Duas faces da modernidade arquitetônica brasileira. Analogias e diferenças entre o Edifício Conde Matarazzo em São Paulo e o Ministério da Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro

Categoria: Ciências sociais aplicadas: Arquitetura Imprimir Email

ALESSANDRA BEDOLINI

Resumo:

O presente artigo apresenta duas obras arquitetônicas coevas e representativas de duas diferentes acepções de Modernidade: o Edifício Conde Matarazzo em São Paulo (1935-1939) e o Ministério da Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro (1935-1943). O primeiro, considerado um interessante exemplo de arquitetura fascista fora da Itália, foi financiado por um abastado empreendedor de origem italiana como sede administrativa de suas empresas (as Indústrias Reunidas Matarazzo) e realizado de acordo com as diretrizes projetuais do italiano Marcello Piacentini contando com a presença, no canteiro de obras, de seu colaborador Vittorio Ballio Morpurgo. O segundo, construído por ordem do então Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema, apresenta traços característicos da lectio corbusiana do período purista, posição assumida pela equipe de arquitetos brasileiros encarregados pela execução do projeto e efetivada pela presença de Le Corbusier no papel de consultor.

As argumentações presentes no artigo foram embasadas em pesquisas bibliográficas e visitas de campo. Objetivo desta contribuição é reconstruir o contexto histórico e ilustrar as características arquitetônicas, construtivas e artísticas das duas obras, tentando explicar por quais razões ambas, apesar das evidentes diferenças presentes em suas soluções formais, eram consideradas Modernas pela sociedade brasileira da época a partir de conceitos não meramente estéticos, mas inerentes suas materialidades, sua eficiência e sua funcionalidade.

Palavras-chave: Arquitetura moderna brasileira. Marcello Piacentini. Le Corbusier.

 

Questão de pontos de vista: modernidades comparadas

Dentro do contexto histórico brasileiro, a palavra “regime” identifica geralmente os vinte anos da Ditadura Militar (1964-1984), período durante o qual a experiência da arquitetura moderna, que teve no Brasil uma duração mais extensa se comparada com outros contextos nacionais 1 , já estava próxima ao seu término 2. Contudo, o Brasil vivenciou outra fase – também caracterizada pela presença de um governo de cunho autoritário – correspondente à Era Vargas (1930-1945), assim chamada em virtude de sua conexão com a atividade política do então Presidente Getúlio Vargas (1882-1954).

Inaugurada em 1930 como resultado das ações de um movimento armado político-militar (a Revolução de 1930) em contraste com a configuração política vigente, prosseguida em 1934 com a proclamação da Nova República e por fim concluída com a fundação do Estado Novo após o golpe de 1937, a Era Vargas caracterizou-se por um processo de transformação estrutural, no âmbito do qual o Estado empregou seus recursos econômicos e educacionais na formação de cidadãos novos (o assim chamado Homem Novo), plenamente conscientes de sua própria identidade.

Líder de um movimento político marcadamente nacionalista, Vargas promoveu numerosas iniciativas finalizadas à construção de uma identidade genuinamente brasileira; para atuar este propósito, o Presidente e seus Ministros trabalharam em diversos âmbitos, entre os quais registraram-se significativas iniciativas para favorecer o progresso do País em âmbito cultural que envolveram, também, os campos da arquitetura e da arte. Uma das iniciativas mais determinantes neste sentido foi a instituição, em 1930, do Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP), órgão encarregado de fortalecer - espiritualmente e fisicamente - os novos homens e mulheres brasileiros.

Visando realizar um projeto político tão ambicioso e complexo, da mesma maneira atuado por outras configurações políticas análogas, as artes foram também envolvidas na construção do tão desejado Novo. Desta maneira, a produção arquitetônica tornou-se representação de uma determinada orientação cultural e entrelaçou-se à construção de um Estado Nacional moderno, embasado no ideal de nacionalidade como principal critério de identidade e definido por uma estrutura racionalizada, funcional e eficiente.

