. Os pavimentos são interligados por rampas, escadas e elevadores.

O edifício foi concebido geometricamente como um quadrado em planta, com dois eixos se cruzando: um norte-sul e outro leste -oeste, formando assim um quadrado dividido em quatro partes independentes, mas que possuem uma circulação que as tornam parte de um percurso pré-concebido, metaforicamente como uma espiral contínua.

O cruzamento de duas rampas define o acesso principal do edifício, num ponto de convergência de fluxos e encontros. Uma rampa é pública, localizada perpendicular à rua, que conecta a cota mais alta do terreno com a mais baixa, chegando ao Museum Park na face norte. O usuário ao cruzar esta rampa pública, está conectado visualmente aos ambientes internos do museu, que possui os fechamentos em vidro. A segunda rampa, interna, e integrada ao auditório, está localizada paralela a rua, e configura a cobertura do restaurante que está localizado no piso inferior. Neste ambiente o usuário domina o ambiente com o olhar, inclusive o parque, pois o auditório tem seu perímetro todo em vidro.

 

Figura 1 - Desenhos e fotos do Kunsthau com destaque para espaços e elementos de circulação. Fonte: Autores, 2018.Figura 1 - Desenhos e fotos do Kunsthau com destaque para espaços e elementos de circulação. Fonte: Autores, 2018.

 

Com pilares inclinados e assentos coloridos, o auditório é um ambiente dinâmico, uma vez que é ativamente observado pelo movimento diagonal das pessoas durante o percurso da rampa de acesso. Além disso, a iluminação natural, proporcionada pela grande fachada envidraçada, integra visualmente o interior ao exterior, proporcionando agradáveis visuais das atividades que ocorrem no parque.

Como bem observou o arquiteto Rafael Moneo (2004, p.354), o edifício promove o movimento: (...) the prism is transformed by means of a series of slanted planes that help consolidate the program while fostering movement. A rampa, os pilares inclinados e o movimento conferem dinamismo ao auditório, enquanto a iluminação natural, que entra pelo perímetro de vidro, proporciona boas visuais das atividades que ocorrem no parque. Portanto, o usuário é impelido a direcionar seu olhar a determinadas direções e diferentes campos visuais. Como bem afirmou Cecil Balmond (2002), engenheiro da Ove Arup, que trabalhou neste projeto:

A ramp is a luxury. It travels time, collecting moments of arrival and departure, its line through space touching all parts and mixing adjacencies. (…) ramp columns impede or encourage the journey below, as one dodges or meets a changing perspective of the building in relation to the park. (…) As with a person there are several readings. (...) The consequence is an architecture full of surprises. Now you see it, now you don’t. (BALMOND, 2002, p.107)

Após o acesso principal, no primeiro ambiente de permanência o usuário se depara com um lance de escada rampeada, que não revela o seu destino ao primeiro olhar. As visuais e as descobertas ocorrem paulatinamente, e se revelam aos poucos ao usuário. Logo se percebe que somente durante este percurso, orquestrado pelo arquiteto, é que se pode notar como os ambientes estão conectados por esta circulação funcional e percurso conceitual.

2.2. Educatorium (Utrecht, 1992-95)

Educatorium (fig.2) é um edifício que abriga um programa destinado a atividades variadas dos estudantes das faculdades e unidades da Universidade de Utrecht. São espaços para convivência, cafeteria, salas de aula, auditório e salas para exames. O programa é organizado em quatro pavimentos interligados por rampas, escadas e elevadores. A circulação proposta não atende apenas as questões funcionais, mas também conceituais. Os diferentes percursos que se configuram são uma metáfora da vida universitária, onde o estudante pode escolher entre os vários caminhos a percorrer a partir de uma escolha independente e livre.

O principal sistema de circulação é organizado em torno de um eixo cruciforme de dois corredores, subdividindo cada plano em quadrantes, funcionando assim como os principais conectores. Um segundo sistema de percursos permite que o edifício funcione como uma rede de conexões. Como estratégia projetual, nota-se que Koolhaas mistura espaços de transição e de permanência, no sentido de diluir os limites e proporcionar ambientes flexíveis e multifuncionais.

