COTIDIANO E HISTÓRIA: A HISTORICIDADE DA VIDA COTIDIANA NO MUNDO DO TRABALHO

Categoria: Ciências sociais aplicadas: Arquitetura Evaristo Giovannetti Netto Imprimir Email

Evaristo Giovannetti Netto*Evaristo Giovannetti Netto*

 

A vida cotidiana deveria surpreender a todos em face das surpresas e armadilhas que nos espreitam em cada esquina da vida e da História; deveríamos nos surpreender até diante de tudo aquilo que se nos configura habitual.

Cotidiano, vocábulo de origem latina, significa etimologicamente “cada dia”, “todos os dias” e, no sentido figurado, refere-se ao que é comum, habitual. É o vocábulo que permite apreender o caráter fluído e contínuo do viver, a unidade de medida básica da sucessão da vida e, possivelmente, um dos “campos inteligíveis” fundamentais do devir humano.

Compreender os paradoxos da vida humana e a historicidade que nela está contida pressupõe buscar e considerar a visão de totalidade, este conceito fundamental do pensamento marxiano, que abarca a realidade nas suas leis mais íntimas e desvenda as conexões internas que estão sob a superfície e a causalidade dos fenômenos, de modo a atingir a compreensão e explicação dos processos evolutivos da realidade ou da imagem da realidade que é o todo.

Totalidade é a realidade considerada como um todo estruturado, no qual um fato ou conjunto de fatos é passível de ser compreendido, desde que considerados como partes estruturais do todo e apreendidas as relações que estabelecem entre si.

A realidade é o todo. O cotidiano é a segmentação do todo, a repetição, o resultado de gestos e atos a que gerações inteiras se obrigam em nome da sobrevivência. É, sobretudo, a realidade que está encravada nos recônditos do social, realidade criada pelo homem, sempre vinculado com a própria existência através de conexões e relações que traduzem sua “preocupação” e o seu “cuidado” e, por conseguinte, seu enredamento no conjunto das relações que se apresentam como mundo prático utilitário.

Todo modo de existência humana está inextricavelmente enraizado na cotidianidade e a verdadeira dimensão temporal da vida diária está no cerne da própria História.

A vida diária das pessoas pode ser diferente, mas há um denominador comum que marca o tempo e define o ritmo segundo o qual se desenrola  - como um carretel de muitas pontas – a vida de todos.

Não causa espanto o fato de que milhões de homens e mulheres se levantam com o sol todos os dias, entregando-se a um labor silencioso e anônimo, que faz as vezes do solo no qual a árvore da vida e da História lança suas raízes tentaculares. É aí que se revela a verdadeira dimensão temporal do cotidiano, essa vida caudalosa, silenciosa e contínua, essa tradição verdadeira que repousa no fundo do ser humano. Revela-se também aí o drama desse homem “atirado” num mundo cuja realidade, autêntica ou inautêntica, tem que experimentar e comprovar por si próprio na luta de cada dia e no doloroso e, por vezes, traumático processo através do qual essa realidade é possível de ser apropriada, modificada, reproduzida e transformada.

O desenvolvimento do capitalismo, a indústria com as novas formas e instrumentos de produção, a divisão de classes e os conflitos decorrentes, as instituições políticas e suas fórmulas democrático-representativas, as vezes bruscamente interrompidas ou frequentemente desvirtuadas, também desenharam um novo tipo de existência cotidiana e intensificaram todos os seus movimentos, imprimindo-lhes uma velocidade diferente das épocas anteriores, modificando drasticamente a distribuição do tempo em cada dia, povoando de ocupações e compromissos as vinte e quatro horas do dia e vedando-nos o tempo de que tanto carecemos para o reconhecimento, o questionamento e a destruição da aparente independência do mundo dos contatos imediatos de cada dia.

O processo de industrialização, assim como a globalização e a revolução informacional de nossos dias, terá representado uma ruptura no cotidiano de muitas vidas em muitas regiões, mar urdiu sua própria cotidianidade, vivida e sofrida nas fábricas, por homens, mulheres e crianças, em condições que se constituíram verdadeira enormidade moral apenas suportável em nome da sobrevivência.

