30 Takes+Coda: O Quartinho Invisível e a Teoria do Caos

Categoria: Arquitetura Escrito por Ricardo Carranza Imprimir Email

 

Casa Juarez Brandão, Grupo Arquitetura Nova, 1968.  Destaque para o quarto de empregada pintado de vermelho. Foto: Edite Galote CarranzaCasa Juarez Brandão, Grupo Arquitetura Nova, 1968. Destaque para o quarto de empregada pintado de vermelho. Foto: Edite Galote Carranza

 

Olhar com atenção para este tipo de dependência e suas mutações ao longo do tempo,

o que Edite Galote faz com coragem e competência, é romper um tabu,

é propor um objeto de estudo que vai muito além da história da arquitetura.

Prof. Dr. Marco Napolitano livre docente FFLCHUSP

 

1. O que separa a ordem do caos é uma gota d’água no oceano.

2.  Sobre a Teoria do Caos: É uma das leis mais importantes do Universo, presente na essência de quase tudo o que nos cerca. A ideia central da teoria do caos é que uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso, tais eventos seriam praticamente imprevisíveis – caóticos, portanto. Parece assustador, mas é só dar uma olhada nos fenômenos mais casuais da vida para notar que essa ideia faz sentido. Imagine que, no passado, você tenha perdido o vestibular na faculdade de seus sonhos porque um prego furou o pneu do ônibus. Desconsolado, você entra em outra universidade. Então, as pessoas com quem você vai conviver serão outras, seus amigos vão mudar, os amores serão diferentes, seus filhos e netos podem ser outros…    (https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/ )

3. No contexto da Teoria da Arquitetura Moderna, estabilizada na sua origem,  Edite Galote Carranza, com o seu O Quartinho Invisível: escovando a história da arquitetura paulista a contrapelo, introduz uma cunha na fresta aberta pela inserção das dependências de empregada no programa da habitação burguesa. Através do conceito contrapelo, de Walter Benjamim, em oposição ao pentear favorável na direção estabelecida, estável, portanto, a autora vem alavancar, com sua pequena cunha, aquela fresta, até então invisível, no compacto monólito das bibliografias acadêmicas oficiais.

4. E por que se instalaria o temível caos numa confortável ordem tão ampla e aceita como o de uma Teoria da Arquitetura Moderna que conta com o prestígio da fortuna crítica nos âmbitos nacional e  internacional se o Quartinho superasse seu status de invisibilidade?

5. A questão pode ser ilustrada com o exemplo do ouriço, um pequeno mamífero que tem como pundonor o enrolar-se como uma bola de espinhos para escudar-se das invasões inimigas.

6. E qual seria a relação entre o ouriço e a Teoria da Arquitetura Moderna?

7. Como sabemos, o Movimento Moderno no Brasil teve o mérito de assumir uma postura progressista ao privilegiar um novo programa da habitação, no qual elementos do urbanismo se articulavam às relações espaciais do ambiente doméstico, como a praça ou pátio integrados ao programa da casa, e o ênfase na solução plástica como forma de se contemplar, mais uma vez, a escala urbana. Entretanto, esse mesmo programa abrigaria, forçosamente, o quartinho de empregada.

8. Quanto a integração da praça no plano das funções domésticas e a plástica da habitação alçada à escala urbana, nós os consideramos como o segmento áureo da Arquitetura Moderna Brasileira.

9. Desse contexto programático se depreenderá o conceito de espetáculo arquitetural a ser aplicado às soluções arquitetônicas consideradas as mais arrojadas.

10. Nesse jogo de escalas, urbana e doméstica, privado e público, instala-se, a nosso ver, uma dificuldade incontornável à Teoria da Arquitetura Moderna: como colocar numa perspectiva adequada, leia-se estável, em um programa com tal nível de ambição, uma questão tão modesta como a da dependência de empregada? Consideramos essa dificuldade em três níveis.

11. Primeiro: o quartinho era uma exigência do programa, isto é, um espaço para um morador que não é membro da familia, nem hóspede e nem funcionário. É notável que o termo empregada, no feminino, designava não exatamente o profissional, mas uma função intermediária que cobria uma zona difusa, pois se tratava de um ser que, não pertencendo, de fato, ao ambiente privado, naturalmente dele privaria.

12. Segundo: o quartinho implicava o confronto com questões sociais que, não obstante o eixo progressista da Arquitetura Moderna, e de seus adeptos, careciam de instrumentos adequados à sua solução. Transformações sociais cuja complexidade, queiramos ou não, extrapola as demandas do profissional arquiteto, qualquer que fosse sua postura projetual, deveriam dar conta do impasse.

13. Terceiro: diante da evidente contradição representada pelo Quartinho versus a Teoria da Arquitetura Moderna, como enfrentar a contradição sem expor a dignidade ferida de um projeto que se propunha como o agente da transformação?

14. Como se livrar desse mal estar?

15. Como iluminar a questão sem, ao mesmo tempo, fragilizar os heróis da nossa geração?

16. Como esquecer que um mesmo arquiteto assumiu uma dupla postura diante do programa da habitação burguesa?

17. Por um lado espaços generosos, pátios de circulação deliciosamente ajardinados, elementos estruturais com dignidade de obras de arte, a tecnologia a mais avançada possível, e de outro, cubículo e retrete?

18. Pensar as dependências de empregada e os ambientes dos proprietários em um mesmo nível de necessidades seria um contrassenso, diriam alguns; ou hipocrisia, diriam outros. Pensar o contrário, ou seja, de um lado, espaços amplos e generosos e do outro o intolerável Quartinho, seria indigno de arquitetos progressistas.

