PROFETA, ARTISTA E JOGADOR: TRÊS FACES DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Categoria: Literatura Oleg de Almeida Imprimir Email

Fiódor Dostoiévski é um dos maiores ficcionistas de todos os tempos: podemos afirmá-lo sem recear que alguém nos acuse de parcialidade. Seus livros são editados e lidos no mundo inteiro, fazem parte dos currículos escolares e universitários, dão início a interpretações cênicas, musicais e cinematográficas. Os críticos submetem-nos à sua análise detalhada, os estudiosos baseiam neles suas teses e monografias… Contudo, quem diz que esses literatos e cientistas já chegaram ao mínimo consenso acerca das obras dostoievskianas?

 

“Dostoiévski é o mais íntimo, o mais entranhado dos escritores, de modo que, lendo-o, a gente tem a impressão de que não esteja lendo alguém lá, mas, sim, escutando a sua própria alma…” – declara o filósofo russo Vassíli Rózanov. “Dostoiévski é um daqueles escritores que conseguiram expressar-se em suas obras.

Nestas se refletiram todas as contradições do espírito dele, todas as suas profundezas sem fundo. (…) Ele não escondeu nada e conseguiu, portanto, fazer uma descoberta assombrosa a respeito do homem” – raciocina Ivan Turguênev, grande romancista que admirava Dostoiévski como seu confrade literário, se bem que não raro polemizasse com ele na vida privada. – “Com o destino de seus personagens ele contou o seu próprio destino; com as dúvidas deles, suas próprias dúvidas; com as duplicidades deles, suas próprias duplicidades; com a experiência criminal deles, os crimes ocultos de seu espírito… A peculiaridade do seu gênio era tal que ele chegou a narrar, em suas obras, todas as minúcias de seu destino particular, que é, ao mesmo tempo, o destino universal do homem”.

Este ponto de vista tem sido predominante, desde que Dostoiévski terminou a sua jornada terrena, mas nunca foi exclusivo. “Quando eu falo de Dostoiévski, sinto-me em certo sentido embaraçado. (…) costumo ver a literatura sob o único ângulo que me interessa, ou seja, em suas qualidades de fenômeno da arte mundial e de manifestação do talento pessoal. Sob essa ótica, Dostoiévski não é um escritor grande e, sim, bastante medíocre…” – responde Vladímir Nabókov aos entusiastas do mestre russo e, bilioso que era, conclui: “Não nego que estou morrendo de vontade de destronar Dostoiévski”. Não é uma tirada chocante, ainda mais que provém de outro dignitário das letras russas? Assim, não erraríamos em reconhecer Dostoiévski como uma constante estética de primeira ordem, mas uma constante cujo valor continua a provocar, mesmo cem anos e tanto após sua morte, debates acalorados. Quem era aquele homem misterioso que, nascido na patriarcal e despótica Rússia do século XIX, previu que a liberdade existencial, com suas inúmeras formas, gradações e consequências, viria a ser uma das forças motrizes de toda a humanidade no grandioso e trágico século XX? Por que suas ideias, aparentemente tão mórbidas e paradoxais, conquistaram milhões de mentes, exercendo uma profundíssima influência sobre as mais diversas áreas da moderna cultura ocidental, e transformaram-no, aos olhos dos gratos leitores, numa espécie de oráculo grego ou profeta hebreu? Para compreender a extraordinária personalidade de Dostoiévski, precisaremos antes de tudo conhecer a sua biografia. Apenas sabendo em que ambiente ele vivia, com que tipo de gente lidava, a quem amava e execrava, que provações e vicissitudes defrontava em seu dia a dia – numa palavra, qual era a fonte de sua inexaurível inspiração artística – é que desvendaremos os segredos dessa esfinge russa. A existência social dos homens determina, no dizer de Marx, a sua consciência e, pelo que nos parece, no caso específico de Dostoiévski o aspecto humano, se pesquisado a fundo, ajuda a encontrar as chaves do enigma espiritual.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, no dia 30 de outubro de 1821[i]. Era o segundo dos sete filhos do médico militar Mikhail Dostoiévski e de sua jovem esposa Maria Netcháieva. A infância do futuro escritor transcorreu no apartamento funcional de seu pai que, uma vez reformado, atendia os pobres num hospital moscovita. Toda a família levava uma vida de quartel: só quando ia, no verão, passar uma temporada em sua pequena propriedade rural, situada na próxima região de Tula, a monotonia cotidiana se abrandava um pouco. Fiódor era um menino muito inteligente e sensível: naquela idade em que a maioria das crianças prefere as brincadeiras mais simplórias a qualquer ocupação séria, ele se empolgou tanto com os romances “góticos” da autora inglesa Ann Radcliffe, que seus pais costumavam ler em voz alta, quanto com as parábolas bíblicas que sua mãe usava para alfabetizá-lo, ficou encantado com a encenação do glorioso drama Os bandoleiros de Friedrich Schiller. Matriculado, no outono de 1834, num colégio interno a fim de prosseguir nos estudos elementares iniciados em casa, quase não se interessava pelo passatempo lúdico de seus companheiros de classe; segundo contaria posteriormente um destes, estava lendo em cada recreio ou então conversava com alunos mais velhos. Lia, ou melhor, devorava todos os livros que lhe caíam nas mãos, fossem os poemas de Púchkin ou peças teatrais de Shakespeare, romances de Walter Scott ou escritos históricos de Karamzin, além de numerosas obras de qualidade inferior que se misturavam com essas obras-primas.