Sequer as greves que pontuaram a vida corrente dos trabalhadores escapam às rodas dentadas da História e à rede da vida cotidiana. Na medida em que se prolongam ou se repetem com freqüência, elas fazem emergir o próprio cotidiano das greves e das lutas operárias.

Os avanços tecnológicos incidem também sobre a vida cotidiana facilitando o cumprimento de determinadas tarefas, racionalizando o mundo do trabalho, mas impondo, por outro lado, um trabalho monótono e repetitivo. Os veículos de comunicação de massa estabelecem sua ditadura invadindo licenciosamente os poucos momentos que sobram para aquelas perguntas e dúvidas que a “falta de tempo” não permite jamais aflorar.

A vida cotidiana não está fora da História, o que a torna objeto de uma abordagem que tem por referência alguns postulados neurais do pensamento de Marx. Resta ao homem contemporâneo, envolvido que está numa crise ubíqua e de graves proporções, encontrar o tempo para perguntar pelo sentido e pela historicidade de seus atos e de suas relações com o mundo fenomênico que o envolve e com o qual trava relações de familiaridade e, muitas vezes, de estranhamento. Mas esse mundo é uma realidade que, a um só tempo, se manifesta e se esconde, impondo-se então, a tarefa bastante dolorosa de destruir a pseudoconcreticidade do mundo alienado da cotidianidade, o que implica deixar de percebê-lo como algo dado, mas sim, como algo historicamente produzido pelo homem na relação que trava com ou contra os outros homens.

O MUNDO DA PSEUDOCONCRETICIDADE

O mundo da pseudoconcreticidade, que consiste na existência autônoma dos produtos do homem e sua redução ao nível da prática utilitária é, como acentua Karel Kossik, “um claro-escuro de verdade e engano. O seu elemento próprio é um duplo sentido. O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo, a esconde. A essência se manifesta no fenômeno, mas só de modo inadequado, parcial, ou apenas sob certos ângulos ou aspectos.” (KOSSIK:1976; 11).

Esse mundo a que se refere Kossik, compreende o terreno no qual o homem exercita sua atividade prático-sensível em função e na medida em que nasce e se desenvolve uma imediata intuição prática da realidade, para não falar de todos os fenômenos externos que se desenvolvem à superfície dos processos realmente essenciais e do mundo de representações comuns, de todas aquelas projeções e fenômenos decorrentes da práxis fetichizada e das formas ideológicas presentes em todos os teus movimentos, até abarcar um mundo de objetos nem sempre ou imediatamente reconhecidos como resultado da presença e da atividade social dos homens.

Esse mundo real, embora tenha consistência e validade, se manifesta na práxis fetichizada, não escapa ao tráfico e à manipulação, é o mundo da aparência. Tal fato tem origem na economia mercantil e na reificação dele decorrente, pelo que se entende o processo por meio do qual o valor de troca opera uma transformação na relação entre o trabalho necessário à produção de um bem, transformando-o numa realidade objetiva do objeto, que então se apresenta à consciência do homem como uma qualidade objetiva da mercadoria.

A coisificação da realidade humana arrasta consigo conseqüências e desdobramentos de grande relevância em todos os domínios da vida, posto que o homem se transforma em autônomo e sofre passivamente a ação de leis sociais externas a ele, conformando-se à ordem vigente e suas disposições, acolhendo a ordem do mercado e a ideologia dominante, subordinando-se a leis abstratas e coisas inertes. O próprio trabalhador, enquanto exerce o seu ofício, seque se pertence, reduzindo-se a um objeto apropriado pelo outro, reificado e alienado, a ponto de não perceber que tal realidade foi produzida pelo homem e, portanto, pode ser por ele transformada.

A destruição da pseudoconcreticidade pressupõe desvendar a estrutura que o mantém cativo, é o processo de criação da realidade concreta pelo homem concreto e a visão da realidade de sua concreticidade é a decomposição do todo, a diluição das formas reificadas do mundo objetivo que, uma vez pedida sua fixidez, mostra-se, então, como fenômenos derivados da práxis social da humanidade.

Penetrar nesse mundo povoado de formas, signos, instrumentos, fatos, atos e reações humanas implica remover as muitas películas que envolvem a realidade e pressupõe liberar a inquietação e formular as perguntas que ajudam a explicar todas aquelas coisas e utensílios que povoam a vida cotidiana, além de buscar sofregamente o sentido dos atos e comportamentos aparentemente banais, mas que são capazes de revelar traços daquelas estruturas essenciais do ser humano, aquelas estruturas habituais e determinações duradouras do seu ser e do seu modo de vida.