Rather than attempting to dictate any particular pattern of use, the design of the Educatorium seeks to create a synthetic landscape open to individual choice. (CECÍLIA; LEVENE, 2005, p.303)

O edifício é composto por dois planos que se entrelaçam, criando percursos que proporcionam diferentes experiências de socialização e aprendizado. Os planos inclinados da rampa de entrada funcionam como uma praça pública, ou um ambiente de uso múltiplo. Sob esta área é abrigado o estacionamento de bicicletas e ciclovia que se cruzam.

Acima deste piso localizam-se os dois andares das salas de exames, que tem previsão de adaptações para usos variados. Os dois auditórios são acessados ​​por meio da grande rampa de entrada. Orientado para o lado norte, o auditório maior está aberto para a vista dos jardins externos. Duas paredes curvas cercam a sala, uma opaca e uma de vidro, laminado com um filme que muda entre transparente ou translúcido, dependendo do ponto de vista. A parede de vidro atua como um filtro que muda alternadamente a vista para o exterior, proporcionando uma tela de privacidade para o interior.

 

Figura 2: Desenhos e fotos do Educatorium em Utrecht com destaque para elementos de circulação. Fonte: Autores, 2018.Figura 2: Desenhos e fotos do Educatorium em Utrecht com destaque para elementos de circulação. Fonte: Autores, 2018.

 O segundo auditório com 400 lugares fica ao sul. A cafeteria está situada embaixo do piso dos auditórios. Projetado para acomodar até 1000 pessoas, o teto inclinado, juntamente com as colunas dispostas de modo aparentemente aleatório, gera uma série de ambientes dentro da grande sala.

2.3. Prada Epicenter (Nova York, 2000-2001)

(...) trata-se também de espaço público, isto é, a questão de saber se lojas de moda podem ser mais do que simplesmente lojas de moda. Por exemplo, se poderia haver um salão de conferências, uma galeria ou qualquer outro tipo de ponto de reunião cultural. (KOOLHAAS, 2008, p.110)

Na Prada de Nova York (fig.3), Koolhaas propõe uma nova abordagem da organização do programa de uma boutique, transformando-a num espaço público, numa galeria ou até mesmo num espaço para apresentações. Organizado em dois pavimentos, térreo e inferior, o programa abriga ambientes multifuncionais, onde o usuário pode percorrer e interagir ativamente com o espaço.

 Figura 3: Desenho e fotos do Prada Epicenter de Nova Iorque. Fonte: Autores, 2009.Figura 3: Desenho e fotos do Prada Epicenter de Nova Iorque. Fonte: Autores, 2009.

Neste projeto nota-se uma busca pela revisão do programa e do conceito de uma loja tradicional, acrescentando o valor social e público deste espaço. As características singulares de cada espaço, que confere riqueza e o seu diferencial, são as motivações do arquiteto. Segundo Koolhaas, e se a equação fosse revertida, para que os clientes não fossem mais identificados como consumidores, mas reconhecidos como pesquisadores, estudantes, pacientes, frequentadores de museus? E se a experiência de compra não fosse de empobrecimento, mas de enriquecimento?

O Epicentro Prada de Nova York é uma conversão de um espaço no SoHo, anteriormente pertencente ao Museu Guggenheim. Os olhares são direcionados para o denominado Wave, um espaço curvo, esculpido no térreo, abrindo-o para o piso inferior. De um lado, o plano inclinado ondulado possui degraus, que pode ser um ambiente para expor sapatos e acessórios, ou que podem ser usados ​​como uma área de estar; do outro, em frente, localiza-se um palco, que se desdobra do outro lado da “onda”. A loja torna-se assim um espaço público e social, versátil, para eventos como desfiles, exibição de filmes, performances e palestras.

Os dois acessos da loja estão dispostos em lados opostos, gerando uma conexão ininterrupta entre a Broadway e a Mercer Street, oferecendo assim uma passagem para pedestres por meio da quadra. Nesta ligação há um suporte para um gigante mural artístico, que muda a base regularmente. Este mural define o tema para a exposição que adentra nos espaços da loja, com vídeos em telas de plasma, dispostas entre itens de vestuário, livros empilhados ao lado de sapatos e monitores interativos.