Isto não significa, todavia, que, para melhor representar a nova configuração política, tenha sido imediatamente escolhida a arquitetura decorrente da progressiva adoção, em território nacional, das proposições do Movimento Moderno: não neste momento, pelo menos. Num primeiro momento, com efeito, a afirmação deste tipo de linguagem arquitetônica se deu de maneira bastante lenta, tornando-se mais consistente nas décadas de 1940 e 1950 para, afinal, alcançar seu ápice durante a presidência de Juscelino Kubitschek e a consequente construção da nova Capital, Brasília, fundada em 1957.

A inicial lentidão em aceitar a arquitetura moderna de derivação internacional deve-se, em primeiro lugar, à dificuldade de estabelecer com clareza ao que, exatamente, corresponderia o conceito de modernidade. No Brasil das décadas de 20 e 30, com efeito, a ideia de uma arquitetura moderna estava ligada principalmente com os aspectos materiais e construtivos da obra, deixando em segundo plano a linguagem arquitetônica propriamente dita (RECHDAN, 2011)3.

Consequentemente, os edifícios realizados no âmbito de movimentos que utilizavam referências historicistas como, por exemplo, o Neocolonial, eram considerados modernos tanto quanto os que se inspiravam nas vanguardas europeias, pois, assim como estes últimos, valiam-se de materiais e técnicas construtivas de tipo não tradicional. Um exemplo claro desta posição observa-se comparando as sedes do Ministério da Fazenda e do Ministério da Educação e Saúde Pública, construídas no mesmo período no Rio de Janeiro. A primeira obra (visível no plano de fundo da Figura 1 através dos pilotis da segunda) apresenta elementos decorativos de inspiração historicista; a segunda, pelo contrário, articula-se a partir de traços marcadamente corbusianos. Apesar disso, tendo sido concebidas com base em ideais funcionalistas, e sendo sustentadas por sistemas estruturais em concreto armado, ambas as obras eram consideradas, por parte da opinião pública e por boa parte dos profissionais da área, exemplos de arquitetura moderna.

À luz deste recorte, focado prevalentemente nos aspectos técnicos e materiais – e que permite distinguir, dentro do conceito de Moderno, edifícios portadores de diferentes modernidades – serão analisadas duas obras realizadas na mesma época (entre a segunda metade da década de 30 e os primeiros anos 40) e localizadas, respectivamente, em São Paulo e Rio de Janeiro. Fato curioso, as vicissitudes que levaram à construção dos dois edifícios apresentam uma série de interessantes analogias. Em primeiro lugar, ambos resultaram de concursos (promovidos por particulares, o primeiro, e pelo Estado, o segundo) cujo êxito não agradou os clientes, tornando assim necessário operar uma revisão dos projetos vencedores. Em segundo lugar o fato que, durante a reelaboração dos projetos, registrou-se a presença de arquitetos estrangeiros (respectivamente, Marcello Piacentini e Le Corbusier), convidados no Brasil para fornecerem consultorias.

Figura 1: A sede do Ministério da Fazenda (atual Palácio da Fazenda) aos fundos, através dos pilotis do MESP  (atual Palácio Capanema) no Rio de Janeiro  (Autoria: A. Bedolini, 2011).Figura 1: A sede do Ministério da Fazenda (atual Palácio da Fazenda) aos fundos, através dos pilotis do MESP (atual Palácio Capanema) no Rio de Janeiro (Autoria: A. Bedolini, 2011).

O primeiro caso, o Edifício Conde Matarazzo, foi construído por um abastado empreendedor de origem italiana como sede administrativa de suas empresas (as Indústrias Reunidas Matarazzo), e constitui um interessante exemplo de arquitetura fascista fora da Itália. O projeto definitivo foi desenvolvido por Marcello Piacentini a partir de uma proposta anteriormente concebida por um escritório paulistano; a elaboração do projeto executivo e a construção do edifício foram confiadas ao arquiteto romano Vittorio Ballio Morpurgo, colaborador de Piacentini.

O segundo caso, o Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP), foi construído por ordem do então Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema; sua configuração definitiva deriva, mais uma vez, da revisão do projeto vencedor do concurso lançado pelo Ministro. A concepção do edifício, em termos tanto de articulação dos espaços quanto de solução formal, apresenta traços característicos da lectio corbusiana do período purista, posição assumida pela equipe de arquitetos brasileiros encarregados pela execução do projeto definitivo e efetivada pela presença de Le Corbusier no papel de consultor.