Remover o limo da indiferença que se deixou acumular sobre as estruturas da vida cotidiana, buscando o significado mais profundo das ações e reações humanas ajudaria, por certo, descobrir os vãos e contornos mais precisos da existência, da vida material e, por extensão, daquelas estruturas mais profundas entranhadas nas diferentes formas de ser e pensar, que guardam uma relação estreita com o ser do homem tomado em sua totalidade e que o comprometem por inteiro, e cada pensamento que ousa e articula, cada utensílio que manipula, cada ato que comete, cada palavra que pronuncia.

O TRABALHO E A VIDA COTIDIANA

A matéria prima da vida cotidiana compreende o tempo, o espaço e a distância, a forma, a linguagem, o contato, a interação, o movimento. Mas o cotidiano está fortemente vinculado ao trabalho, ao cumprimento de obrigações, à repetição mecânica dos gestos, movimentos e trajetórias por um infindável número de seres humanos. É o trabalho que ocupa a maior parte do dia a dia, simbolizado pela ferramentas, instrumentos e veículos de que se utilizam (o martelo, a bigorna, a régua e o esquadro, a calculadora, o pincel, a vassoura, o microscópio, o bisturi, sem esquecer o computador que hodiernamente invade nosso cotidiano) e pela tirania do relógio, que parece prolongar as horas de atividade e abreviar as ócio ou lazer.

Marx observa que “o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma forma natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida.” (MARX: O CAPITAL; c. V, p. 149)

O processo de trabalho, assim concebido, implica a apropriação do natural para satisfazer as necessidades humanas e a reprodução das condições materiais de existência. Entretanto, o trabalho que transforma, raramente dignifica aqueles que empregam suas energias; no mais das vezes, a riqueza que produzem ou ajudam a produzir, engendra sua própria miséria ou reproduz uma existência medíocre e a prosperidade de alguns é regada prodigamente pela miséria e exclusão de muitos.

A apropriação dos meios e instrumentos de produção constitui condição sine qua non para o surgimento e desenvolvimento do capitalismo e esses processos de produção implicam a constituição de um mercado de mão-de-obra livre e disponível que não deixou ao trabalhador outra alternativa senão sujeitar-se aos desígnios do capital.

 Historicamente, a formação desse exército de mão-de-obra livre consistiu num processo fortemente vincado pela violência e pela coerção, através do qual efetuou-se a expropriação, destruíram-se as formas autônomas de subsistência, vedou-se o acesso à propriedade da terra e aos instrumentos produtivos, retirando do trabalhador o controle sobre o processo produtivo, o próprio sentimento de pertença com relação ao produto do seu trabalho e a própria identidade.

Tal violência inscreveu-se na vida cotidiana. O operário (cuja classe, perdida a mística revolucionária,  é agora reconfigurada pela globalização e pela revolução informacional) deixou de ser identificado e insubstituível, produtor de um objeto que nenhum outro produziria da mesma forma e tornou-se um produtor de mercadorias, de valores de troca até adquirir a forma de um número na contabilidade da empresa.

Não é difícil imaginar como esses aspectos do mundo do trabalho incidiram sobre a vida cotidiana e a que fica reduzido o homem nos limites do sistema regido pelo mercado, no qual as forças produtivas e as relações de produção existentes devem ser reproduzidas e adaptadas a cada ciclo do capital.

Não se trata apenas da reprodução da força de trabalho no que se refere à sua qualificação, mas também da reprodução de sua sujeição à ideologia dominante. É quando o Estado, compreendido como um comitê dos interesses da classe dominante maneja seus aparelhos ideológicos e repressivos com o costumeiro desembaraço, assegurando o domínio de alguns e a sujeição de muitos. Sequer a alternância de partidos no exercício do governo logra mudar o rumo da política.

Vive-se o cotidiano permeado de trabalho e povoado de ideologia. A própria consciência está encravada nas condições materiais de produção da existência, nas formas de intercâmbio e cooperação, no modo como os homens e relacionam para produzir e trocar os bens de que necessitam.

