O sonho como modelo literário

Categoria: Literatura Ricardo Carranza

Ditado pelo inconsciente, o sonho adota o repertório do sujeito do sonho. Sonhar é como ver um filme, com insuperável economia de meios, no qual somos nós os protagonistas. A síntese se dá em duas camadas: uma aparente, percebida diretamente, e outra, oculta, a ser interpretada. A primeira, frequentemente elíptica, apresenta-se com as informações imprescindíveis: imagens fidedignas, comparáveis ao modelo real, mas deslocadas de seu contexto original, são legíveis através de uns poucos traços de luz e sombra. A segunda é de difícil acesso até mesmo para os estudiosos do assunto. E por que ocultar o que é preciso saber? Imagine uma criança que faz birra para comer. Então os pais adotam subterfúgios, umas brincadeirinhas para que a criança se alimente. Assim, o inconsciente faz uso de disfarces, para que experimentemos um certo doce, por exemplo, que gostaríamos de provar, mas que é proibido.

 A complexidade da linguagem simbólica do inconsciente, que nos propicia a vivência de uma emoção censurada, extrapolaria nosso objeto de interesse. No presente ensaio, vamos considerar a imagem do sonho enquanto percepção direta, se sua linguagem visual pode ser entendida com autonomia embora, tecnicamente, seja apenas o suporte do símbolo, entretanto, é através dela que é possível acessar às camadas mais profundas do sujeito que sonha, e é através de sua aparência que pretendemos obter uma referência à narrativa de ficção. Narrativa aqui entendida no seu sentido amplo de linguagem através da qual uma história pode ser contada com palavras ou imagens. Não se trata, portanto, de um ensaio de psicanálise, mas de traçar um paralelo entre o sonho e seu potencial literário.

Recente ouvi o relato de um sonho de minha mulher Edite. Ela estava na presença do pai na residência que acabavam de reformar. O clima era de satisfação porque sabiam que a partir daquele momento as dívidas seriam pagas. Em que lugar da casa vocês estavam, especulei? Na sala de estar. O ambiente era claro? Ela foi lacônica – Sim. E a aparência de seu pai? – Não sei, disse e acrescentou com certa relutância, acho que mais moço um pouco, talvez sessenta anos, mais ou menos. E a roupa? Como ele estava vestido? Foi taxativa – Não sei. Ficamos em silêncio. Nesse momento pensei que a morte do pai não fora plenamente digerida, e muito provavelmente nunca o será, e o sonho representaria a ponta do iceberg.

A linguagem dos sonhos, como a boa literatura, é objetiva, atenta ao essencial. No sonho da Edite, parece-nos razoável inferir que se a roupa do pai não foi notada, assim como muitos outros detalhes, a mobília da sala, por exemplo, é porque não é relevante ao propósito do sonho. Consideramos que literatura e sonho possuem vários pontos de contato: a imagem e o símbolo, a síntese, a emoção, e a estrutura, neste caso porque em ambas os detalhes se articulam no tempo. Homero, pai de todos nós escritores, na sua Odisseia, descreve o acesso de Odisseu a um palácio mediante descrição da soleira dourada de entrada. Joyce, cuja obra Ulisses guarda certa relação com a matriz grega, descreve a saída de Bloom, no início da sua odisseia, de sua casa, descrevendo a mão do personagem tocando a maçaneta. Não há menção ao batente, fechadura, folha da porta, parede, etc. Tais detalhes, no caso, ficam subentendidos, como num sonho. O encadeamento dos detalhes, e não o plano geral, é o caminho da narrativa.