O Edifício Conde Matarazzo em São Paulo

A chegada do arquiteto italiano Marcello Piacentini ao Brasil foi propiciada por uma carta datada 12 de junho de 1935 e assinada pelo Ministro da Educação Gustavo Capanema.

Incumbido pelo Presidente Getúlio Vargas de planejar um processo de rigorosa reorganização da estrutura educacional e cultural do Estado Novo, Capanema havia decidido aproveitar a experiência de Piacentini neste tipo de projeto (remonta ao mesmo ano a edificação da Cidade Universitária de Roma) e o convidava para elaborar uma proposta para a nova cidade universitária do Rio de Janeiro, sucessivamente abandonada. Durante sua estadia no Brasil, de 13 a 24 de agosto de 1935, Piacentini teve oportunidade de visitar São Paulo, cidade onde lhe foi cofiada a revisão de um projeto já parcialmente encaminhado: o da sede das Indústrias Reunidas Matarazzo.

Alguns meses antes, o conde Francisco Matarazzo Júnior, abastado empresário de origem italiana, havia convocado um concurso voltado à elaboração de um projeto para o edifício-sede de suas empresas, a ser construído num importante terreno localizado no novo centro empresarial da capital paulista. O concurso havia sido ganho pelo Escritório Técnico Severo & Villares, a mesma empresa edilícia que, em fase de construção, teria cuidado também do canteiro de obras. Todavia a proposta, com suas fachadas marcadas por elementos decorativos historicizantes de matriz eclética, não havia satisfeito o cliente. Portanto, visando contornar o descontentamento suscitado pela aparência superada da solução vencedora, foi confiada a Piacentini uma revisão do projeto, que deveria ser reformulado a partir dos parâmetros de derivação clássica que ele havia desenvolvido no âmbito do movimento racionalista italiano.

Realizado a partir das diretrizes do arquiteto romano, o edifício constitui um interessante exemplo de arquitetura fascista fora da Itália e, com seus treze pavimentos, é um dos poucos projetos de edifícios verticalizados elaborados por Piacentini durante sua trajetória profissional. Esta solução em altura, solicitada pelo cliente, alinhava-se ao contexto arquitetônico brasileiro da época, durante o qual nos principais centros urbanos havia começado, já há alguns anos, a corrida para a verticalização inspirada pelos arranha-céus norte americanos (TOGNON, 1999).

Após sua primeira estadia, Piacentini nunca mais voltou ao Brasil. A direção das obras de construção do edifício, ocorridas entre 1937 e 1939 e realizadas por Severo & Villares (a mesma empresa que havia ganho o concurso convocado por Matarazzo), foi entregue a Vittorio Ballio Morpurgo (1890-1966), seu colaborador de confiança. O engenheiro e arquiteto romano permaneceu no Brasil durante três meses, viajando entre Rio de Janeiro e São Paulo para acompanhar os diversos encargos confiados ao escritório de Piacentini pelos clientes brasileiros 5.

O Edifício Conde Matarazzo ocupa um terreno caracterizado por forte declividade, situado em cima do desnível existente entre o relevo natural que abriga o centro histórico da cidade de São Paulo e o vale fluvial do Anhangabaú, reorganizado alguns anos antes de acordo com o projeto do urbanista francês Joseph-Antoine Bouvard, que o havia transformado em um prestigiado parque linear. O acesso aos dois pavimentos inferiores do imóvel, que constituem uma espécie de subsolo, acontece pelo nível do parque; o terceiro andar, correspondente à entrada principal, se dá por uma cota mais alta, que coincide com o cume da colina e com o leito carroçável do Viaduto do Chá, infraestrutura construída para ligar o topo dos dois relevos que flanqueiam o pequeno vale.

O volume, em forma de paralelepípedo, é extremamente compacto e adota uma solução clássica tripartida, constituindo-se como uma verdadeira “coluna urbana” composta por base (ocupada por pórticos), volume central (marcado por aberturas retangulares, encavadas em profundos nichos que escavam a fachada em sulcos longitudinais) e coroamento (enfatizado por um beiral contínuo muito saliente, inserido entre o décimo primeiro e o décimo segundo pavimento). A solução tripartida observa-se em outras obras de Piacentini desenvolvidas em altura, como a proposta apresentada para o concurso da sede do Chicago Tribune (1922), o Torreão da INA em Brescia (1928-32) e o Edifício Invernizzi (hoje conhecido como Torre Piacentini) em Genova (1937-41). A partir do terceiro pavimento as quatro fachadas, revestidas em mármore travertino branco importado da Itália, são marcadas por uma geometria regular, apresentam os mesmos princípios compositivos e são construídas com base em sólidos critérios de simetria.