Em princípios de 1838, órfão da mãe que sucumbira à tuberculose, Dostoiévski ingressou na Escola de engenharia militar em São Petersburgo. Seu pai queria que abraçasse a carreira das armas, porém as inclinações do próprio moço não tinham nada a ver com rifles e baionetas. “Em toda a escola não havia um só discípulo cuja afinidade com o porte marcial fosse tão pouca quão a de Dostoiévski” – recorda Konstantin Trutóvski, seu colega que também acabaria por abandonar o exército e tornar-se um pintor de renome. – “Seus movimentos eram algo desajeitados e, ao mesmo tempo, impetuosos. Ele vestia o uniforme de maneira canhestra; quanto à sua mochila, ao capacete e à espingarda, todos esses petrechos pareciam grilhões que lhe cumpria portar temporariamente e que o incomodavam. Do ponto de vista moral, ele também diferia muito de todos os seus companheiros mais ou menos levianos. Sempre imerso em si, passava as horas vagas andando de lá para cá longe deles, todo meditativo, sem ver nem ouvir o que acontecia ao seu redor”. Os principais traços de seu caráter instável e contraditório moldavam-se sob a pressão do âmbito cujo rigor desumano lhe suscitava uma repulsa incoercível. O adolescente uniformizado fazia de tudo para se adaptar às regras e práticas daquele âmbito hostil, mas nem por isso se sentia menos inseguro. Aliás, essa sensação de vulnerabilidade, associada aos rasgos explosivos de seu gênio indômito, persegui-lo-ia durante a vida toda.

No verão de 1839 Dostoiévski perdeu seu pai: encontraram-no morto à beira de uma estrada vicinal, perto do sítio provinciano que lhe pertencia. Teria sofrido um derrame cerebral, em termos do laudo médico; entretanto, as más línguas diziam que fora assassinado pelos moradores da aldeia vizinha, revoltados de vê-lo envolvido com uma camponesa. Fosse qual fosse a causa real dessa morte, ela deixou Dostoiévski intimamente abalado. Muitos anos depois, já no final da vida, iria evocá-la em sua epopeia familiar Os irmãos Karamázov