 

Figura 4: Desenhos e fotos da Prada Epicenter de Bervely Hills. Fonte: Autores, 2010.Figura 4: Desenhos e fotos da Prada Epicenter de Bervely Hills. Fonte: Autores, 2010.

 2.4. Prada Epicenter (Bervely Hills, 2002-2004)

A Prada da California (fig.4) está localizada na famosa Rodeo Drive em Bervely Hills. A organização do projeto mantém uma relação de similaridade com a loja de Nova York, devido à sua horizontalidade e à necessidade de conectar dois pavimentos. Em Nova York, uma "onda" no piso desce em direção ao piso inferior. Em Los Angeles, um plano de madeira se dobra e cria uma "colina" simétrica que suporta uma caixa de alumínio flutuante no segundo pavimento. Por conseguinte, o programa principal da loja é organizado ao longo do perímetro.

A fachada tradicional, observada da Rodeo Drive, é inexistente (fig.4-centro). Sem a vitrine clássica de vidro, toda a largura da loja se abre para a rua e funde o espaço público com o privado comercial. Portanto, o acesso é planejado como uma continuidade do passeio público, democrático e acessível, assim desejado por Koolhaas em suas declarações. A separação climática é alcançada através de um sistema de cortina de ar, enquanto antenas de segurança invisíveis garantem o controle da loja. À noite, um painel de alumínio emerge do chão e fecha o prédio.

O terceiro pavimento é dominado pelo espaço de exposição. Uma planta aberta usada para alterar os arranjos da exibição, como uma ideia estendida de uma vitrine, oferecendo maneiras de apresentar roupas além da presença de trilhos e prateleiras.

 2.5. Casa da Música (Porto, 1999-2005)

(…) the Porto Casa da Música can still be treated as a perfect expression of Koolhaas’s vision. (YANEVA, 2009, p.96)

O edifício que abriga a Orquestra Nacional do Porto está localizado na região histórica da Rotunda da Boavista. Neste projeto verificamos uma clara mudança no modo de resolver o problema de uma sala de concertos tradicional. O edifício tem forma multifacetada em concreto branco, como um volume único e isolado no grande terreno. O arquiteto se apropria da metáfora de que o edifício foi gerado a partir de um ‘meteorito’ que caiu naquele local, que se distingue e contrasta com relação ao entorno.

A Casa da Música surpreende na forma, na estrutura, nos materiais e nas funcionalidades. Uma entrada com 30 metros de pé direito, um edifício que se desdobra de forma assimétrica em 7 níveis acima do solo e em 3 níveis abaixo do solo, planos de concreto branco exposto entrecortados por vidro, azulejos e veludo contrastando com o cinza do alumínio, escovado no chão e perfurado das paredes, terraços com tetos de vidro e passadeiras suspensas, a Casa da Música é um espaço que desafia os visitantes e que permite uma constante descoberta. (CASA da Música, 2015, p.44)

Com 1300 lugares, o grande auditório possui configuração retangular, com fechamentos em vidro em cada extremidade, como uma metáfora de uma nova luz sendo emitida em direção ao Porto, de modo a se tornar um local de apresentações para a cidade como um todo,. Em 2007 foi atribuído à Casa da Música (fig.5) o prêmio do Instituto Real dos Arquitetos Britânicos (RIBA), com o júri a classificar o edifício de “intrigante, inquietante e dinâmico”. (CASA da Música, 2015, p.19)

 

Figura 5: Desenhos e foto da Casa da Música no Porto com destaque para elementos de circulação. Fonte: Autores, 2015.Figura 5: Desenhos e foto da Casa da Música no Porto com destaque para elementos de circulação. Fonte: Autores, 2015.

No centro da planta está localizado o grande auditório, com todas as salas menores girando em torno deste ponto central. O tipo tradicional que o arquiteto utiliza é do pátio central, onde todos os ambientes se voltam para este ponto central. Dez salas de ensaio flexíveis e sem assentos fixos, gravações estúdios, área educacional se configuram em torno do auditório principal. O restaurante, terraço, bares e sala VIP estão localizados na cobertura. Uma cafeteria no térreo. Áreas administrativas e estacionamento subterrâneo para 600 veículos.