A solução arquitetônica é enriquecida pela presença de elementos artísticos de valor considerável. Os cinco portais monumentais que propiciam o acesso ao grande saguão localizado no térreo (que, na verdade, corresponde ao terceiro nível acima do solo) são complementados por cinco baixos-relevos que representam as atividades produtivas das Indústrias Reunidas Matarazzo, quais o setor têxtil, a indústria, a agricultura, a manufatura química e o comércio. Internamente, o forro do amplo salão com gabarito duplo é sustentado por uma série de pilares com seção quadrada; os dois mais próximos do acesso principal são adornados por relevos monumentais esculpidos no travertino, representando cenas de trabalho nas fábricas e nos campos (Figuras 2 e 3). Os relevos são atribuídos (TOGNON, 1999) ao escultor figurativo italiano Francesco Coccia, colaborador frequente de Morpurgo em obras como os edifícios residenciais do IRBS (Istituto Romano Beni Stabili) na rua Antonelli em Roma, de 1936 6. Na parede de fundos do grande saguão, acima dos seis elevadores, um mapa monumental do Brasil realizado com a técnica do mosaico ilustra a distribuição das filiais das Indústrias Matarazzo no território nacional.

 Figuras 2 e 3: Relevos esculpidos no Ed. Conde Matarazzo (Autoria: A. Bedolini, 2016).Figuras 2 e 3: Relevos esculpidos no Ed. Conde Matarazzo (Autoria: A. Bedolini, 2016).     

Figuras 2 e 3: Relevos esculpidos no Ed. Conde Matarazzo (Autoria: A. Bedolini, 2016).Figuras 2 e 3: Relevos esculpidos no Ed. Conde Matarazzo (Autoria: A. Bedolini, 2016).

O Ministério da Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro

O segundo caso apresentado é o do Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP), construído no Rio de Janeiro, então Capital Federal, entre 1937 e 1943 e inaugurado em 1945, poucos meses antes da destituição do Presidente Vargas. O edital para a construção do edifício foi banido pelo recém sediado Ministro da Educação Gustavo Capanema em fevereiro de 1935.

Dentro do plano de minuciosa reorganização estadual promovida por Vargas, as novas sedes dos Ministérios deveriam constituir uma expressão física da nova ordem estabelecida; para presidir de maneira o mais competente possível ao júri que julgaria o concurso, portanto, Capanema havia estudado pormenorizadamente uma série de edifícios de uso análogo, construídos nos mesmos anos na Europa e nos Estados Unidos. O Ministro nunca havia se declarado defensor de uma linguagem arquitetônica específica (e diversas eram as que, na época, disputavam a primazia no contexto arquitetônico nacional 7; todavia, ele tinha ideias bem claras no que diz respeito ao tipo de edifício que desejava construir, e que deveria ser racional, eficiente e moderno. Capanema, ademais, estava com pressa de concluir o processo, pois em 1938 o prazo da Presidência de Vargas teria se esgotado sem possibilidade de reeleição 8.

O terreno escolhido para a sede do Ministério, com formato retangular e perfeitamente plano, não apresentava desafios do ponto de vista topográfico e morfológico; todavia, a legislação urbanística que regulava o uso e ocupação do solo daquela área da cidade apresentava uma série de prescrições extremamente restritivas. A “Esplanada do Castelo”, área dentro da qual o terreno estava localizado, era uma área central mas de recente urbanização, resultando da demolição de um relevo natural: a colina histórica d Castelo 9.