Da mesma maneira, as idéias e representações não podem ser explicadas a partir de sua gênese na mente do indivíduo, mas na atividade concreta de cada dia, onde os homens se encontram e desencontram, reúnem-se em grupos e desenvolvem uma visão de mundo na medida em que respondem aos desafios e situações concretas.

É característica da ideologia, apresentar as condições reais da existência social dos homens, não como produto da própria atividade humana. Como instrumento de dominação de classe, muitas vezes, cristaliza em “verdades”, uma visão invertida do real, de tal modo que, quando se diz que o trabalho eleva, enobrece e dignifica o homem, não se leva em conta as condições reais em que ele se realiza. Da mesma forma, a idéia burguesa de família, de liberdade e a própria concepção de Estado é diferente de sua realidade histórico-social.

O COTIDIANO EM CRISE

De certa forma, toda época, em maior ou menor grau, é época de transição e crise e esta, ao irromper, potencializa os conflitos e desnuda as contradições, ajuda a mostrar as partes que compõem o todo e principalmente a destruir a suposta universalidade de que, até então, se  revestia o ponto de vista particular da classe dominante e a representação que esta fazia da sociedade.

A crise que se instaura na vida cotidiana ajuda a descobrir os sinais de nosso tempo. Embora roube a previsibilidade e a segurança do dia a dia, colocando novos e inusitados desafios e problemas, abre novas perspectivas para as forças que se agitam no mundo do trabalho e da cultura. Mostra também as portas de uma transição dolorosa de um mundo que se fragmenta e deteriora para um mundo e uma sociedade nova cujos princípios e valores não aparecem plenamente conformados.

A crise vivida pela sociedade a partir da industrialização invade todos os momentos constitutivos nos quais a vida cotidiana se articula: no trabalho, na família, na escola, na universidade, na vida política, na luta sindical, nos momentos de lazer. Consegue transformar o trabalho, que deveria ou poderia ser um instrumento de libertação e de realização intelectual da pessoa humana, no silício que lhe macera as carnes, consumindo-lhe as energias em troca de nada ou quase nada para si e tudo para aqueles cuja riqueza cresce e se multiplica, acentuando a desigualdade extrema na distribuição da renda e, por conseguinte, a discrepância absurdamente aguda entre um reduzidíssimo número de pessoas muito ricas e uma massa de miseráveis e deserdados, classes muito ricas e outras reduzidas à miséria extrema, regiões desenvolvidas e regiões subdesenvolvidas dentro de um mesmo países e, no âmbito internacional, nações poderosas e continentes inteiros submersos no atraso e na dependência.

Referimo-nos a uma crise que se instala na vida cotidiana, desestrutura e desestabiliza famílias inteiras, deteriora as relações, subverte valores, degrada os seres humanos atirando-os às margens e porões da sociedade, invade as salas de aula em todos os níveis e, da mesma forma, os sindicatos. Abala as relações de confiabilidade que não podem deixar de existir e acaba, por fim, sentando-se à mesa onde os trabalhadores celebram o ato, o ritual vital do cotidiano, privando-os do pão, reduzindo-o pela metade e impondo abstinência compulsório a crianças e trabalhadores.

A crise, por fim, povoa de medo os dias e noites dos trabalhadores, não poupa a classe média que atemorizada vê o horizonte coberto de nuvens carregadas pelo medo do desemprego  e da violência que explode nas ruas pondo em risco a instalação da vida humana no mundo e a própria liberdade. A insegurança da vida humana é também agravada pela deterioração do cotidiano repercutindo na vida política, cobrindo de descrédito as instituições, desarticulando o movimento social e fragmentando as massas, que perdem o sentimento de pertença em relação à cidade e o próprio sentido de cidadania, afastam-se dos sindicatos e partidos políticos, privatizados por pequenos grupos e poderosos interesses e acabam por desdenhar o processo eleitoral e as instituições representativas, abdicando por fim das grandes causas.

Tudo se fragmenta na pós modernidade, esfumam-se as referências e valores, dilui-se a fronteira entre o público e o privado e a opinião não escapa a essa geléia geral, deixando-se trair pelos insondáveis interesses que alimentam a grande e a pequena imprensa.