Portanto, a circulação em espiral é definida em torno do grande auditório. Não há um único hall ou foyer definido de maneira deliberada, como ocorre tradicionalmente numa casa de concertos. Por outro lado, um percurso é planejado no sentido de conectar os espaços ao redor do grande auditório por meio de múltiplas escadas e plataformas.

2.6. Stedelijk BASE (Amsterdã, 2017)

Considerado um dos museus mais importantes da Europa, o Museu Stedelijk sempre esteve ativo nas atividades artísticas e culturais. Os espaços e ambientes informais do museu são configurados quase como um verdadeiro prolongamento do espaço urbano de Amsterdam (Cavalcanti, 1980). Cinco anos após a inauguração da extensão do Museu Stedelijk, ocorrida em dezembro de 2017, foi aberta a Stedelijk BASE (fig.6), uma nova instalação com curadoria e concepção de Rem Koolhaas, Federico Martelli (AMO) e Margriet Schavemaker (Stedelijk). Cerca de 700 peças de obras de arte moderna e contemporânea do acervo permanente do Museu Stedelijk passaram pelo estudo cuidadoso dos curadores para que, desta maneira, este conhecimento pudesse ser organizado e espacializado.

Na extensão do Museu Stedelijk, a instalação concebida por Rem Koolhaas e Federico Martelli foi organizada a partir de duas lógicas de percurso: uma cronológica (com início em 1880), que segue o perímetro do ambiente; e a outra, organizada no centro do ambiente, por temas – históricos, sociais, autorais e icônicos, dispostos espacialmente por meio de painéis expositores verticais, que contribuem para definir diferentes caminhos e percursos, com ambientes de permanência e transição, que, deste modo, estabelecem uma metáfora da cidade.

A disposição das obras por temas foi planejada a partir da história de cada obra de arte, oferecendo ao visitante a possibilidade de criar conexões e inter-relações, de modo não habitual, muito diferente da organização linear tradicional do espaço expositivo.

A conexão entre os dois pavimentos da exposição ocorre por meio de escadas rolantes: elemento dinâmico de circulação, tão presente nas obras de Koolhaas. Um ambiente de transição entre o pavimento inferior e superior insere o visitante num verdadeiro “choque” de cores e de mensagens, numa imersão em palavras e frases de efeito. A instalação é de Barbara Kruger. Sobre a escada rolante Koolhaas observa (2014, p.1313)

The escalator, by design, represents an assault on the stair’s basic logic, rather than a development of it: a stair is a means of active conveyance; the escalator can be passive, both aiding the needy and coddling the lazy. It is a device designed not just to augment the potentials of the stair but to displace it, as the car replaced the horse-drawn carriage. Since it fails to do this, the escalator achieves a separate life, as a separate element, with its own semiotics, its own typology, its own architectural destiny. Figura 6: Fotos do Stedelijk BASE em Amsterdam. Fonte: Autores, 2018.Figura 6: Fotos do Stedelijk BASE em Amsterdam. Fonte: Autores, 2018.

 Por meio de um áudio guia do museu Rem Koolhaas explica o projeto, afirmando que o percurso criado deveria ser uma metáfora da cidade, com espaços de circulação e surpresas, lugares interessantes, extraordinários e alguns nem tanto, normais. A instalação é descrita pelo museu como an open-ended parcours. Koolhaas observa a experiência da visita como a de circular pela cidade, com ruas, praças, avenidas, e a possibilidade de encontros inesperados.  A intenção foi promover um percurso com fluidez, para o movimento, apropriado ao mundo contemporâneo.

A metáfora da cidade e a ideia do labirinto nos remete à Helio Oiticica, artista brasileiro que teve grande projeção no exterior. Sobre o processo labiríntico do espaço urbano espontâneo, Paola Berenstein Jacques (2003, p.65-67) observou que este difere do espaço urbano planificado, destacando que a única frase escrita por Oiticica em seu diário foi: ‘Aspiro ao grande labirinto’. Assim, a ideia de labirinto, seja nas artes seja na arquitetura, promove sensações corpóreas no fruidor do espaço.