 Trinta e cinco projetos, elaborados por trinta e quatro arquitetos, participaram do concurso. O processo seletivo articulava-se em duas etapas de avaliação subsequentes: após a primeira, já haviam sido desclassificadas trinta e duas propostas que, de acordo com o júri, violavam pelo menos uma das normas estabelecidas pelo edital ou pela legislação local. Desta maneira, apenas três projetos participaram da segunda etapa de avaliação que, afinal, acabou premiando a única proposta que não ultrapassava o orçamento estipulado. O desfecho do concurso, porém, foi infausto: com seus elementos decorativos inspirados nas cerâmicas marajoara do Norte do Brasil e sua solução espacial excessivamente rígida, com efeito, a proposta elaborada pelo arquiteto Arquimedes Memória decepcionou o Ministro, que optou por não a concretizar. Conforme já foi dito, Capanema nunca havia posicionado em favor de nenhum dos movimentos que, naqueles anos, disputavam entre si o domínio da cena artística e arquitetônica brasileira: seu principal objetivo era, simplesmente, responder de maneira eficiente às questões técnicas e administrativas que, segundo ele, o projeto de Memória não conseguiria absolver de maneira adequada. Valendo-se, assim, de uma cláusula que ele havia oportunamente inserido no edital, Capanema resolveu não edificar o projeto vencedor, que sim recebeu o devido prêmio em dinheiro, mas foi imediatamente posto de lado. Devido ao cronograma enxuto, porém, tornava-se necessário encontrar uma solução alternativa; assim, o intelectual de vanguarda e chefe do gabinete do Ministro, Carlos Drummond de Andrade, sugeriu que Capanema confiasse ao arquiteto Lucio Costa a liderança de uma equipe 10encarregada pela elaboração de um novo projeto.

Foi exatamente neste momento que os êxitos do convite feito por Capanema a Piacentini em maio de 1935 para a elaboração do plano da Cidade Universitária do Rio de Janeiro – e já resumidas na primeira parte deste artigo – entrelaçaram-se com os fatos que propiciaram a presença de Le Corbusier no Brasil em julho de 1936. A equipe de arquitetos reunidos por Costas, com efeito, compunha-se de jovens admiradores do mestre franco-suíço, adversos às ideias piacentinianas, que eles consideravam portadoras de uma identidade fascista e romana, desprovida de qualquer internacionalidade. Por isso, eles reivindicaram a necessidade de atuar uma nova arquitetura embasada nos princípios do Esprit Nouveau, como a economia, a racionalização, a compatibilidade com as especificidades climáticas e o respeito da tradição, mas sem reproduzi-la passivamente.

Le Corbusier havia visitado a América Latina alguns anos antes, em 1929 11, em ocasião d um ciclo de palestras proferidas na Argentina e no Brasil, durante as quais havia tido a oportunidade de divulgar suas ideias e fazer com que elas fossem apreciadas. Após muito insistir com o Ministro Capanema e até mesmo com o próprio Presidente Vargas, Lucio Costa, líder intelectual do grupo ao qual havia sido confiada a elaboração do novo projeto do MESP, conseguiu subvenções do Governo Federal para financiar uma nova viagem de Le Corbusier ao Brasil. Oficialmente, o arquiteto francês apresentaria um novo ciclo de palestras; na realidade, durante sua estadia, Le Corbusier teria trabalhado como consultor nos projetos da nova Cidade Universitária (substituindo, assim, a proposta de Piacentini) e do MESP.

 À luz do cronograma excepcionalmente enxuto, Le Corbusier desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de julho de 1936 após uma viagem de dois dias a bordo do zepelim Hindenburg; sua estadia durou cerca de um mês, até 15 de agosto do mesmo ano. O projeto definitivo do MESP foi elaborado em seguida, com base em seus esboços, resultando num dos primeiros exemplares de arquitetura de inspiração corbusiana na escala monumental.

O edifício articula-se em dois paralelepípedos em lâmina de diferentes alturas, que se conectam perpendicularmente  configurando um conjunto com implantação assimétrica. O volume mais baixo abriga um auditório e um espaço expositivo, acima do qual foi implantado um jardim suspenso projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx. O outro bloco é constituído por uma torre de dezesseis andares ocupada por escritórios.