19. Admitir o Quartinho no espaço nobre da Teoria da Arquitetura Moderna seria como introduzir o caos na ordem confortavelmente estabelecida. E o ouriço se enrolava como uma bola de espinhos.

20. Como enfrentar, enfim, o problema?

21. A solução encontrada foi tão modesta quanto exemplar: varrer a sujeira para debaixo do tapete.

22. As dependências de empregada seriam dimensionadas de forma especial como se se tratasse de um ser humano distinto dos  moradores da casa ou, se preferirem, como se existissem cidadãos de duas categorias sob o mesmo teto, ou seja: a família burguesa, de primeira classe, e aquela espécie de funcionário, um mal necessário, de segunda classe.

23. Em alguns casos, o problema foi enfrentado mediante subterfúgios, com ambientes subdimensionados, em subsolo, sem janela, sem a correta insolação e ventilação.

24. A especulação imobiliária, esse outro tipo de mal, se não necessário, pelo menos invencível, criou as condições ideais para o descaso. Os dormitórios de empregada recebiam janelas abertas à lavanderia, eram dimensionados abaixo das necessidades mínimas, e possuíam banheiros, por exemplo, nos quais o chuveiro fora projetado sobre a bacia sanitária ou, no melhor dos casos, solução encontrada por arquitetos mais sensíveis ao problema, acima da verga da porta de acesso.

25. Diante do impasse, produziu-se na Teoria da Arquitetura Moderna o fenômeno da invisibilidade: não se tocava no assunto, e, em algumas publicações, de livros inclusive, tais espaços não eram legendados ou, até mesmo, suas peças gráficas seriam negligenciadas.

26. Debruçada sobre esse tema tão desprovido de glamour, Edite Galote Carranza aplicou o  conceito de contrapelo ao Quartinho e o adjetivou como invisível.

27. A obra de Edite Galote Carranza analisa, com sobriedade, os meandros e nuances de projetos que constituem a regra no programa da habitação burguesa, e então aplica uma lupa no espaço das dependências de empregada. Do representativo índice de obras, que admite disparidades como Warchavichik e Artigas, Longo e Carlos Bratke, a autora põe em evidência a consciência crítica do grupo Arquitetura Nova. Na Casa Juarez Brandão, 1968, a dependência de empregada ganha relevo na volumetria da casa, na sua porção frontal e, como se não bastasse, em vermelho. O Arquitetura Nova não só enfrenta o tabu como o reveste de uma visibilidade gritante.

28. A proposta que pretendemos desentranhar, neste nosso modesto ensaio sobre a obra de Edite Galote Carranza, é que se faz necessária uma Revisão Crítica da Teoria da Arquitetura Moderna, no sentido de um debate em toda a sua complexidade, o que inclui, além das grandes questões idolatradas, as questões menores negligenciadas, dos macro eventos, mas também dos micro eventos, sempre em um mesmo patamar de escrutínio crítico.

29. Em resumo: entender que o objeto da Teoria da Arquitetura Moderna não é um fóssil e sim, dada a sua complexidade e proximidade histórica, um agente vivo, dinâmico, em transformação.

30. Reza a lenda que durante o encontro entre Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein, na antessala da eventual admissão do filósofo austríaco ao corpo docente da Universidade de Cambridge, Russel teria dito: não é preciso questionar tudo, por exemplo, desnecessário seria checar se nesta sala existe um rinoceronte. Diante da afirmativa, Wittgenstein se ergue e passa a revirar a sala ostensivamente. Distingue-se aqui duas posturas distintas. A primeira, dogmática, acomodada ao estatuto da prática. A segunda se revolta contra a inércia do conhecimento sedimentado.

Coda: concordamos com Wittgenstein: é saudável questionar tudo se além da meta existe o caminho.   

 

    Ricardo Carranza
    Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2000, diretor do escritório de arquitetura e editora G&C Arquitectônica Ltda, editor da revista 5% Arquitetura + Arte e escritor. Publicações: Antologias de Concursos Nacionais – SCORTECCI, SESC DF; revista de literatura – CULT; sites de Poesia e Literatura – Zunái, Stéphanos, Germina, Cult - Ofi-cina Literária, Mallarmargens, O arquivo de Renato Suttana, Triplov. LIVROS: Poesia – publicados: Sexteto, Edição do Autor, SP, 2010; A Flor Empírica, Edição do autor, SP, 2011; Dramas, Editora G&C Arquitectônica Ltda., SP, 2012. Inéditos – Pastiche, 2017/2018; poesia... 2019. Contos – inéditos: A comédia dos erros, 2011/2018 – pré-selecionado no Prêmio Sesc de Literatura 2018; Anacronismos, 2015/2018; 7 Peças Cáusticas, 2018. Romance inédito: Craquelê, 2018/2019. Cadernos de Insônia (58): desde 2009. ARTIGOS publicados na revista 5% Arquitetura+Arte desde 2005.

     

    Referências: 

    CARRANZA, Edite Galote. O quartinho invisível: escovando a história da arquitetura paulista a contrapelo. São Paulo: G&C, 2017.

     

    Como citar: 

    CARRANZA, Ricardo. 30 Takes + Coda: O Quartinho invisível e a teoria do Caos. 5% Arquitetura + Arte, São Paulo, ano 14, v. 01, n.18, e121, p. 1-5, jul./dez/2019. Disponível em: http://revista5.arquitetonica.com/index.php/magazine-1/arquitetura/30-takes-coda-o-quartinho-invisivel-escovando-a-historia-da-arquitetura-paulista-a-contrapelo-de-edite-galote-carranza-e-a-teoria-do-caos

     

     

     

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