Martelli destaca que o mundo contemporâneo apresenta múltiplas camadas de informação, e esta multiplicidade estimula a curiosidade. Pode-se afirmar que a narrativa não linear, e as múltiplas camadas de possibilidades visuais e informações oferecidas, estão alinhados ao modo de vida contemporâneo das pessoas. Assim, neste museu, o visitante pode criar atalhos e circular livremente pelo espaço a partir do que chamar mais sua atenção, criando conexões e associações com diferentes artes de modo inusitado e inesperado, fazendo com que a curiosidade guie sua visitação.

O percurso proposto rompe com o modo tradicional de circulação em espaços expositivos, quebrando dogmas, e, ao mesmo tempo, oferecendo liberdade na experiência do espaço e na rede de relações possíveis. As possibilidades de percursos geradas pela espacialização criada por Koolhaas reforçam a possibilidade de relações cruzadas e conexões de significados entre obras de arte, de modo a compartilhar narrativas, sem direcionar caminhos.

A mostra oferece arte em diferentes meios de expressão artística, como pintura, escultura, colagens, arquitetura, mobiliário e design. Cézanne, Van Gogh, Picasso, Malevich, Rothko, De Kooning e Pollock. Até mesmo uma réplica do dormitório Harrenstein, projetado por Gerrit Rietveld and Truus Schröder-Schräder’s, de 1926, foi construída. De um ponto de vista elevado (fig. 6-abaixo), o visitante é naturalmente convidado a subir um lance de escadas para poder continuar o trajeto e sua apreciação de obras de design do arquiteto holandês. O percurso pela estreita escada conduz ao balcão superior que tem uma vista cuidadosamente planejada, reveladora e surpreendente, onde o visitante pode observar toda a exposição do BASE e sua organização a partir de um ponto de vista superior.

O sistema expositivo, dotado por planos verticais, desenvolvido de modo inovador, e usufruindo a mais alta tecnologia, permite que os visitantes percorram os caminhos livremente e tenham visuais importantes da exposição a partir de cada ponto de localização. Portanto, foram excluídas as salas ou galerias fragmentadas tradicionais que privilegiam o domínio visual do todo pelo visitante.

Produzidos em parceria com Stedelijk, Arup e Tata Steel, os planos verticais de aço com 15mm de espessura, cortados a laser, foram desenhados de modo a oferecer estabilidade ao que se suporta. Os planos são tão finos, como telas, e promovem a fluidez, leveza e flexibilidade pretendida. São posicionados em diagonais e ângulos oblíquos entre eles, criando ambientes estreitos e amplos, oferecendo percursos não óbvios, além de perspectivas convidativas, inusitadas e surpreendentes. O uso do preto e branco também contribui para o dinamismo e contraste entre os planos no espaço.

O visitante pode escolher livremente seu percurso e criar conexões inesperadas entre arte, arquitetura e design, moderno e contemporâneo. Todos os elementos remetem ao movimento e fluidez do espaço, inclusive o desenho do forro e da iluminação (fig.6). Neste tipo de circulação, não óbvia, o visitante é encorajado a optar por diferentes percursos no espaço, para descobrir com liberdade. Portanto, trata-se de diferentes modos de propor percursos e gerar pontos de atração inesperados.

O modo tradicional de organização do espaço expositivo torna-se, portanto, algo a se revisar. O mundo contemporâneo demanda uma nova abordagem de circulação, e a proposta é oferecer uma experiência de espaço similar a encontrada numa grande cidade, onde a cada esquina há uma descoberta, um percurso, um ambiente mais amplo ou mais acolhedor, com visuais amplas, fluidas e, também, sugestivas.

 2.7. Fondazione Prada (Milano, Itália, 2018)

Localizada na antiga área industrial de Milão, os edifícios que abrigam a Fundação Prada (fig.7) foram construídos e adaptados a partir de construções do início do século XX. Instalada numa antiga destilaria de gim que data de 1910 no complexo industrial Largo Isarco, no extremo sul de Milão, a nova Fondazione Prada é uma coexistência de edifícios novos e restaurados, incluindo armazéns, laboratórios e silos de cerveja, bem como novos edifícios ao redor um grande pátio.