Ao concluir o curso de ciências exatas em 1843, Dostoiévski foi promovido a alferes e designado para um modesto cargo no Corpo de engenheiros militares. Entrou na vida adulta a largos passos de quem anseia por aproveitar suas oportunidades. “Naquele tempo, eu era um tremendo sonhador” – escreveria mais tarde sobre a sua juventude. – “Gostava de me imaginar, em meus devaneios juvenis, ora Péricles, ora a Virgem Maria, ora um cristão da época de Nero, ora um cavaleiro a lutar num torneio… Com que não sonhei, quando moço, o que não vivi com todo o coração… naquelas divagações douradas e veementes que pareciam advir do ópio!” Recebeu sua parte da herança paterna e, como ninguém mais controlava suas decisões espontâneas, não demorou em dilapidá-la, aproximando-se da alegre boemia petersburguense e viciando-se pouco a pouco em jogos de azar. A energia vital lhe jorrava de todos os poros, mas não era somente em patuscadas que o rapaz a gastava. Sua vocação criativa consolidou-se, nesse meio-tempo, em definitivo. No verão de 1844 Dostoiévski estreou na imprensa com a tradução do romance Eugénie Grandet, de Honoré de Balzac, e no inverno de 1846 publicou sua primeira obra autoral, a comovente novela Gente pobre. Por intermédio de seus novos amigos, contista Dmítri Grigoróvitch e poeta Nikolai Nekrássov, conheceu Vissarion Belínski, o maior crítico literário da Rússia àquela altura, o qual não poupou elogios ao autor estreante. “Valorize seu dom e prossiga fiel a ele…” – disse Belínski –, “então você será um grande escritor!” Deslumbrado com esse primeiro sucesso, Dostoiévski se afastou do serviço militar para se dedicar inteiramente à literatura. As obras que lançou a seguir – a novela de inspiração romântica Noites brancas (1848), o romance Nêtotchka Nezvânova: história de uma mulher (1849) e toda uma série de contos publicados na conceituada revista “Diário pátrio” – fortaleceram sua reputação a ponto de até os colegas mais céticos chegarem a reconhecê-lo como um astro nascente das letras russas. Dostoiévski andava feliz e mesmo se gabava, inexperiente quanto aos altibaixos da vida humana, de sua precoce e rápida ascensão. Nem imaginava ainda que o destino a interromperia em breve com um golpe terrível!

Desde a primavera de 1847 Dostoiévski frequentava as reuniões de um grêmio informal de orientação progressista, cujo líder, Mikhail Butachévitch-Petrachévski, pretendia implantar na Rússia as ideias de Charles Fourier e outros teóricos do socialismo utópico. Os órgãos policiais monitoravam as atividades do grêmio, tidas como subversivas, à espera de um bom pretexto para desmantelá-lo e prender seus participantes. O ensejo se apresentou em 15 de abril de 1849, lendo Dostoiévski na presença de seus partidários a sinistra carta pessoal do finado Belínski a Nikolai Gógol, “repleta de expressões ofensivas contra a igreja ortodoxa e o poder supremo”. A divulgação desse documento que circulava, manuscrito, de mão em mão constituía em si um delito gravíssimo, de modo que, ao cabo de uma semana, em 23 de abril, o escritor foi detido por ordem do conde Orlov, chefe do onipotente Terceiro Departamento[ii], e enclausurado na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, a mais temida das prisões políticas do Império Russo. Não fez questão de negar a sua simpatia pela doutrina de Petrachévski. “Sou livre-pensador no mesmo sentido em que podem chamar de livre-pensador toda pessoa que sente, no fundo de seu coração, o direito de ser cidadão e de desejar o bem de sua pátria, pois encontra no coração o amor por ela e a consciência de que nunca a prejudicou de maneira alguma” – respondeu aos investigadores que buscavam saber se tinha de fato conspirado contra o governo. Baseando-se nessa ousada confissão, a promotoria propôs destituir o tenente reformado Dostoiévski “de todos os títulos e direitos de propriedade e submetê-lo à execução por fuzilamento”. Seria possível relevarmos, nos dias de hoje, a crueldade da época em que, correndo os olhos por uma folha de papel, qualquer cidadão de bem corria o risco de ser condenado à morte?

