Um Caminho na Arquitetura Paulista: Observação de casas projetadas pelo arquiteto Sylvio Barros Sawaya

Categoria: Ciências sociais aplicadas: Arquitetura

LUIS OCTAVIO DE FARIA E SILVA

DANIELA ROSSELLI

Resumo

O presente artigo traz reflexões sobre a produção do arquiteto Sylvio Barros Sawaya, a partir da observação de alguns de seus projetos de casas unifamiliares. O material aqui apresentado foi desenvolvido para uma dissertação de mestrado realizada no programa de Pós-graduação Stricto Sensu da Universidade São Judas Tadeu, a partir de pesquisa no sentido de identificar e compreender princípios e elementos projetuais característicos na produção do arquiteto. Objetiva-se, com este artigo, além de colocar a luz em projetos que têm sido pouco ou nada observados pela historiografia e pela crítica, apresentar algumas contribuições no sentido de entender transformações na arquitetura paulista ao longo do período da produção observada.

Este artigo mostra parte do resultado da dissertação mencionada, na qual foram produzidas fichas com fotografias antigas e realizadas a partir de visitas, e com o resultado de atividade empreendida através da qual os projetos residenciais selecionados foram redesenhados segundo critérios comuns. A partir das fichas foi realizada análise dos projetos, com a identificação de seus elementos diferenciais e característicos, tais como aqueles decorrentes da preocupação com a paisagem, do raciocínio sobre os materiais a serem utilizados, sistemas construtivos adotados etc. Questões entendidas como básicas nos projetos estudados foram mote para leituras utilizadas como baliza para a compreensão da produção do arquiteto. Diante do material observado, sua contextualização e algumas reflexões decorrentes, entende-se que a partir do recorte de produção aqui apresentado chegou-se a contribuições para compreender o período de transição entre uma arquitetura chamada moderna e caminhos diversos resultantes da revisão crítica empreendida quanto à sua aplicação na realidade paulista.

Introdução

A intenção deste artigo é mostrar algo da atuação do arquiteto paulista Sylvio Barros Sawaya, a partir da observação e contextualização (em relação ao panorama da arquitetura brasileira e a reflexões sobre o tema da casa) de projetos residenciais por ele desenvolvidos ao longo de cinquenta anos de sua atividade profissional (1967-2017).

A produção do arquiteto se deu em um período posterior a um momento marcado pela publicação “Brazil Builds”, em 1943, quando houve, em uma historiografia por muito tempo dominante, a inclusão da arquitetura brasileira no panorama mundial da chamada arquitetura moderna. Aquela publicação mostra que, após exemplos isolados, criação de arquitetos chamados de pioneiros, mudanças na arquitetura brasileira foram incentivadas ao longo da Era Vargas (1930-45). Essas mudanças consolidaram-se nas décadas seguintes em edifícios institucionais e residenciais multifamiliares, e muito nos projetos de moradias unifamiliares.

Projetos de casas unifamiliares, em um país com grande crescimento populacional, sobretudo urbano, possibilitou o exercício continuado de um grupo de profissionais que, inclusive, caracterizou a consolidação da arquitetura como uma profissão de destaque no Brasil.

Atuantes nos anos após a segunda guerra, nomes como João Batista Vilanova Artigas, Joaquim Guedes, Carlos Barjas Millan, entre tantos, fazem parte dessa trajetória e influenciaram novas gerações de arquitetos a partir dos anos 1960.

Os arquitetos citados acima tiveram sua obra revisada e analisada em diversos trabalhos. Outros arquitetos, no entanto, com produção não menos significativa, que tiveram relevância, alguns que inclusive mantém atuação até os dias atuais, não receberam ainda um olhar específico. Muitos deles são discípulos dos mestres citados, trabalharam em seus escritórios, onde participaram de vários projetos.

Neste segundo grupo insere-se Sylvio Barros Sawaya, arquiteto paulista formado pela FAUUSP em 1967, cuja produção conta com diferentes respostas oferecidas a projetos de residências unifamiliares (Fig. 1)

Figura 1 – Tabela com indicação de projetos de residências por parte do arquiteto Sylvio Sawaya entre 1965 (quando ainda era estudante da FAUUSP) e 2017 - as linhas marcadas em azul correspondem aos projetos ilustrados neste artigo. Fonte: Os autoresFigura 1 – Tabela com indicação de projetos de residências por parte do arquiteto Sylvio Sawaya entre 1965 (quando ainda era estudante da FAUUSP) e 2017 - as linhas marcadas em azul correspondem aos projetos ilustrados neste artigo. Fonte: Os autores

 Essa produção do arquiteto não tem sido prontamente relacionada à arquitetura moderna ou à chamada Arquitetura Paulista, exceto pela associação a esta de alguns de seus projetos iniciais (fig. 2).