O complexo visa expandir o repertório de tipologias espaciais em que a arte pode ser exibida. O projeto consiste em sete edifícios existentes e também por três novas estruturas: Podium, um espaço para exposições temporárias; Cinema, um auditório multimídia; e Torre, um espaço de exposição permanente de nove andares para exibir a coleção e as atividades da fundação.

Ao entrar na Fundação Prada percebe-se um “corredor”, um percurso em direção ao edifício branco, notadamente novo em relação aos demais. Sobre o corridor, Koolhaas (2014, p.903) discute que:

The corridor becomes a global element, not confined by the scale of architecture. Though the corridor is crystalized as an escape route, paradoxically, we will never be able to escape from corridor.

Situada no canto noroeste do complexo, a Torre abriga instalações específicas do local, além de um restaurante, um espaço de recepção e instalações para os hóspedes. Os outros andares, com alturas cada vez maiores, acomodam instalações específicas do local e fornecerão vistas alternadas do complexo e da cidade. A respeito da Torre, Koolhaas (2008) evidencia que:

 

lronically, art makes no specific demands on architecture: high/low, enclosed/open, dark/light, neutral/aggressive all contrasts are at once both needed and feared. After working initially on a storage/office Tower, we propose a building that offers a catalogue of radically different architectural conditions, intended for use by artists and curators.

 O elevador é o elemento que se destaca na forma exterior deste edifício. Este elemento é motivo de reflexão do arquiteto em vários de seus textos.

O elevador questiona, invalida e ridiculariza grande parte das nossas habilidades de arquiteto. (...) A grande façanha do elevador é sua capacidade de estabelecer mecanicamente as conexões internas de um edifício, sem recorrer à arquitetura (KOOLHAAS, 2002, p.15).

  Figura 7: Desenho e fotos da Fondazione Prada, Milão, 2018. Composição de fotos selecionadas dos elementos de circulação e visuais. Fonte: Autores, 2018.Figura 7: Desenho e fotos da Fondazione Prada, Milão, 2018. Composição de fotos selecionadas dos elementos de circulação e visuais. Fonte: Autores, 2018.

 Pode-se observar neste projeto, a reflexão, questionamentos e novas proposições do arquiteto com relação ao espaço que abriga e expõe arte.  A Fondazione Prada é projetada em um antigo complexo industrial, mas com uma diversidade incomum de ambientes espaciais. A este repertório, criou-se três edifícios - um grande pavilhão de exposições, uma torre e um cinema para que a nova Fondazione Prada represente uma genuína coleção de espaços arquitetônicos, além de artísticos.

A Fondazione une antigo, preservação e novo. Condições que geralmente são mantidas separadas aqui se confrontam em um estado de interação permanente, oferecendo um conjunto de fragmentos para múltiplas leituras. Novo, velho, horizontal, vertical, largo, estreito, branco, preto, aberto e fechado. Todos esses contrastes estabelecem o leque de oposições que definem a nova Fondazione.

Ao introduzir tantas variáveis ​​espaciais, a complexidade da arquitetura promoverá uma programação instável e aberta, onde arte e arquitetura se beneficiarão dos desafios uns dos outros.

  1. Discussão. O labirinto dinâmico de Rem Koolhaas

Por meio da pesquisa realizada, envolvendo leitura dos textos do arquiteto, análises dos projetos e visitas aos edifícios, entre outras etapas da metodologia, pudemos verificar e confirmar o pressuposto formulado inicialmente, além de outras constatações que foram possíveis durante a investigação.

O desenvolvimento de um projeto de arquitetura é algo complexo que envolve muitas questões. Pode-se verificar a real importância do sistema e elementos de circulação para a definição do partido arquitetônico. Foi possível identificar como os percursos planejados em cada projeto materializam os conceitos definidos pelo arquiteto. Portanto, há uma importante e íntima relação entre programa de necessidades, conceito, partido, e a circulação, percurso e suas visuais.

Considerando que “labirinto” se caracteriza por uma “construção onde uma rede de salas e galerias se entrecruzam de tal maneira que fica difícil encontrar a saída”, e “dinâmico”, “relativo ao movimento, que se modifica continuamente”, pode-se afirmar que a experiência de vivenciar os espaços concebidos por Koolhaas é como um labirinto dinâmico, com visuais inesperadas ao longo do percurso que exige um usuário ativo, como numa metáfora do mundo contemporâneo (fig.8).