Essa crise a que se fez referência lança suas raízes mais profundas no homem que vive o cotidiano. “Todo homem – assinala Agnes Heller – é ao mesmo tempo, ente particular-individual e ente humano-genérico, ou seja, uma singularidade e simultaneamente uma parte orgânica da humanidade, da história humana” (HELLER: 1972; 47). Vive, por conseqüência, o conflito e a tensão entre motivações que se referem a si próprio, as necessidades imediatas, exacerbando seu egocentrismo e, por outro lado motivações que se manifestam para fora, buscando a integração com seus iguais, com a classe a que pertence, com a cidade, a sociedade ou a humanidade.

O DESVENDAMENTO DA COTIDIANIDADE

O desvendamento das estruturas da vida cotidiana e de sua historicidade não é tarefa estranha àqueles que tem por referência teórica comum o marxismo, entendido como um humanismo, e o conjunto de conceitos que, a despeito das ressalvas que podem ser feitas, tanto fizeram avançar o conhecimento da sociedade e as lutas sociais.

Quando voltamos a atenção para tudo aquilo que realmente exprime o homem, penetrando fundo e forte na sua vida material, quando debuxamos o quadro de vida no qual ele desenvolve suas habilidades, ao invadirmos a habitação e resgatarmos o mobiliário, o vestuário, quando desvendamos os modos de alimentação de um grupo social, o flagelo das doenças e epidemias, seus hábitos de higiene, suas concepções de vida e morte, os conflitos nos quais se envolve, quando penetramos nos seus pensamentos e crenças e visitamos os sonhos persistentemente acalentados ou quando somos atingidos pelo calor de suas lutas, estamos resgatando esse verdadeiro continente submerso e inexplorado da História que o cotidiano é. Aí estarão inscritas as contradições fundamentais.

O desvendamento do cotidiano, assim como a decifração do enigma da crise vivida pelo mundo contemporâneo, pede um olhar solícito para a riqueza policromática dessa realidade e, mais que isso, uma renomada disposição de participar do drama que se desenrola e envolve o destino de milhões de pessoas.

Compreender e explicar as crises que com freqüência nos atingem supõe vivê-la em sua plenitude e globalidade, pois ela extravasa o pequeno círculo de intelectuais e políticos e atinge o homem comum na medida em que destrói a previsibilidade da vida cotidiana. Como advertia Lucien Febvre, não podemos e nem devemos nos contentar em contemplar do lado de fora, comodamente,as convulsões sociais e, tampouco, devemos separar a nossa vida de historiador e a nossa vida de homem comum, tantas e tantas vezes imersos nas mesmas angústias e perplexidades.

É nos desvãos e solavancos do cotidiano que experimentamos a crise da qual participa toda a sociedade contemporânea. Crise que extrapola e passa sobranceira sobre as fronteiras nacionais, crise global que irrompe em todos os níveis da existência e que se traduz na dissolução dos laços de confiança e de solidariedade, no sentido de insegurança e vulnerabilidade, na perda de legitimidade e confiabilidade das instituições, na deterioração de preceitos éticos que por tanto tempo definiram a vivência do dia a dia.

Impõe-se, portanto, utilizar o considerável aparato teórico e conceptual das ciências sociais bem como o resultado das pesquisas levadas a cabo por historiadores, antropólogos e sociólogos para mergulhar fundo na cotidianidade. Escapar das rodas dentadas do cotidiano não significa evadir-se dele, mas estabelecer nele relações conseqüentes e conscientes com as circunstâncias com a paisagem física e humana que a todos envolve e nos faz ser um entre iguais ou desiguais. A perda do cotidiano, mais que tudo, o destino do homem, esvazia de significados a circunstância, rouba-lhe a posse de si mesmo, veda-lhe o exercício da imaginação sociológica, sem a qual não logra ultrapassar os limites da vida privada, e o pensamento utópico e, por fim, mata no nascedouro qualquer projeto de libertação.

BIBLIOGRAFIA

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FEBVRE, Lucien [1989] – COMBATES PELA HISTÓRIA. Lisboa: Presença, 3ª Ed

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HELLER, Agnes [1987] – SOCIOLOGIA DE LA VIDA COTIDIANA. Barcelona: Península, 2ª Ed.

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NETTO, José Paulo & CARVALHO, M.G. Brant [1994] – COTIDIANO: CONHECIMENTO E CRÍTICA. São Paulo: Cortez Ed. 3ª Ed.

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