O trâmite judicial levou cerca de dois meses. Conforme a sentença prévia do tribunal, Dostoiévski seria punido com a cassação dos seus direitos civis e 8 anos de trabalhos forçados em presídios siberianos. O imperador Nikolai I mandou amenizar-lhe a pena mediante uma resolução clara e concisa: “4 anos, e depois servir como soldado raso”. Dostoiévski não foi informado sobre a “clemência” do soberano e, no dia 22 de dezembro, passou “dez horríveis minutos de desmedido pavor” a contemplar seus amigos, encapuzados e amarrados a postes de madeira, na mira do pelotão de fuzilamento. Sentiu um alívio indescritível ao ouvir a sua sentença comutada. “Não estou triste nem abatido” – escreveu, antes de partir para a Sibéria, ao seu irmão Mikhail. – “A gente vive em qualquer lugar, a vida está cá dentro e não lá fora (…) ser homem entre os homens e permanecê-lo em quaisquer desgraças, para sempre, sem ficar triste e abatido – eis em que consiste a vida e seu objetivo”.

Dostoiévski viveu uma década longe de São Petersburgo. De início ficou mantido, durante quatro anos, na chamada Casa dos mortos – presídio de regime especial que se encontrava na pequena e miserável cidade de Omsk. Sendo fidalgo, não teve o rosto ferreteado nem aturou nenhum dos castigos corporais a que amiúde se submetiam os detentos de origem popular, mas familiarizou-se, rodeado de assassinos, salteadores e criminosos políticos, com todas as mazelas da realidade carcerária. “Vivíamos amontoados, todos juntos na mesma caserna…” – lembrar-se-ia, amargurado, daqueles anos cheios de desespero. – “Estávamos empilhados como os arenques num barril… Dormíamos nas tarimbas sem lençóis, sendo-nos permitido um só travesseiro. Cobríamo-nos com nossas peliças curtinhas… Internavam-me, volta e meia, no hospital. O desarranjo dos nervos causou-me a epilepsia… Contudo, não perdi o meu tempo em geral. Conheci… o povo russo tão bem como poucas pessoas talvez o conheçam”. Em 1854, tão logo cumpriu o prazo de reclusão, foi transferido para o Cazaquistão onde começou a servir como soldado raso nas tropas de infantaria. Não carregava mais grilhões nem se via escoltado nas horas de trabalho (pelo contrário, promoveram-no a sargento “em atenção à sua boa conduta e diligência em serviço”), mas a intensidade da crise espiritual em que mergulhara ainda no presídio não diminuía em função disso. Não era mais aquele sonhador exaltado que acreditava em seu brilhante futuro literário e, sim, um pecador arrependido à procura de novos rumos para sua vida e seu talento. Renunciando às suas recentes quimeras socialistas, Dostoiévski achou reconforto nas tradições milenares da ortodoxia eslava que se opunha à igreja católica e a todo o conjunto dos modernos valores ocidentais no intuito de preservar o legado da antiga cristandade helena e bizantina. O que também lhe valeu em meio aos ininterruptos sofrimentos morais foi sua relação amorosa com Maria Dmítrievna Issáieva, viúva de um funcionário público, que ele desposou no inverno de 1857. “Ela sabia que [seu marido] tinha uma moléstia neurológica, que vivia em extrema pobreza e era um homem ‘sem futuro’…” – comentou Alexandr Vrânguel, amigo e confidente de Dostoiévski, a respeito dessa mulher. – “E Fiódor Mikháilovitch tomou o sentimento de piedade e compaixão pelo amor correspondido e apaixonou-se por ela com todo o ardor da juventude”. Pouco depois o escritor recuperou os direitos cassados pela justiça e conseguiu a isenção do serviço militar “por ter totalmente estragado a saúde”. No outono de 1859 o conde Dolgorúkov, então comandante do Terceiro Departamento, concedeu-lhe a permissão oficial de retornar a São Petersburgo. Seu longo martírio chegou ao fim.

