Torres Conjugadas

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EDITE GALOTE CARRANZA

RICARDO CARRANZA

"The first condition of design is to know what we have to do; to know what we have to do is to have had an idea; and to express this idea we must have principles and a form, that is, grammar and language."   (Eugène Viollet- le-Duc 1876)

 

 

I

O homem tem na cidade sua referência mais profunda e sua expressão mais poderosa. Mas nossa relação com o ambiente construído tem se alterado ao longo do tempo, especialmente após a Revolução Industrial - quando quantidade tornou-se qualidade (Argan, 2001). A metrópole em que vivemos parece conservar esse valor de forma notável.

A cidade de São Paulo criou o homem em movimento. Saímos de casa para o trabalho, muitas vezes cobrindo grandes distâncias. Quando voltamos para casa, mergulhamos na concha de nosso recorte urbano. A metrópole é rito de passagem, pátio de deslocamentos; personagens fugazes deslizam ocultos sob os vidros pretos de seus carros, parecem dizer: não queremos ver nem sermos vistos. A cidade tornou-se um corredor.

"O homem tem objetivos, portanto, seus caminhos devem ser retos. " (Le Corbusier)

"O homem não tem objetivos, mas os encontra, portanto, seus caminhos devem ter curvas e meandros."  (Kisho Kurokawa)

São Paulo é paradoxal, um objeto complexo onde a heterogeneidade e a descontinuidade são suas características fundamentais. Mas temos a sensação de que ela é uniforme, coerente. Camada após camada ela se sedimenta. Nós a olhamos e nos sentimos à margem. Mas sempre podemos nos reencontrar em suas camadas. Algo de nós está ali, mas não está. Existe um combate nas entrelinhas de sua expressão formal. A cidade é viável, e seus recortes nos dizem o contrário.

 

II

A cidade é descontínua sob diversos pontos de vista: técnicas construtivas e tecnologia da construção - constrói-se com base em tecnologias avançadas, como o concreto de alto desempenho, aço, pré-fabricados, painéis, edifícios inteligentes, ao lado de autoconstruções e favelas; concepção arquitetônica - as soluções plásticas representam estágios emblemáticos historicistas, encontrando no ecletismo sua produção mais aceita, além de estereótipos da arquitetura moderna - uma arquitetura disléxica que esquece a cidade; gabaritos de altura - a construção de edifícios nas mais diferentes escalas, são freqüentes as concentrações de residências cercadas ou atravessadas por torres de escritórios ou apartamentos; espaço público - nossa retórica super-valoriza o espaço público, porque é tudo que nos falta, é notável que as obras da administração púbica estejam voltadas para o transporte, a cidade é um feixe de transmissão; questões como paisagismo, passeio público, segurança, salubridade, são camufladas. Para verificar nossa afirmação, basta caminhar algumas quadras em um bairro qualquer para se deparar com questões gritantes de acessibilidade - o deficiente físico, visual, o idoso, uma mãe com um carrinho de bebê, são desconsiderados.

O mercado da construção civil reflete esse comportamento, quando encontra no edifício linear a solução para a questão econômico-financeira de seus empreendimentos. As torres de apartamentos ou escritórios tem sido uma fonte de lucros com um denominador comum irrisório. Mas seria possível resolver os dois lados da equação? Estaríamos preparados para viabilizar um empreendimento em que valores culturais fossem respeitados, que pudessem se tornar uma referência? O edifico linear é a imagem da produção em série, intérprete da média estatística. O homem é o seu contrário. O edifício linear é visível em todos os quadrantes da cidade - um paralelepípedo vazado, maquiado, artificial, invólucro fantasioso para que famílias possam criar seu espaço quando se tornarem proprietárias de sua fração serial. Alcançado o patamar de proprietários, lançam marcas em seu território, esquecem o entorno carregado de prédios estereotipados e repetitivos. Mas não é isso, não é só isso. É justamente aquele espaço - nossa casa, onde nos reconhecemos, nas essenciais e fúteis marcas de nossa força e trivialidade, nossas humanidades. "Todo hábito tem seu habitat." ( Michael Menser, 1997). O homem é complexo, heterogêneo, contraditório.