 Figura 8: Composição de fotos dos elementos de circulação e das visuais dos edifícios analisados. Fonte: Autores, 2018.Figura 8: Composição de fotos dos elementos de circulação e das visuais dos edifícios analisados. Fonte: Autores, 2018.

Conceituados pesquisadores apontaram a importância da circulação na definição espacial de obras específicas de Rem Koolhaas. Josep Maria Montaner (2009, p.163), por exemplo, destaca a importância da circulação para organizar o programa. Por outro lado, Alejandro Zaera-Polo (1995, p.70), ao analisar o projeto da Biblioteca da França (1989), discute o conceito da espiral, definindo-a como um plano contínuo, ou seja, como metáfora ao programa da biblioteca, que fundamenta tal projeto. Em sua dissertação de mestrado Franklin R. F. de Paula (2010, p.117) analisa dois projetos de Koolhaas, destacando a importância do diagrama de circulação na Seattle Central Library, que, segundo o autor, é um percurso em espiral.  Vinícius Galindo (2018, p.99) observa que o intricado esquema de circulação da biblioteca de Seattle, com frequência desorienta seus usuários, mas provoca uma experiência complexa e diversificada. Já Leonardo Benevolo (2007, p.234) aponta que no caso da Biblioteca de Seattle, o dispositivo interno, um revolucionário depósito, Book Spiral, foi capaz de abrigar em sequência um milhão e meio de livros, determinando assim o projeto como um todo. Contudo, Koolhaas (2009, p.60) declara que as questões do projeto de Seattle são os visitantes de massas, a experiência central de serenidade, e a proximidade das obras, estabelecendo uma relação entre a circulação, percurso, e o conceito do projeto, que envolve a lentidão e a rapidez, uma metáfora do mundo contemporâneo.

Nos projetos analisados, com caráter cultural, verificamos um programa que requer espaços públicos, acessíveis, e com circulação funcionalmente bem solucionada. A ideia da circulação em “espiral” pode ser observada em diversas ocasiões. Esses problemas de projeto, propostos e solucionados pelo arquiteto, geraram espaços dinâmicos, que exigem do usuário uma participação ativa. Por outro lado, ao analisar estes projetos, foi possível verificar as soluções de problemas não apenas funcionais, mas conceituais. Koolhaas se apropria do desenvolvimento do projeto para promover e transmitir mensagens e metáforas relacionadas ao mundo contemporâneo. E neste sentido a circulação, percursos, visuais e seus elementos contribuem para a materialização destes objetivos. Neste sentido, a definição da circulação, dos percursos, e exploração de visuais contribuem para a materialização destes objetivos, cuja origem é conceitual. De fato, como observado pelo júri que decidiu sobre a premiação do arquiteto ao Prêmio Pritzker em 2000, a circulação é definidora de sua arquitetura:

He has demonstrated many times over his ability and creative talent to confront seemingly insoluble or constrictive problems with brilliant and original solutions. In every design there is a free-flowing, democratic organization of spaces and functions with an unselfconscious tributary of circulation that in the end dictates a new unprecedented architectural form. His body of work is as much about ideas as it is buildings.

A partir de pressupostos iniciais, leituras, visitas e análises por desenhos, é possível afirmar que:

  • O sistema de circulação atua como definidor do partido arquitetônico;
  • Os elementos de circulação materializam conceitos e metáforas;
  • O percurso no projeto é planejado para direcionar o olhar e as visuais dos usuários, com a intenção de despertar sensações e a percepção do espaço;
  • A circulação deve ser dinâmica, com percursos variados, oferecendo assim possibilidades de escolhas, e descobertas inesperadas;
  • O modelo conceitual contemporâneo de percurso e circulação deve ser um híbrido entre os modelos moderno e pós-moderno, onde o percurso é organizado de modo que o usuário tenha visuais completas do espaço, e/ou descobertas e surpresas ao caminhar, quadro a quadro;
  • O sistema de circulação não se apresenta meramente funcional, mas cria e promove situações flexíveis com ambientes de permanência, de encontro e de sociabilização.
  • Os espaços são acessíveis e públicos;
  • Os espaços internos dos edifícios promovem uma experiência multissensorial durante os percursos pelos ambientes, desde o acesso, passando pelos vários elementos de circulação.
  • Os espaços promovem o movimento e interação ativa, e não passividade do usuário. 
  1. Considerações finais