Lembro-me de um sonho que tive também recente. Sonhei que o meu cabelo era muito longo, ralo e luminoso. Eu o penteava e alguns nós ficavam presos no pente. Ciente de que não poderia desembaraçá-los, eu os desprendia dos dentes do pente. Tal pente, como acontece frequentemente nos sonhos, não era visível. Era como se, na linguagem dos sonhos, como num jogo de mímica, a ação de mexer no cabelo tendo como resultado os fios embaraçados seria o bastante para a compreensão da presença do pente. A imagem do longo, ralo, claro e luminoso feixe de cabelo era a única imagem do sonho. Capaz de uma narrativa densa com uma única imagem, que escritor incomparável é o inconsciente

O alto grau de síntese de um sonho é possível devido a sua relação direta com a consciência. Consciência é auto percepção e o sonho é seu desdobramento simbólico, uma espécie de recado do inconsciente, com o objetivo de se vivenciar uma emoção reprimida, segundo Freud, constituído de imagens selecionadas e elaboradas com rigor. E como isso se dá? A partir da adoção de um gancho. No sonho da Edite, o gancho veio de uma reunião onde foi tratado do inventário de uma casa. E não era uma casa qualquer, mas justamente aquela em que filha e pai atuaram juntos na sua construção. Dado o contexto, o inconsciente atuou na consciência onírica da Edite, porque o inconsciente é específico, cada um tem o seu.

Voltando ao meu sonho. Eu sabia que se tratava do meu cabelo, apesar do seu comprimento e aparência serem tão diferentes. E como eu sabia, de imediato, que se tratava do meu cabelo? Porque a linguagem do sonho tem o poder de evocar, como na ficção, toda a espessura de uma situação complexa. É assim quando vemos uma pessoa que conhecemos. Basta um olhar e toda a situação é compreendida em profundidade. Diante da presença inesperada, nosso ânimo velado, para o bem ou para o mal, aflora de imediato. No sonho da casa, descrito acima, a situação toda era compreendida, em profundidade, mediante a imagem do pai. A situação, em toda a sua complexidade, repito, era entendida ou intuída, de um golpe: a construção e todas as suas etapas, e a satisfação de sua conclusão, além da imagem do pai, mais uma vez repito, apreendida em toda a sua complexidade, com um quase nada de informações visuais. A linguagem do sonho evoca a imagem de Hemingway para a literatura: como um iceberg, uma pequena parte é visível em proporção a grande massa submersa.

O sonho, com extraordinária economia de meios, e com linguagem direta feita de imagens, é uma porta de acesso à consciência, porque nele as coisas nos são apresentadas diretamente, na sua camada aparente, e compreendidas de uma vez, e de um único ponto de vista, que é o ponto de vista do sujeito que sonha. Sujeito este que se confronta com imagens e situações que lhe escapam do controle, que rompem com sua autonomia. Muitas vezes são imagens desagradáveis em flagrante descompasso com sua aparência. O que nos é familiar, amistoso, na vida real, em um sonho pode ser ameaçador. Para ilustrar o fato selecionei um exemplo que veremos mais adiante. Também um certo grau de desconhecimento, ou de inocência, se faz necessário ao objetivo do sonho. Quando acordamos abrimos os olhos e não temos dúvidas de quem somos e de onde estamos. Entretanto, no sonho o sujeito não se desloca ao redor do pai ou do cabelo, mantendo os exemplos já mencionados. Tal procedimento é o comum no estado de vigília. No sonho não se trata de uma imagem convencional, portanto, a ser investigada pela percepção. Diante de uma pintura, ou paisagem natural, por exemplo, o observador se desloca diante dela ao seu bel prazer. Em um sonho, a imagem se faz com poucos traços de luz e de imediato, insisto neste ponto, sabemos o que vemos: é o meu pai, a nossa casa, o meu cabelo, ainda que deslocados do seu contexto original.