Apesar de mudada em sua ausência, a capital russa acolheu Dostoiévski com muita cordialidade. Ansiosas por obras tão cativantes quanto as inesquecíveis Gente pobre e Noites brancas, várias revistas e editoras abriram as portas para o autor consagrado, e este não as logrou em suas expectativas. Nos cinco primeiros anos que sucederam ao seu regresso do exílio siberiano (1860-1865), publicou as pungentes Memórias da Casa dos mortos, o romance sentimental Humilhados e ofendidos, em que deixou os leitores entreverem o vertiginoso abismo que separava o povo oprimido da elite todo-poderosa em seu retrógrado país, as novelas A aldeia Stepântchikovo e seus habitantes e Diário do subsolo, o conto satírico Uma anedota ruim, bem como dezenas de notas, resenhas, ensaios escritos por mera necessidade financeira. Nisso se revelou a maior e a mais característica das contradições dostoievskianas, já que, ganhando fortunas com todas aquelas obras conhecidas pelo mundo afora, os inescrupulosos editores repassavam ao incansável autor apenas sobras de seu banquete. A situação se agravou em 1862, tendo Dostoiévski empreendido a sua primeira viagem pela Europa e descoberto os luxuosos cassinos alemães. A doentia atração por jogos de azar, latente no período de degredo, veio à tona e dominou-o com uma força irresistível. Seu casamento ia, por sua vez, de mal a pior: aflita com o vício avassalador do marido, indignada com sua patente incapacidade de sustentar a família, Maria Dmítrievna tratava-o agora com plena indiferença. No início de 1863 Dostoiévski se apaixonou pela estudante Apollinária Súslova, 18 anos mais nova que ele, e rompeu com sua esposa. Os amantes foram ao estrangeiro, onde Dostoiévski continuou a apostar seus últimos tostões na roleta sem atentar à crescente decepção de sua companheira. “Entreguei-me a ele por amor, sem perguntas nem cálculos” – descreve Súslova essa paixão que durou só alguns meses. – “Falam-me de Fiódor Mikháilovitch. E eu tenho ódio por ele. Ele me causou tantos sofrimentos (…) foi o primeiro a matar minha fé”. No outono do mesmo ano, completamente arruinado pelo jogo malsucedido em Wiesbaden, Baden-Baden e Homburg, Dostoiévski retornou à Rússia, abandonou Súslova e fez as pazes com Maria Dmítrievna. Nesse ínterim, acometida de tuberculose, ela não podia mais suportar o severo clima petersburguense, e o casal se mudou para Moscou. Ali, na cidade da sua infância, o escritor esperava voltar ao normal, criando tranquilamente seus livros e editando, com o apoio do irmão Mikhail, uma revista literária. Não sabia, como às vésperas de sua prisão em 1849, que estava prestes a enfrentar de novo a fúria do destino.