A obra de arquitetos importantes, como é o caso de Rem Koolhaas, é rica de significados e repleta de possibilidades de interpretação. Há lacunas a serem preenchidas por pesquisas futuras, tanto no âmbito da área de projeto de arquitetura, como na área de teoria e história. Esta pesquisa tem o objetivo de focar e analisar a percepção e o movimento das pessoas pelo espaço, relacionando circulação e percurso, teoria e projeto. Assim, oferece uma análise interpretativa de edifícios culturais concebidos por Rem Koolhaas, a partir desta abordagem original.

Diante das análises realizadas é possível afirmar que o sistema de circulação e seus elementos materializam conceitos, definem e estruturam o partido arquitetônico dos projetos analisados, além de corresponder as intenções do próprio arquiteto em seus escritos e declarações.

As rupturas, as transgressões, o simbólico e o metafórico estão presentes na sua arquitetura, seja pela disposição dos elementos de circulação, seja pela conexão entre setores no espaço. Rampas, escadas e elevadores oferecem também uma interpretação simbólica de fazer unir e fragmentar, e ao mesmo tempo criar espaços internos e externos, valorizando e questionando o espaço “entre”, o intervalo, e o circular livre e espontâneo das pessoas: o labirinto dinâmico de Rem Koolhaas.

 

Agradecimentos

Ao CNPq, pelo auxílio financeiro à pesquisa “Espaço, Percurso, Tempo e Movimento.  Análise de Projetos como foco no sistema de circulação como sistema estruturador do partido”, que investiga circulação e percurso pelos espaços em arquitetura.  

 

Referências

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GALINDO, V. B. M. Da cidade genérica ao Junkspace. O pensamento de Rem Koolhaas sobre a cidade contemporânea. Dissertação (Mestrado em Arquitetura). Natal: UFRN, 2018.

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TAGLIARI, A.; FLORIO, W. Stedelijk BASE. Proposta de um percurso dinâmico para o espaço expositivo. Uma metáfora da cidade por Koolhaas e Martelli. Arquiteturismo, n.147-4, ano 13, junho 2019.

ZAERA-POLO, A. 1987-1992 OMA/Rem Koolhaas. El croquis 53. Madrid: El Croquis Editorial, n. 53, 1995.

 

Minicurrículos:

 

Ana Tagliari

Docente e pesquisadora da FEC e PPGATC Unicamp, Curso de Arquitetura e Urbanismo, Engenharia Civil e Programa de Pós-Graduação Arquitetura, Tecnologia e Cidade. Arquiteta (FAU Mackenzie), Mestre (IA Unicamp) e Doutora em Arquitetura, área de concentração Projeto de Arquitetura (FAUUSP, 2012). Líder do Grupo de Pesquisa “Arquitetura: Projeto, representação e análise” (Unicamp/CNPq).

Correio eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Link Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2677036623981440

 

Wilson Florio

Professor Adjunto Permanente do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Professor Adjunto do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Ex-Coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie. Coordenador de Projeto de Internacionalização "Cidade, Projeto e Equidade".

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Link para Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2268543062941592

 

 

Como citar:                                                   

TAGLIARI, Ana; FLORIO, Wilson. O labirinto dinâmico de Rem Koolhaas. Circulação e percurso em espaços de arte e cultura. 5% Arquitetura + Arte, São Paulo, volume 01, número 20, e149, p. 1-22, jul./dez., 2020. Disponível em: http://revista5.arquitetonica.com/index.php/periodico-1/ciencias-sociais-aplicadas/o-labirinto-dinamico-de-rem-koolhaas-circulacao-e-percurso-em-espacos-de-arte-e-cultura

 

Submetido em: 2020-04-22

Aprovado em: 2020-11-23 

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