Sento na minha poltrona e começo a leitura de um romance. Leio durante um certo tempo. Continuo em um segundo momento ou abandono a leitura, caso a obra não me seduza. Em um sonho a autonomia normal da vigília é suspensa. Não há escolha. O inconsciente é autoritário como um médico que nos examina e receita um determinado remédio. Penso que o inconsciente visa o bem da nossa saúde. Somos induzidos a seguir os acontecimentos do sonho, como em um livro, mas com uma diferença crucial. Na literatura, embora o envolvimento ocorra a ponto de nos emocionar com as conquistas e derrotas dos personagens, sabemos que é ficção. Na literatura, a qualquer momento, e sob qualquer pretexto, posso largar o livro. Em um sonho é a nossa vida que se revela. A emoção está presente em um índice elevado e fora do nosso controle. Nesse aspecto o sonho é um destino. Quem não acordou, no meio da noite, gemendo, de um pesadelo desesperador? Lembro que o meu pai, nos últimos anos, tinha um sonho recorrente. Ele sonhava com um cachorro debaixo da cama. Não raro acordava, e a nós todos, gritando de medo pânico. E era sintomático como ele estranhava o fato de não ter medo de cachorro no seu estado de vigília. É evidente que no seu sonho o cachorro não era um cachorro, mas a aparência de um cachorro investida de conteúdo simbólico desconhecido. A imagem no sonho vai além da aparência.

Comparemos os sonhos da vida real com o sonho de Stephen Dedalus no Ulisses de Joyce. Stephen, na Torre Martelo, recorda que a mãe lhe aparecera silenciosamente em um sonho, depois da morte. E nos descreve sua imagem em largas pardas vestes funéreas, e os aromas de cera e pau rosa e o hálito a cinzas molhadas. Como vemos, o sonho de Stephen é um primor literário – devido ao grau de adesão à narrativa e, muito especialmente, quanto às descrições precisas das vestes da mãe – o visível, o ambiente dominado pelos aromas e hálito – o olfato sensível mas não visível, e a coerência com o perfil do personagem, o jovem Stephen, alter ego de Joyce, também é um escritor ou, ao menos, pretenderia sê-lo. Em resumo: o sonho de Stephen é tudo o que um sonho não é na realidade onírica.

A concepção do sonho da morte da mãe de Stephen, imagem recorrente no romance, surpreende pela complexidade sensorial. Eu tive a cabeça terapizada durante alguns anos e pude colocar a questão numa sessão mais informal. E a opinião da terapeuta coincidiu com a minha, sonhos com cheiro devem ser muito raros. Em sala de aula, sou professor há mais de duas décadas, coloquei a questão à sala. E um aluno afirmou, categórico, que seus sonhos tinham cheiro. E que cheiro, perguntei? Sei lá, ele disse jogando os braços para o alto, de um jardim.

Um majestático Joyce desconsiderou os avanços da psicanálise em seu tempo. A Interpretação dos Sonhos, de Freud, é de 1900. Sabe-se, desde então, e é típico o sonho de meu pai com o cachorro, descrito acima, que em um sonho as coisas não são o que parecem ser. Sabemos, pela sua biografia, que Joyce adotava uma postura muito pessoal em relação à interpretação dos sonhos. Há uma passagem, pelos menos, em que Joyce, em carta, se propõe à interpretação de um sonho que ele mesmo tivera mediante atribuições, a nosso ver, espontâneas, para não dizer arbitrárias. Joyce, literato até a medula, criou o sonho – de Stephen, conveniente à sua narrativa. Não propriamente um sonho, mas coerente com seu potencial de ruptura, em Hamlet, na cena da torre, Shakespeare descreve o rei Hamlet em armas. E na cena dos aposentos da rainha, o fantasma apresenta-se em camisolão (In-quarto, 1603). Por alguma razão, a descrição da vestimenta do rei, na cena em questão, é suprimida na versão final do Hamlet. Shakespeare, como Joyce, percebeu que não caia bem a um rei espectro ter a aparência moldada pela sua vida privada. Um rei espectro de camisolão não é um personagem trágico.

A imagem em um sonho é como um ideograma, a junção de imagens rege a síntese. Vale lembrar o exemplo de Décio Pignatari: sol entre ramos de árvore significando Leste. Em um sonho, a fusão se dá através de uma imagem visível, e outra, simbólica, oculta. Na abertura do Ulisses, Stephen, na Torre Martelo, recorda o sonho com a mãe; e no episódio Circe, a mãe, em terrífico estado de decomposição – a cara carcomida e desnasada, verde de mofo tumbal, retorna para novamente assombrar o filho. No sonho de Stephen, e depois no ambiente alucinatório de Circe, a mãe é a mãe e a dimensão simbólica do sonho é desconsiderada. A interpretação dos sonhos, de Freud, simplesmente não seria adequada ao fio condutor da narrativa de Joyce.