Observam-se, na solução final, quatro dos cinco “pontos da nova arquitetura” (o único ausente é a janela em fita) publicados na revista L’Esprit Nouveau em 1926. Os pilotis do piso térreo levantam os dois volumes, favorecendo uma total permeabilidade do quarteirão, que pode ser cruzado livremente em todas as direções. As coberturas planas são utilizadas: acima do bloco mais baixo há um jardim suspenso, enquanto no topo da torre foi alocado um restaurante panorâmico para os funcionários do Ministério, transformado em escritório na década de 1960. Por fim, a estrutura independente em concreto armado permite compor livremente plantas e fachadas, concretizando assim os conceitos de planta livre e fachada livre.

Apesar da inspiração marcadamente corbusiana, o MESP é também um emblema das contribuições locais ao desenvolvimento da arquitetura moderna. Na composição do edifício, com efeito, observa-se a presença de três elementos considerados (BRUAND, 1981) característicos de uma modernidade genuinamente brasileira e amplamente reproduzidos em numerosos projetos da época. Em primeiro lugar, a aplicação de sistemas para a amenização da incidência solar: os brises-soleil constituíam uma evolução dos tradicionais sistemas de sombreamento, como os muxarabis, grades fixas de madeira ou cerâmica de origem inicialmente islâmica e sucessivamente ibérica, utilizados no período colonial. Além de desempenhar uma função de sombreamento, os brises-soleil propiciavam também efeitos estéticos consideráveis, doando às fachadas plasticidade, dinamicidade e infinitas possibilidades de se brincar com os efeitos de luz e sombra, enriquecendo assim a textura das superfícies arquitetônicas.

Segundo elemento amplamente desenvolvido em âmbito regional são os revestimentos cerâmicos (Figura 4), importante referência à tradição colonial dos azulejos de majólica de origem árabe, difusamente utilizados pelos portugueses em sua pátria e em suas colônias ultramarinas. A partir da década de 19830, os arquitetos brasileiros colaboraram com frequência com artistas plásticos que propuseram uma releitura dos temas e dos desenhos dos azulejos tradicionais: é o caso dos famosos painéis de majólicas brancas e azuis realizados por Cândido Portinari no MESP. O emprego destes elementos estabeleceu uma sólida relação entre pintura e arquitetura, até constituir uma verdadeira ponte entre edilícia e artes figurativas – o que constitui a base do conceito de Síntese das Artes 12, reconhecível tanto no Edifício Conde Matarazzo quanto no MESP já que os espaços arquitetônicos de ambos são complementados por obras de arte de natureza variada quais pinturas, esculturas, relevos, painéis de azulejaria e mosaicos.

 Terceiro e último elemento, o paisagismo tropical: o reconhecimento do valor e da beleza da flora brasileira promoveu a criação de “jardins nacionais” com desenhos abstratos, inspirados na concepção figurativa das pinturas murais e dos painéis cerâmicos realizados a partir do conceito da interpenetração das formas. Trata-se de uma verdadeira “pintura dos jardins” em evolução contínua: arte figurativa que nasce, cresce e se desenvolve oferecendo estímulos visíveis e táteis de hora em hora novos e diferentes (BEDOLINI, 2007).

  Figura 4: Painel de azulejos de Cândido Portinari (Autoria: A. Bedolini, 2016).Figura 4: Painel de azulejos de Cândido Portinari (Autoria: A. Bedolini, 2016).

Considerações finais

Ainda no final da década de 1930, no Brasil, costumava-se definir Moderno o edifício capaz de alinhar-se com as mais recentes inovações no campo das técnicas construtivas e do conforto termoacústico (RECHDAN, 2011). Moderna, ademais, era aquela obra que se inseria de maneira conveniente na paisagem urbana das grandes metrópoles, fornecendo respostas adequadas às demandas por elas impostas. As referências adotadas para a construção de uma arquitetura nova, portadora de modernidade dos pontos de vista técnico e funcional, eram buscadas nas publicações europeias e norte americanas, constituídas prevalentemente por revistas especializadas nos âmbitos da arquitetura e da engenharia. Quando a indústria nacional, ainda embrionária, não tinha como fornecê-los, os materiais e as componentes edilícias, necessários para contribuir à modernização do Estado Nacional brasileiro, eram importados do exterior.