Três desastres marcaram aquele fatídico ano de 1864. Em 15 de abril faleceu Maria Dmítrievna, a esposa de Dostoiévski que o amparara, paciente e resignada, nos dias de penúria e desgosto; em 10 de julho foi vitimado por uma doença do fígado seu querido irmão Mikhail; em 25 de setembro morreu de derrame o poeta e jornalista Apollon Grigóriev, um dos seus amigos mais leais e compreensivos. Arrasado que estava, Dostoiévski escreveu a Vrânguel: “Eis que fiquei de repente sozinho e senti medo. Toda a minha vida rachou de vez. Tudo ao meu redor ficou frio e deserto”. Enquanto isso, suas dívidas somavam quase 15 mil rublos, uma quantia exorbitante para os padrões da época. Tentando evitar o confisco de seus bens pessoais e satisfazer os credores mais insistentes, o escritor pediu socorro ao Fundo literário, do qual já fora o secretário executivo, e combinou com o livreiro Stellóvski a edição de suas Obras completas. O respectivo contrato estipulava que deveria fornecer em contrapartida um romance inédito até o 1º de novembro de 1866 e que, se desrespeitasse tal clausula, o livreiro se apossaria, sem recompensa alguma, de todos os seus direitos autorais. Dostoiévski assumiu essa injusta condição e… logo se esqueceu dela. Partiu novamente para a Alemanha: mesmo na iminência do colapso financeiro, a roleta atraía-o como um ímã. “Faz três dias que não almoço, sustentando-me com chá de manhã e de tarde; o estranho é que não estou com muita fome…” – esse gemido de dor contida soa numa das cartas que despachou no verão de 1865. – “Mas o ruim é que me oprimem e negam, vez por outra, uma velinha à noite”. De volta à Rússia, hospedado numa chácara nos arredores de Moscou, pôs-se a rascunhar o romance Crime e castigo, cujas partes iniciais seriam publicadas, à medida que as redigisse, na revista “Mensageiro russo”. Foi com terror que se lembrou de Stellóvski em outubro de 1866, exatamente um mês antes de expirar o prazo do espúrio contrato. Seu colega Alexandr Miliukov, que estava a par dessa trama calamitosa, sugeriu que recorresse à estenografia, uma das novidades técnicas pouco difundidas na Rússia, para acelerar o processo de escrita. Assim Dostoiévski conheceu Anna Grigórievna Snítkina, moça de 20 anos que acabava de adquirir a profissão de estenógrafa. Ditou-lhe seu novo romance, O jogador, em três semanas corridas e remeteu o manuscrito a Stellóvski no dia 31 de outubro, salvando, dessa maneira, a sua independência criativa. Mal se deu conta de que a parceria profissional com sua bonita e meiga ajudante engendrara um sentimento forte e duradouro, o amor que o consolaria das mágoas afetivas de seu passado. Eles se casaram em 15 de fevereiro de 1867. Anna Grigórievna amaria Dostoiévski pelo resto da vida, com abnegação e carinho inesgotáveis, sem se importar com sua falta de praticidade nem mesmo com a destrutiva paixão pelo jogo que o consumia. O casal teria quatro filhos: Sófia e Alexei morreriam ainda crianças, mas Liubov e Fiódor Júnior perpetuariam a linhagem do grande mestre e de sua musa longânime.

Na primavera de 1867 os Dostoiévski foram para a Europa. Essa primeira fase de sua vida conjugal não se parecia em nada com uma lua de mel. Morando ora na Alemanha, ora na Suíça e na Itália, quase não desfrutaram do aconchego daqueles países e, se repararam em sua beleza inspiradora, foi através da opaca névoa de privações rotineiramente sofridas. Como os honorários que vinham da Rússia eram escassos, Dostoiévski se endividava cada vez mais para sua mulher e seus filhos recém-nascidos não passarem fome, penhorava um por um os pertences do casal e, disposto a arranjar dinheiro de qualquer jeito, não parava de apostar na roleta. Só se livrou do vício fatal em 1871, após uma luta ferrenha consigo mesmo. “… desapareceu a abjeta fantasia que me tinha atormentado por quase dez anos (ou, melhor dito, desde a morte de meu irmão, quando me vira de repente esmagado por dívidas)” – confessou-se, na ocasião, à sua esposa. – “O tempo todo, eu sonhava em ganhar, sonhava séria e ansiosamente. Mas agora está tudo acabado!” O sonho de enriquecer por conta do jogo, que tanto o atenazara, jamais se realizaria; em compensação, seu outro sonho, o de alcançar o ápice do sucesso literário, haveria de tomar corpo com o retorno do escritor à terra natal.

