As escadas do CCVP

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EDITE GALOTE CARRANZA

“O trabalho do arquiteto Vitor Lotufo aponta para novas possibilidades na arquitetura.

Tendo como inspiração criativa as técnicas construtivas, sobretudo o tijolo,

Lotufo propõe alternativas inéditas para intervenções complexas, seja pelos programas,

seja pelos sítios onde são implantados”.  

Mônica Junqueira de Camargo

 

As escadas de Centro Cultural Vila Prudente

Por Edite Galote Carranza

Localizado na favela de Vila Prudente, zona leste de São Paulo, o centro cultural CCVP é um espaço comunitário que promove a cidadania por meio da educação e atividades culturais. Ele é fruto da perseverança dos padres missionários espiritanos irlandeses, liderados por Patrick Joseph Clarke e do trabalho voluntário do arquiteto-construtor Vitor Lotufo.

  

Unidades do CCVP Fonte: Google Earth Desenho: Edite Galote CarranzaUnidades do CCVP Fonte: Google Earth Desenho: Edite Galote Carranza

A participação de Lotufo foi determinante para o sucesso do projeto, especialmente por seu princípio de economia de meios, domínio das técnicas construtivas e a maneira horizontal de atuar no canteiro, que o fez considerar como parceiro o mestre José Paulo Silva. Lotufo projetou e construiu, no período de 1990-2008, as seis unidades descontínuas do CCVP que totalizam 885m2, a  seguir identificadas: Milton Santos, atelier de mosaicos; Chico Mendes, cozinha e refeitório; Nossa Sra. De Guadalupe, salas das educadoras e psicólogas, reuniões e palestras; Escola de Educação Infantil São Fransico de Assis, educação artística, oficina de artes e biblioteca; São Patrício, salão de danças, teatro e artes marciais, salas administrativas e Capela; Pastoral Dom Oscar Romero, espaço de reuniões apresentações musicais, palestras e festas.

 

 

Escada de Argamassa armada "costurada". Foto: Edite Galote CarranzaEscada de Argamassa armada "costurada". Foto: Edite Galote Carranza

 

Habitações típicas da cidade informal foram requalificadas através de reconstruções e ampliações, para oferecer à comunidade os novos espaços arquitetônicos do CCVP, ricos em texturas, formas, cores e luz. Dentre as técnicas construtivas empregadas, o ferro-tijolo executado com tijolos bi-queima e vergalhões de aço encurvado, resultou em coberturas de abóbadas nervuradas, domos e troncos de pirâmide torcida com iluminação zenital. Também foram utilizadas lajes mistas de vigotas de concreto e blocos cerâmicos em curvaturas defasadas formando sheds. Vedos em tramas de tijolos assentados nos eixos horizontal e vertical com garrafas coloridas incrustadas nos intervalos ou tramas entrelaçadas de tijolos e vidro plano colorido. Os sistemas artesanais utilizados foram adequados às inúmeras dificuldades do local, tais como: dimensões limitadas de canteiro, transporte do material de construção por vielas estreiras, ausência de equipamentos pesados e, sobretudo, a escassez e irregularidade dos recursos provenientes de doações.

 

 

Detalhe degrau escada de argamassa armada. Foto: Edite Galote CarranzaDetalhe degrau escada de argamassa armada. Foto: Edite Galote Carranza

 

Dos vários detalhes criativos do projeto, cabe destacar as escadas helicoidais que são exemplos bem sucedidos economia de meios, estabilidade e plástica. A primeira é um elemento autoportante, com pisos e espelhos conformados por tijolos maciços tipo bi-queima. Os espelhos resultam de três fiadas de tijolos assentados com argamassa de cimento e areia traço 1:3, que totalizam 18cm. Os degraus são armados com uma barra de aço de 5mm em intervalos verticais de quatro fiadas. Um vergalhão de 10mm, colocado no eixo vertical da escada, marca o ponto de rotação dos pisos. A escada é cimbrada até a cura e consolidação com a laje superior. A segunda escada é formada por peças de argamassa armada, traço 1:2 de cimento e areia grossa e armadura dupla de tela 2.5 x 2.5 cm e fio 1.3mm. Cada peça, que define um degrau completo – piso e espelho, é moldada in loco mediante fôrmas de madeira revestidas com chapa de aço zincado. Depois de curadas, as peças são fixas ou “costuradas” umas às outras com parafusos transpassantes de 10mm. O conjunto, que funciona como uma “mola esticada” no dizer do arquiteto, é bi-apoiado no piso e laje do pavimento superior. Lotufo continuou aprimorando este projeto e construiu outras escadas sem o parafuso na extremidade do piso.

 

 

Escada de tijolos da Escola Infantil. Foto: Edite Galote CarranzaEscada de tijolos da Escola Infantil. Foto: Edite Galote Carranza

 

A comunidade adotou o CCVP desde a construção, executando murais de mosaicos coloridos que revestem suas paredes internas e externas. Hoje, adultos e crianças desfrutam da programação cultural e da boa arquitetura do CCVP que trouxeram urbanidade à favela.

PROJETO

Centro Cultural Vila Prudente, São Paulo, SP, 1990-2008

FICHA TÉCNICA

Projeto e obra: Arq. Vitor Lotufo

Mestre construtor: João Paulo Silva

Proprietário: Congregação do Espírito Santo

Centro Cultural Vila Prudente: http://www.centroculturalvilaprudente.org.br

    Edite Galote Carranza
    é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004; doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”; diretora do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura + arte ISSN 1808-1142. Publicações em revistas especializadas, livros Escalas de Representação em Arquitetura, Detalhes Construtivos de Arquitetura e O quartinho invisível: escovando a história da arquitetura paulista a contrapelo. Professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

    REFERÊNCIAS

    CARRANZA, Edite Galote R.; CARRANZA, Ricardo. Alvenaria alternativa: a obra do arquiteto Vitor LotufoArquitextos (São Paulo) v.10126, p. 3659-3659, 2010.

    CARRANZA, Edite Galote R.; CARRANZA, Ricardo. Documento Vitor Amaral Lotufo: geometrias e estruturasRevista A.U., São Paulo, v.194, p.71-74, mai., 2010.

    CARRANZA, Edite Galote. Arquitetura alternativa:1956-1979Tese de Doutorado em Arquitetura – FAUUSP, São Paulo, 2012.

     

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