A arquitetura constituía uma manifestação física das políticas de desenvolvimento atuadas pelo Estado; isso, todavia, não acontecia através de desdobramentos meramente estéticos ou atrelados a uma única linguagem arquitetônica, e sim em termos de materialidade, de eficiência, de funcionalidade. Neste contexto, portanto, o Edifício Matarazzo e o Ministério da Educação e Saúde Pública, cada um com sua específica composição arquitetônica, mas ambos concebidos a partir de princípios funcionalistas e realizados por meio de técnicas construtivas não tradicionais, constituíam duas distintas versões da maneira de conceber a modernidade arquitetônica.

Referências:

BEDOLINI, Alessandra. Architetture moderne brasiliane: identità e tutela. L’Instituto Sedes Sapientiae di Rino Levi a São Paulo. 2007. Trabalho final de graduação. Facoltà di Architettura, Politecnico di Milano, Milano, 2007

BEDOLINI, Alessandra. Banco Hipotecário Lar Brasileiro. Análise das realizações no Estado de São Paulo (1941-1965). 2014. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, USP, 2014

BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981

CIUCCI, Giorgio. Gli architetti e il fascismo. Architettura città 1922 – 1944. Milano: Einaudi, 1989

LISSOVSKY, Maurício. DE SÁ, Paulo Sérgio Moraes. Colunas da educação. Rio de Janeiro: MINC/IPHAN; Fundação Getúlio Vargas/CPDOC, 1966

LORES, Raul Justes. São Paulo nas alturas. São Paulo: Três estrelas, 2017

RECHDAN, Luís Henrique Junqueira de Almeida. Moderno entre modernos. São Paulo: Annablume, 2011

SEGRE, Roberto. Ministério da Educação e Saúde. Ícone urbano da modernidade brasileira (1935-1945). São Paulo: Romano Guerra, 2013

TOGNON, Marcos. Arquitetura italiana no Brasil. A obra de Marcello Piacentini. Campinas: Editora UNICAMP, 1999

 

 Notas: 

1 É opinião difusa entre os historiadores da arquitetura moderna que a arquitetura moderna brasileira esteja ligada principalmente à lectio corbusiana do período purista (ou seja, à praxe projetual adotada por Le Corbusier na década de 1920), hipótese corroborada pela presença do arquiteto franco-suíço na América do Sul nos anos 20 e 30 e concretizada pelo papel de consultor por ele desempenhado em ocasião da construção do MESP. Para aprofundamentos acerca da relação intercorrente entre os expoentes do modernismo brasileiro e Le Corbusier, cf., por exemplo, MINDLIN, H. Modern architecture in Brazil. New York: Reinhold Publishing Corporation, 1956; DOS SANTOS, C. R. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto, 1987; NOBRE, A. (org.) Lúcio Costa. Um modo de ser moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2004; RAGON, M. Histoire Mondiale de l’architecture et de l’urbanisme moderne. Tournai: Casterman, 1971

2 Numerosos historiadores da arquitetura afirmam que a fundação de Brasília (1957) coincide com a fase final da produção arquitetônica moderna no Brasil. Para aprofundamentos, cf., por exemplo, FICHER, S. ACAYABA, M. Arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Projeto, 1982; BASTOS, M. A. J. Pós-Brasília: rumos da arquitetura brasileira. São Paulo: Perspectiva, 2003; GORELIK, A. Das vanguardas a Brasília: cultura urbana e arquitetura na América Latina. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005 ; MONTEZUMA, R. (org.) Arquitetura Brasil 500 anos: uma invenção recíproca. Recife: UFPE, 2002; ANDREOLI, E. FORTY, A. (org.) Arquitetura moderna brasileira. London: Phaidon Press, 2004; CAVALCANTI, L.; DO LAGO, A. Ainda moderno? Arquitetura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005; CONDE, L. KATINSKY, J. PEREIRA, M. Arquitetura brasileira após Brasília. Depoimentos. Rio de Janeiro: IAB RJ, 1978

 3 Uma idéia de modernidade reconhecível também de um ponto de vista estético (e embasada, por exemplo, na ideia de abolição da ornamentação e das referências historicistas) difundiu-se entre os arquitetos brasileiros a partir da segunda metade da década de 1930. Os escritos dos arquitetos Gregori Warchavchik e Rino Levi, publicados em 1925 como reivindicação da necessidade de renovar a arquitetura nacional, constituem uma rara exceção. Para aprofundamentos, cf. WARCHAVCHIK, G. Acerca da architectura moderna e LEVI, R. Arquitetura e estética das cidades.