Mas, o alcance do edifício vai além da denominada arquitetura de interiores - "o que seria a arquitetura de exteriores?"  (Lina Bo Bardi), sua forma pertence à cidade. O sentido de concebê-lo como escultura (Tadao Ando) tem como objetivo lançá-lo ao alcance da sociedade como um valor. Uma das razões que fundamentam a arquitetura como evento de exceção. Raros são os projetos que contribuem para a valorização de nossa identidade nesse "objeto de trabalho coletivo que deveria ser a cidade"(Argan, 2001).

Quais seriam, então, as condicionantes, de fato, dos projetos de arquitetura? O sentido cultural não está entre eles. Ou não, está sempre presente, às avessas. As aspirações do usuário freqüentemente determinam a solução plástica, sua relação com o espaço público. As implantações afirmam a distância entre o público e o privado. O território do morador fica entre muros. O espaço público é o caos, o privado é o status-quo. Salvo honrosas exceções, a produção arquitetônica é condicionada pelo custo do lote, preço por metro quadrado da construção, características do terreno, tendências de mercado, leis de zoneamento, código de edificações.

 Com base nessas considerações, podemos afirmar que cerca de 95% da produção arquitetônica é alienada e alienante. São edifícios com solução plástica que contemplam a estabilidade formal, a coordenação modular, a coerência mercadológica, a mentalidade da empresa. Essas questões contribuem para exacerbar a desigualdade do ambiente construído. Ao mesmo tempo, nos sentimos tentados a acrescentar que é a repetição que a caracteriza. A cidade é a mais profunda expressão de nossa ação coletiva. A cidade é contraditória.

III

Nossa proposta visa interpretar a arquitetura como arte, que o edifício represente a contradição da produção em série, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, se apresente como série. Estamos propondo um projeto que contemple a diversidade mediante espaços não seriais, concebidos para indivíduos além da escala social, que se agrupem por afinidades além das finanças, e que tenham em comum o interesse de racionalizar seu modus-vivendi, reduzindo distâncias, desafogando nossa cidade congestionada. Torres gêmeas que manifestem, na sua condição de singularidade, a possibilidade de expandir o conceito de arquitetura, mediante espaços inusuais. Com a forma buscamos aproximar o usuário, seu abrigo e seu trabalho.

Arte e ciência têm uma essência comum: a busca do conhecimento. Embora a ciência seja, em tese, racional, muitas vezes encontra na subjetividade a solução para seus problemas. Ainda que a arte seja entendida como atividade necessariamente anárquica, ela depende de um determinado grau de organização, para que se constitua em um fenômeno de comunicação. Nosso projeto vem de alguns croquis volumétricos, escultóricos, não utilitários. Afirmar que nosso projeto propõe uma interpretação artística da arquitetura não significa que qualquer qualidade lhe seja intrínseca, mas que pretendemos, com nosso processo, buscar sua essência na forma. Entender as relações entre forma e função com autonomia; a forma abriga funções que se implantam com liberdade. O agenciamento das funções não precisa reproduzir o conceito de produção em série - soluções lineares, ângulos de 90º, disposição de mobiliário em linha, mas lançar as bases necessárias às atividades propostas - com liberdade.

"I believe that painting, sculpture and architecture need controllable form." (Theo van Doesburg, 1990)

Mas como lançar essas idéias? Como começar? Não existe um começo, talvez. Fazemos uma marca em um campo em branco, e afirmamos o início, mas é segmento e mais nada. Nossa concepção de projeto foi baseada no sensível. A técnica possui aderência à forma apenas porque durante o processo de projeto materiais e sistemas são considerados enquanto possibilidades viáveis de execução. Não temos fórmulas ou diagramas que justifiquem nosso resultado formal, mas uma intenção - romper com o edifício linear, conduzida pela experiência prática da forma através do desenho feito à mão. Nesse processo de investigação, partimos da estrutura formal do edifício. Concluída esta etapa, buscamos ferramentas adequadas para a dedução dos planos bidimensionais. Elas foram encontradas no ambiente da informática. Utilizamos o Autocad como ferramenta de projeto. Com uma forma multifacetada, não ortogonal, contraditoriamente simétrica, fez-se necessária a definição de seções horizontais e verticais. O problema foi resolvido com uma maquete eletrônica. A conversão de arquivos 3D para o AutoCad conduziu o processo de projeto. Nesse estágio algumas etapas devem ser citadas: maquete eletrônica, maquete para programa Autocad, criação de uma malha x,y,z, inserção da maquete na malha definindo pontos de referência, definição de planos horizontais que interceptaram a maquete para definição de pisos, definição de perímetros a partir dos planos, atribuição de layers - mais de quatro centenas, a partir dos perímetros, desenvolvimento de plantas em 2d e 3D, elaboração de perímetros em 3d.

