Teatro Oficina: ruína e transformação

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EDITE GALOTE CARRANZA

RICARDO CARRANZA

Pensar no Teatro Oficina é confrontar-se com seu duplo significado histórico de permanência e transformação. Em O mal estar na civilização, Freud nos fala da dificuldade de se representar visualmente o mundo da psique.

Então adota como exemplo a evolução da Roma antiga, relembrando as sucessivas implantações, desde a Roma quadrata ao muro de Aureliano. Com isso pretende demonstrar algo aparentemente óbvio, ou seja, nas suas palavras – que um mesmo espaço não admite ser preenchido duas vezes; e que na psique, ao contrário, o primitivo e sua transformação convivem simultaneamente. É um ensinamento da história que o passado avança no tempo na forma de ruínas e vestígios. Roma é um exemplo universal da teoria. E o que vale para a Cidade Eterna, enquanto macro escala, vale para o Teatro Oficina, enquanto micro escala. Das sucessivas construções, demolições e incêndio, as paredes-limite de tijolos de barro à vista, da década de 1920, lastreadas de arcos romanos, se constituem na permanência sobre a qual se apoia o projeto democraticamente conduzido por Lina Bo Bardi e Edson Elito, com reuniões à Rua Jaceguay e Casa de Vidro.

 

O conceito de Rua-Palco constitui-se de plateia elevada como balcões sobrepostos com piso de madeira e estrutura e guarda-corpos de tubos de aço desmontáveis. foto Nelson Kon.O conceito de Rua-Palco constitui-se de plateia elevada como balcões sobrepostos com piso de madeira e estrutura e guarda-corpos de tubos de aço desmontáveis. foto Nelson Kon.

 

O conceito de rua-palco lançado, num vislumbre de José Celso Martinez Corrêa,e a decisão de Edson Elito pela demolição de toda a construção remanescente intramuros, Lina Bo fez o croqui da plateia elevada, como balcões sobrepostos, piso de madeira, estrutura e guarda-corpo de tubos de aço desmontáveis.

Edson Elito e Roberto Rochlitz então projetaram uma estrutura mista de concreto e aço, que atenderia a várias funções: contrafortes de concreto armado, com blocos de coroamento à vista, interligados em subsolo, responderiam pela estabilidade das paredes-limite; estrutura de aço laminado composta de perfis H e tubulares de perfis soldados, com fundação independente, responderia tanto pela estabilidade das paredes-limite, através de conectores soldados aos perfis de aço e chumbados ou aparafusados às cintas de concreto das mesmas paredes-limite, quanto à estabilidade da estrutura de aço desmontável dos balcões, mediante transpasse dos tubos através do vão entre duplas vigas de aço periféricas, bem como às cargas de coberturas e mezaninos.Todas as instalações elétricas e hidráulicas, bem como o urdimento, foram mantidos aparentes.

 

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A cobertura retrátil é composta de telhas de aço tipo sanduíche e domos de acrílico sobre arcos treliçados contraventados e atinge pé-direito de 13.00m. À iluminação zenital soma-se a iluminação natural de vidro temperado na face noroeste da rua-palco.

 

Teto retrátil da cobertura e paredes de tijolos de barro à vista que remontam à construção original de 1920. foto Nelson Kon.Teto retrátil da cobertura e paredes de tijolos de barro à vista que remontam à construção original de 1920. foto Nelson Kon.

 

         Do ponto de vista da concepção teatral, o Teatro Oficina elimina quaisquer barreiras, físicas ou imaginárias, entre atores e público, conceito central do Te-Ato de Zé Celso, e que o diferencia radicalmente do teatro clássico, cinema e televisão, meios que definem um espectador passivo. No nível térreo, projetou-se a rua-palco, com trecho em desnível de 3.00m, paralela aos balcões da plateia, com porão e alçapão para percurso de atores. A rua-palco, associada à plateia-balcão, caracterizam um espetáculo em movimento, como no carnaval de rua das cidades mais tradicionais do interior onde o desfile pode ser visto das janelas e terraços ou das calçadas na rua.