A publicação de Crime e castigo (1866), obra inaugural da vertente psicológica nas letras russas, e O idiota (1868), história de um “humilde de espírito” vencido pelo cínico praticismo da sociedade burguesa, projetou Dostoiévski internacionalmente. Seus romances seguintes – Os demônios (1872), O adolescente (1875) e, sobretudo, Os irmãos Karamázov (1880) –, focados nas questões sociais que preocupavam a maioria dos seus contemporâneos, arrebanharam mais leitores que um autor russo já tivera ou pensara em ter. O Diário do escritor que Dostoiévski editava em folhetins a partir do inverno de 1876, com a finalidade de “… relatar todas as impressões realmente vividas… tudo o que for visto, ouvido e lido” por ele, rendeu-lhe uma verdadeira idolatria.  “Havia quem dissesse que lia o Diário com veneração, igual à Escritura Sagrada” – notou uma das testemunhas dessa arrebatadora febre dostoievskiana. – “… uns viam nele [em Dostoiévski] seu mentor espiritual, outros, um oráculo, pedindo-lhe que esclarecesse suas dúvidas sobre algumas questões cruciais da época”. Dostoiévski travou amizade com o príncipe Mechtchêrski, líder dos conservadores russos, o senador e conselheiro de Estado Pobedonóstsev, visto como a “eminência parda” do governo imperial, e outras pessoas influentes; em fins de 1877 foi eleito membro correspondente da Academia das Ciências da Rússia e, no verão de 1879, incorporado ao Comitê Honorífico da Associação Literária Internacional, sediada em Londres, a qual o considerava “um dos mais célebres representantes da literatura moderna”. “Vós sois o vate do sofrimento” – escreveu-lhe uma fã eufórica. – “Vós sois o mais simpático e o mais profundo escritor nosso; vós legitimastes vosso talento com suplícios, portanto as vossas obras transtornam o homem, fazem-no olhar com pavor para si mesmo”. “O senhor Dostoiévski… é um talento de primeira grandeza não só nas letras pátrias, como também nas europeias, tanto pela força de sua criatividade artística quanto pela profundeza da análise psicológica” – elogiou seus livros o diretor do Departamento Geral da Imprensa. “O meu nome em si vale um milhão!” – exclamou certa feita o próprio escritor. Sabe-se que o bem-estar material de Dostoiévski aumentou nos últimos anos de sua vida (desde 1878 sua família alugava um apartamento de 6 quartos na área nobre de São Petersburgo), mas esse avanço se tornou possível graças ao imenso trabalho intelectual a que ele se dedicava sem poupar a si mesmo, laborioso até a exaustão. Escrevia depressa, literalmente ao correr da pena, como se temesse perder um instante daquele tempo precioso que lhe restava. “… se existe alguém condenado a trabalhos forçados, sou eu” – queixou-se, no outono de 1880, para sua amiga Pelagueia Gússeva. – “Fiquei recluso na Sibéria por 4 anos, mas lá o trabalho e a vida eram mais suportáveis do que este meu labor de hoje. Entre 15 de junho e 1 de outubro escrevi cerca de 20 folhas[iii] impressas de meu romance e editei o Diário do escritor em 3 folhas (…) fiquei sentado e trabalhei… dias e noites (…) E minha saúde anda tão mal que você nem pode imaginar. Por causa do catarro das vias respiratórias, formou-se um enfisema, coisa incurável (apneia, falta de ar), e meus dias estão contados”. Em 26 de janeiro de 1881 surgiu-lhe uma súbita e profusa hemorragia gutural; chamado às pressas, o médico constatou o rompimento da artéria pulmonar. No dia 28 de janeiro, ao cair do crepúsculo, Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski faleceu. 67 delegações dos meios políticos, empresariais, científicos e culturais da Rússia, bem como milhares de cidadãos comuns, velaram o seu ataúde. “Não foram parentes nem amigos que o enterraram” – conta Alexandr Miliukov –, “mas, sim, toda a sociedade russa”. Dostoiévski foi sepultado no cemitério do venerável mosteiro de Alexandr Nêvski, ao lado dos compositores Tchaikóvski, Borodin, Glinka, literatos Jukóvski, Karamzin, Baratýnski, pintores Ivânov, Chíchkin, Kramskoi e outros conterrâneos honrados. “… o amor de Dostoiévski é o nosso amor e a fé de Dostoiévski é a nossa fé” – disse o filósofo e poeta Vladímir Soloviov no enterro do escritor. – “Unidos pelo amor por ele, esforcemo-nos para que tal amor nos ligue um ao outro. Só então é que prestaremos devida homenagem ao timoneiro espiritual do povo russo por seus grandes trabalhos e sofrimentos”.