4 Na Itália, durante os vinte anos de vigência do Regime Fascista (1922 – 1943) floresceram numerosas tendências arquitetônicas, comunmente agrupadas, de maneira abrangente, sob o nome de Arquitetura Fascista. Na verdade, ao analisar as características específicas das diferentes contribuições, podem ser distinguidas três correntes principais: a arquitetura racionalista (alinhado com as vanguardas funcionalistas europeias), o Movimento Novecento (caracterizado pela recusa da vanguarda e a adoção de elementos classicistas) e o Monumentalismo (também chamado de Neoclassicismo Semplificado). Marcello Piacentini foi o maior expoente deste último grupo, que atuava numa posição intermediária entre as primeiras duas e que se tornou a linguagem oficial do Regime. Para aprofundamentos, cf. CIUCCI, Giorgio. Gli architetti e il fascismo. Architettura città 1922 – 1944. Milano: Einaudi, 1989

 5 De acordo com Tognon (1999), além do projeto do edifício sede das Indústrias Reunidas Matarazzo, Piacentini recebeu outros encargos, como por exemplo a realização de algumas residências particulares.

 6 Tognon (1999) sugere que os esboços dos relevos possam ser atribuídos a Coccia, mas não indica fontes que corroborem sua afirmação

7 De acordo com a leitura de Bruand (1981), principalmente o Neocolonial e a arquitetura do Movimento Moderno, além de alguns exemplares tardios de Ecletismo.

8 Circunstâncias, estas, que acabaram não ocorrendo, devido ao golpe atuado por Vargas em 1937.

 9 Para aprofundamentos acercadas reformas urbanas do Rio de Janeiro que, ademais, acarretaram a demolição das colinas históricas de Castelo e de Santo Antônio, cf. BENCHIMOL, J. L. Pereira Passos: um Haussmann tropical. A renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1990

 10 Grupo composto por Lúcio Costa, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Jorge Machado Moreira, Eduardo Affonso Reidy e Oscar Niemeyer.

 11 Muito interessantes as considerações de Le Corbusier acerca da identidade (inclusive arquitetônica) brasileira, registradas em seus escritos de 1929 O espírito sul-americano, Prólogo americano e Corolário brasileiro, reproduzidos integralmente em língua portuguesa em DOS SANTOS, C. R. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto, 1987

12 O conceito de “síntese das artes” recorre, nos mesmos anos, em âmbito francês, nas reflexões de Le Corbusier e dos outros membros do círculo de arquitetos e artistas, como Fernand Leger e Andé Bloc, que gravitavam à sua volta. Um estudo aprofundado do mesmo conceito em âmbito brasileiro è apresentado em SILVA, F. F. Síntese das artes e cultura urbana. Arte, arquitetura e cidade em São Paulo, 1950. São Paulo, 2014.

 

Minicurrículo

Alessandra Castelo Branco Bedolini é arquiteta formada no Politecnico di Milano (Itália), possui título de Mestre e Doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É docente no curso de Arquitetura e Urbanismo do FIAM-FAAM Centro Universitário, com ênfase nas áreas de História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e de Patrimônio e Restauro. Atua como tradutora e revisora de publicações científicas de e para o italiano e o português.

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Link para currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3203645091606869

 

Como citar:

BEDOLINI, Alessandra.  Duas faces da modernidade arquitetônica brasileira. Analogias e diferenças entre o Edifício Conde Matarazzo em São Paulo e o Ministério da Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro. 5% Arquitetura + Arte, São Paulo, ano 16, v. 01, n.21, e180, p. 1-16, jul. dez/2021. Disponível em: http://revista5.arquitetonica.com/index.php/uncategorised/duas-faces-da-modernidade-arquitetonica-brasileira-analogias-e-diferencas-entre-o-edificio-conde-matarazzo-em-sao-paulo-e-o-ministerio-da-educacao-e-saude-publica-no-rio-de-janeiro

 

Submetido em: 2020-22-01

Aprovado em: 2021-10-07

 

 

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