 

Vista superior dos balcões. foto Nelson Kon.Vista superior dos balcões. foto Nelson Kon.

 

        Em síntese, a materialidade do Teatro Oficina, representada por seu duplo caráter histórico de ruína – cuja ocupação só pode ocorrer uma única vez no mesmo espaço e tempo, e de transformação – que por seu caráter imaterial, pertence ao imaginário,pode abrigar, simultaneamente, diferentes camadas de tempo.

 

Arcos em tijolo de barro da construção original de 1920. foto Ricardo Carranza.Arcos em tijolo de barro da construção original de 1920. foto Ricardo Carranza.

 

FICHA TÉCNICA

Teatro Oficina Local: Rua Jaceguay, 520 – Bixiga – São Paulo/SP
Data do projeto: 1984/1990
Data de conclusão da obra: 1994
Área do terreno: 450,00m²
Área construída: 699,29m²

EQUIPE DE PROJETO

Projeto de Arquitetura
Arquitetos: Lina Bo Bardi e Edson Elito.
Colaboradores: Roberto Tobo; Adilson Viviani; Luiz Soares; Rubens; Heloisa; Simone; Claudio; Laercio; Vicente; Isabella.
Concepção Cênica:
Teatrólogo: José Celso Martinez Correa. 

PROJETOS COMPLEMENTARES

Cenotecnia:
Arquiteto e Cenógrafo J.C. Serroni.
Estrutura:
Engenheiro Roberto Rochlitz
Engenheiro Isaías Abdalla
Instalações Eletroeletrônicas: Rheno
Instalações Hidráulicas:
Engenheiro Roberto Tanaka
Acústica e Sonorização:
Professor Conrado Silva de Marco
Circuito de TV:
Antonio de Salles Teixeira Neto
Conforto Ambiental:
Física Marcia Peinado Alucci
Quantificação: Engenheiro Oswaldo Sato
Apoio Logístico: Arquitema – Arquitetos Associados
Gerenciamento: Ass. Obras da Secretaria de Estado da Cultura – Arq. Silvio Guimarães; CPOS – Companhia Paulista de Obras e Serviços
Construção: Construtora Vilanova

Bibliografia

BARDI, Lina Bo. Teatro Oficina 1980-1984. Lisboa: Editorial Blau; Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1999.

CARRANZA, Edite Galote. Arquitetura alternativa:1956-1979Tese de Doutorado em Arquitetura – FAUUSP, São Paulo, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MACUL, Márcia. Teatro Oficina. Revista AU, vol 58, fev. mar. 1995, p. 52-54.

AUTORES:

    Edite Galote Carranza
    é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004; doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”; diretora do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura + arte ISSN 1808-1142. Publicações em revistas especializadas, livros Escalas de Representação em Arquitetura, Detalhes Construtivos de Arquitetura e O quartinho invisível: escovando a história da arquitetura paulista a contrapelo. Professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

      Ricardo Carranza
      Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2000, diretor do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica Ltda, editor da revista 5% Arquitetura + Arte e escritor. Publicações: Antologias de Concursos Nacionais – SCORTECCI, SESC DF; revista de literatura – CULT; sites de Poesia e Literatura – Zunái, Stéphanos, Germina, Cult - Ofi-cina Literária, Mallarmargens, O arquivo de Renato Suttana, Triplov. LIVROS: Poesia – publicados: Sexteto, Edição do Autor, SP, 2010; A Flor Empírica, Edição do autor, SP, 2011; Dramas, Editora G&C Arquitectônica Ltda., SP, 2012. Inéditos – Pastiche, 2017/2018; poesia... 2019. Contos – inéditos: A comédia dos erros, 2011/2018 – pré-selecionado no Prêmio Sesc de Literatura 2018; Anacronismos, 2015/2018; 7 Peças Cáusticas, 2018. Romance inédito: Craquelê, 2018/2019. Cadernos de Insônia (58): desde 2009. ARTIGOS publicados na revista 5% Arquitetura+Arte desde 2005.
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