Dostoiévski morreu aos 59 anos de idade, porém sua vida parece ter abrangido várias gerações. Foram ao menos três homens que se encarnaram nesse russo fantástico. Grande profeta, ele antecipou a pavorosa degradação moral que o mundo presenciaria ao passo que se desenvolvesse tecnologicamente, o crescimento desenfreado das tendências bárbaras naquela sociedade futura que se pretenderia civilizada até a medula dos ossos, o empobrecimento interior das pessoas descrentes da primazia necessária da razão sobre o instinto e do espírito sobre a carne. Artista genial, criou uma extensa galeria de personagens quase folclóricos, como o Misantropo a destilar seus rancores ignominiosos num canto escuro, o Assassino que aceitou o castigo imposto por leis para mitigar o de sua própria consciência ou o Príncipe idealista, de alma pura e bolso vazio, tachado de excêntrico, se não de louco, tal e qual Dom Quixote a combater os moinhos de vento; tomando por base suas experiências íntimas, concebeu diversas histórias universais, inteligíveis em qualquer uma das línguas para as quais elas seriam vertidas. Jogador de carteirinha, viveu de forma intensa, com ardor e sofreguidão, entregou-se às emoções mais irracionais e mesmo perigosas para usufruir de cada momento e cada impulso sem se inquietar com o que desse, viesse e ocorresse. Quem vislumbrar essas três faces nas entrelinhas dos textos dostoievskianos não estranhará nenhum dos paradoxos nem se assustará com nenhuma das aberrações que deles constam. Pode-se adorar Dostoiévski ou detestá-lo, mas não se pode fazer de conta que tal escritor jamais existiu. Pode-se achar suas obras magníficas ou imputar-lhes tudo quanto seria imperfeição estilística, mas não se pode ignorar como têm sido importantes para o progresso cultural da humanidade. Primorosas ou questionáveis, elas merecem ser lidas com atenção e respeito. Vale a pena seguirmos o sábio conselho do poeta Innokênti Ânnenski que exortou, sincera e incisivamente, os leitores russos: “Leiam Dostoiévski; amem Dostoiévski, se puderem; e se não puderem, insultem Dostoiévski, mas, ainda assim, leiam-no…”.



[i] Todas as datas são citadas de acordo com o arcaico calendário juliano, vigente na Rússia antes da revolução comunista de 1917 e até agora utilizado nas práticas religiosas da Igreja Ortodoxa Russa. Conforme o moderno calendário gregoriano, Dostoiévski nasceu em 11 de novembro e faleceu em 9 de fevereiro.

[ii] O Terceiro Departamento da Chancelaria Particular de Sua Alteza Imperial, instaurado em 1826 e extinto em 1880, foi um dos mais truculentos órgãos de repressão política em toda a história russa.

[iii] Em conformidade com as normas editoriais da Rússia antiga e moderna, uma folha impressa de texto prosaico compõe-se de 40 mil caracteres.

 

Autor

Oleg AlmeidaOleg AlmeidaNascido na Bielorrússia em 1971 e radicado no Brasil desde 2005, Oleg Almeida é poeta, ensaísta e tradutor multilíngue, sócio da União Brasileira de Escritores (UBE/São Paulo). Autor dos livros de poesia Memórias dum hiperbóreo (2008; Prêmio Internacional Il Convívio de 2013), Quarta-feira de Cinzas e outros poemas (2011; Prêmio Literário Bunkyo de 2012), Antologia cosmopolita (2013) e de numerosas traduções do russo (Diário do subsolo, O jogador, Crime e castigo, Memórias da Casa dos mortos e Humilhados e ofendidos de Fiódor Dostoiévski; Pequenas tragédias de Alexandr Púchkin; Canções alexandrinas de Mikhail Kuzmin; Contos russos, vv. I-III) e do francês (O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire; Os cantos de Bilítis de Pierre Louÿs).

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 COMO CITAR:

ALMEIDA, Oleg. Profeta, artista e jogador: as três faces de Fiódor Dostoiésvski. Revista 5% arquitetura+arte,São Paulo, ano 13, volume 02, número 5, pp. 85.1 - 85.11, jan. jul. 2018. disponível em:  http://revista5.arquitetonica.com/index.php/magazine-1/literatura/profeta-artista-e-jogador-tres-faces-de-fiodor-dostoievski

 

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