Buscamos a exacerbação da forma até o paroxismo de inviabilizá-la enquanto objeto a ser construído, para verificarmos que ainda assim é exeqüível.

IV

"Procuro formas de conceitualizar o espaço que coloquem o sujeito numa relação deslocada, pois não irá encontrar referências iconográficas às formas tradicionais de organização. Foi o que sempre tentei fazer - obrigar o sujeito a reconceitualizar a arquitetura".(Eisennman, 1996).

Nosso objetivo, na presente proposta, é a produção de uma arquitetura que possibilite novas discussões sobre o ambiente construído, que investigue novas soluções através da associação do programa residencial e comercial e suas possibilidades de organização. Avaliar o comportamento de um programa - reflexo potencial do homem, no contexto de uma nova forma. Até que ponto a estrutura formal de um projeto pode ou deve interferir no arranjo das funções, ou ainda, o quanto podem ser abstratos os espaços internos - indissociáveis, em nossa proposta, da solução plástica?

"Monuments are human landmarks wich men have created as symbols for their own ideals, for their aims and for their actions. They are intended to outlive the period wich originated them they form a link between the past and the future." (Gideon, 1944)

 A forma é um valor em si. A expressão material de um edifício, influente em larga escala porque pode ser apreendido pela coletividade, ultrapassa os proprietários e usuários mais diretos - e nesse sentido todo edifício é uma obra pública, vai além das funções que abriga, já que estas, muitas vezes, podem ser flexibilizadas - um galpão pode tornar-se uma galeria de arte ou uma biblioteca, as chaminés de um complexo fabril podem ser preservadas como ícones de uma época, uma estação ferroviária pode ser adaptada às funções de um teatro, enfim, as ruínas da Acrópole grega, destituídas de sua função ritual, consolidaram-se como local de peregrinação. Quando se argumenta - isto é apenas forma, significa que os aspectos acima abordados, que tem alcance coletivo, são risíveis e poderiam ser relegados a um segundo plano; assim estaríamos desprezando o significado cultural profundo da cidade e suas conseqüências sobre a identidade de cada um de nós.

 Nossa utopia considera a possibilidade de implantar um conjunto de torres gêmeas em uma praça-jardim, e de visualizar a continuidade espacial entre público e privado, lazer e trabalho. Imaginamos a viabilidade de se reduzir distâncias entre residência, trabalho, lazer, e de se reconsiderar territórios de uso público e privado, residencial e comercial, lazer e trabalho. Temos consciência das dificuldades do programa, mas a construção de muros e grades ainda não demonstrou sua eficácia para o avanço da sociedade.

Acreditamos no horizonte de uma cidade que considera a necessidade de se re-humanizar.

Gostaríamos de ter a cidade humana!

    Edite Galote Carranza
    é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004; doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”; diretora do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura + arte ISSN 1808-1142. Publicações em revistas especializadas, livros Escalas de Representação em Arquitetura, Detalhes Construtivos de Arquitetura e O quartinho invisível: escovando a história da arquitetura paulista a contrapelo. Professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.
      Ricardo Carranza
      Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2000, diretor do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica Ltda, editor da revista 5% Arquitetura + Arte e escritor. Publicações: Antologias de Concursos Nacionais – SCORTECCI, SESC DF; revista de literatura – CULT; sites de Poesia e Literatura – Zunái, Stéphanos, Germina, Cult - Ofi-cina Literária, Mallarmargens, O arquivo de Renato Suttana, Triplov. LIVROS: Poesia – publicados: Sexteto, Edição do Autor, SP, 2010; A Flor Empírica, Edição do autor, SP, 2011; Dramas, Editora G&C Arquitectônica Ltda., SP, 2012. Inéditos – Pastiche, 2017/2018; poesia... 2019. Contos – inéditos: A comédia dos erros, 2011/2018 – pré-selecionado no Prêmio Sesc de Literatura 2018; Anacronismos, 2015/2018; 7 Peças Cáusticas, 2018. Romance inédito: Craquelê, 2018/2019. Cadernos de Insônia (58): desde 2009. ARTIGOS publicados na revista 5% Arquitetura+Arte desde 2005.
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