Sonhos significam ruptura. É um desafio conduzi-los de forma consistente na narrativa de ficção. Na Odisseia de Homero, o sonho é representado pela estadia de Odisseu na terra dos lotófagos. A ruptura da identidade do personagem se deve à presença da flor de lótus. Kafka e Borges enfrentaram o desafio apagando a linha que divide o sonho ou pesadelo da vigília, como em A metamorfose e Aleph. Lewis Carrol manteve a distinção entre os dois planos, tanto em Alice no País das Maravilhas como em Alice Através do Espelho.

No cinema, são fascinantes os sonhos em Morangos Silvestres de Bergman, e em O Sacrifício de Tarkovski. Bergman concebeu um sonho legível e ao mesmo tempo com o peso do absurdo. A imagem do relógio sem ponteiros, a carroça que se desintegra, o defunto no caixão, imobilizam Isak Borg diante do inevitável: seu tempo estava chegando ao fim. Tarkovski no Sacrifício, seu último filme, conseguiu uma notável situação intermediária. De forma hábil, ele apaga a linha do sonho e da vigília, e nem sequer nos antecipa o sujeito do sonho, sua identidade se impõe no sonho em curso, para retomá-la com o despertar de Alexander que, sob o impacto do sonho, incendeia a própria casa, então síntese entre símbolo e matéria.

Como conclusão, o relato de um sonho que transcrevi tão logo acordei. Mesmo procurando ser fiel ao sonho, antes que desaparecesse, é provável que o preenchimento de lacunas, que se confundem com a memória, como em todo relato de um sonho, tenha sido inevitável.

Sonhei com o meu editor. Ele esculpia um tronco de madeira. A escultura, que tinha a forma dúbia de uma figura humana – uma cabeça, o corpo de uma mulher, brotava do tronco bruto na cor clara da madeira descascada. A escultura assentava-se no presumível chão. O editor e sua escultura estavam no centro do ambiente que era fechado, escuro. A escultura, que era visível na sua totalidade, e o escultor-editor, percebido com uns poucos traços de luz e sombra, permaneciam juntos. Havia a intuição da presença da água. Uma parte de uma grande barra de chocolate embalada em alumínio surgiu, mas sem uma localização espacial definida, isto é, ela era percebida como deslocada do contexto do sonho. O editor avançava com o seu trabalho da escultura. Uma nova parte de uma grande barra de chocolate, também sem uma localização espacial definida, e um pouco menor que a anterior, surgia envolvida em papel azul. Os dois chocolates provocavam em mim a sensação de que se tratava de uma coisa muito especial. Eu podia vê-los como imaginação além do sonho. A embalagem da segunda barra, e que correspondia à camada externa da embalagem convencional do chocolate, estava respingada de água. Eu estava indeciso por causa da embalagem respingada e que mal embrulhava o chocolate. Causava-me a impressão que o chocolate perdera seu valor. O editor deu a entender, sem um gesto ou palavra, que isso não tinha importância e voltou ao seu trabalho com o tronco de árvore. Um pequeno grupo observava o andamento do trabalho do editor-escultor, sem que fosse visível no ambiente escuro e inundado, embora a água, como sempre, fosse apenas pressentida. Eu observava o trabalho do escultor-editor. Em mim ficava a vaga sensação de que poderia contribuir, de alguma forma, com a escultura. Então permanecia observando. O trabalho do escultor-editor poderia ser retomado a qualquer momento.

    Ricardo Carranza
    é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor e professor da Universidade Paulista.
    Acessos: 113

    Adicionar comentário


    Código de segurança
    Atualizar