Figura 2 - Projeto de Sawaya de 1972, associado à chamada Arquitetura Paulista. Fonte: Os autoresFigura 2 - Projeto de Sawaya de 1972, associado à chamada Arquitetura Paulista. Fonte: Os autores

Sawaya iniciou o curso de Arquitetura na FAUUSP em 1961, e teve o arquiteto Vilanova Artigas como um de seus professores mais marcantes. Em 1964, Sawaya conheceu aquele que se tornaria uma referência e grande incentivador: o arquiteto Carlos Barjas Millan. Foi estagiário no seu escritório de maio a novembro daquele ano, quando Millan morreu em um acidente automobilístico.

Sawaya fez também estágio com os arquitetos Joaquim Guedes e Benedito Lima de Toledo e, quando finalizou os estudos em 1967, abriu escritório com o colega Edmilson Tinoco. Já formado, trabalhou como colaborador junto ao escritório do arquiteto Jorge Wilheim. Sobre a experiência de trabalho com Guedes e também com Millan, Sawaya comenta em entrevista realizada a propósito de tese defendida na Universidade Presbiteriana Mackenzie:

O Guedes foi sócio, muito amigo e compadre do Carlos Millan, e eles ainda estavam juntos no escritório, na época da casa Cunha Lima. (...) [Millan] tinha todo um requinte daquela elaboração sutilíssima de projetos, entendia de tecidos e de marcenaria como ninguém. Ele se despojava de tudo isso a partir da leitura do Corbusier e vai fazer uma arquitetura muito enxuta, muito consequente. E não era a Arquitetura Paulista que estava estabelecida, pois ela já possuía, na sua simplicidade, um grau de inteireza e de elaboração absolutos que iam do todo ao detalhe. Então, o Guedes e o Millan também eram muito próximos nesse sentido de trabalhar o objeto construído completamente. (SCHIMIDT 2016, p.265).

Para refletir sobre a produção de Sawaya, é importante lembrar que percorre um período que vai, no Brasil sobretudo, de um momento de adoção da arquitetura moderna por parte de maioria dos profissionais atuantes a uma condição de crise e revisão dos princípios daquela arquitetura, situação a que certos comentadores se referem como pós-moderna, quando há uma pluralidade de caminhos que se revelam, alguns dos quais que vão em busca do sentido profundo da transformação humana do meio - algo que se vê na produção de Sawaya. Nesse sentido, o presente artigo traz reflexões sobre o sentido da palavra casa na medida em que uma busca pela essência da casa parece perpassar a investigação propositiva do arquiteto (figs. 3 e 4), que ao pensar sobre a arquitetura, defende que trate “dos  lugares  criados  para  além  das  formas,  e  que fale  da  vida  nelas  abrigada  e  da  transformação dessa vida. Da arquitetura como lugar de agregação e resposta a uma dinâmica cultural” (SILVA; ROSSELLI, CARRANZA, 2016, p.176). Há, pois, na produção do arquiteto, uma confluência de inquietações em geral associadas à condição pós-moderna e uma formação de forte tempero modernista.

Figura 3 - Projeto de Sawaya de 2015, em que diversos materiais e sistemas construtivos são utilizados e com geometria que leva em consideração anseios do cliente, relação com a paisagem e que vai em busca de uma condição de refúgio. Fonte: Os autoresFigura 3 - Projeto de Sawaya de 2015, em que diversos materiais e sistemas construtivos são utilizados e com geometria que leva em consideração anseios do cliente, relação com a paisagem e que vai em busca de uma condição de refúgio. Fonte: Os autores

A Casa

(...) o homem em suas origens primitivas, sem qualquer ajuda, sem outro guia além do instinto natural de suas necessidades (…) deseja um lugar para acomodar-se. Ao lado de um córrego tranquilo, ele avista um prado; a relva fresca agrada seus olhos, a maciez o convida. Ele se aproxima; e reclinando sobre as cores radiantes desse tapete, pensa somente em desfrutar da paz, as dádivas da natureza; nada lhe falta e ele nada deseja; mas logo, o calor do sol começa a crestá-lo, forçando-o a procurar abrigo... Uma caverna surge à sua frente: ele escorrega para dentro, sentindo-se protegido da chuva e encantado com sua descoberta. Mas novas inconveniências tornam essa moradia do mesmo modo desagradável: ele vive no escuro, obrigado a respirar o ar insalubre. Ele deixa a caverna, decidido a compensar com sua indústria as omissões e negligências da natureza. O homem deseja uma moradia que o abrigue sem enterrá-lo. (LAUGIER apud RYKWERT, 2003, p.40).

A casa é vista como um ninho, uma concha (BACHELARD, 1993), e a ligação da casa com a identidade pessoal é recorrente quando da intenção de compreender o comportamento humano. Memórias da infância, trazidas pela recordação das casas, são estudadas em psicologia em função de sua relação e influência quanto a quem nelas habita.

A casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade. Reimaginamos constantemente sua realidade: distinguir todas as imagens seria revelar a alma da casa; seria desenvolver uma verdadeira psicologia da casa. (BACHELARD, 1993, p.208).

Figura 4 - Croquis do arquiteto Sylvio Sawaya – Resid. Glaucia Rodrigues. Arquivos do arquiteto.  Fonte: Os autoresFigura 4 - Croquis do arquiteto Sylvio Sawaya – Resid. Glaucia Rodrigues. Arquivos do arquiteto. Fonte: Os autores

Nem mesmo o tempo retira das pessoas a relação marcante delas com as casas onde cresceram. Isso pode ser percebido quando, após uma mudança, tempos depois, ao retornarem à casa onde viveram, tenham boas ou más sensações. Isso ocorre porque “(...) ela proporcionou não apenas refúgio físico, mas também psicológico. Tem sido uma guardiã da identidade. Ao longo dos anos, seus donos retornaram depois de períodos de ausência e, olhando ao redor, lembraram quem eles eram” (BOTTON, 2007, p.10). Bachelard, inclusive, afirma que “a casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz frequentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos (1957, p.200). (fig. 5)

Precisamos de um refúgio para proteger nossos estados mentais porque o mundo, em grande parte, se opõe às nossas convicções. Precisamos que nossos quartos nos alinhem com versões desejáveis de nós mesmos e mantenham vivos os nossos aspectos importantes e evanescentes. (BOTTON, 2007, p.107)

Nessa dimensão, a casa é um universo de significados, “onde compreendemos nossa existência, onde partimos e voltamos, aprendemos a existir, este lugar é a casa”. (NORBERG-SCHULZ apud MIGUEL, 2002, s.n.).

Figura 5 - Casa Redonda, projeto de 1975, em sintonia com críticas ao que se refere como movimento moderno na arquitetura e marcadamente expressão de um lugar central, de um cosmos que se revela. Nota: Ficha produzida pelos autores, com foto de Sawaya e Péo observando o centro estabelecido para a futura residência chamada posteriormente de Casa Redonda (acervo pessoal Maria Amélia Pereira - Péo, pedagoga com quem Sawaya foi casado) e foto recente da Casa Redonda, convertida em Escola Infantil – o espaço central da casa corresponde ao lugar demarcado e observado pelo casal. Fonte: Os autoresFigura 5 - Casa Redonda, projeto de 1975, em sintonia com críticas ao que se refere como movimento moderno na arquitetura e marcadamente expressão de um lugar central, de um cosmos que se revela. Nota: Ficha produzida pelos autores, com foto de Sawaya e Péo observando o centro estabelecido para a futura residência chamada posteriormente de Casa Redonda (acervo pessoal Maria Amélia Pereira - Péo, pedagoga com quem Sawaya foi casado) e foto recente da Casa Redonda, convertida em Escola Infantil – o espaço central da casa corresponde ao lugar demarcado e observado pelo casal. Fonte: Os autores

 Da Escola Paulista a um Caminho Alternativo?

 Figura 6 - Projeto em taipa de pilão não construído de Sawaya, apresentado em Seminário sobre arquitetura com terra crua (1984). Claramente este projeto se refere a uma arquitetura tradicional revisitada. Nota: Ficha produzida pelos autores.  Fonte: Os autores Figura 6 - Projeto em taipa de pilão não construído de Sawaya, apresentado em Seminário sobre arquitetura com terra crua (1984). Claramente este projeto se refere a uma arquitetura tradicional revisitada. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autores

Quando se fala em arquitetura paulista, remontamos às antigas casas do período bandeirista, que também foram, de certo modo, adaptadas em proporção e programa a lotes urbanos. Feitas em taipa de pilão, com planta retangular, sem limitações de divisas de propriedades (FLORIO, 2012, p.48), com a urbanização e o parcelamento dos terrenos, em vilas como São Paulo do século XIX, foram adaptadas a um programa mais simplificado, com aberturas frontais e posteriores e onde ambientes se sucediam em direção ao interior do lote (LEMOS, 1985).

Quando havia mais espaço, as casas urbanas paulistas possuíam recuo lateral para coches e elevavam-se do solo com porões ventilados (REIS FILHO, 1995; FLORIO, 2012).

Com a riqueza que surgiu na cidade de São Paulo no chamado período do café, a partir da segunda metade do século XIX e no início do século XX, mudanças marcantes ocorrem na forma das moradias urbanas paulistanas da classe média e alta. As moradias mais simples também se modificaram, sobretudo por influência dos imigrantes europeus que afluíram às terras paulistas (LOUREIRO, 1981). Depois desse um período em que as casas burguesas nas grandes cidades revisitaram quase todos os estilos do passado, as diretrizes do chamado movimento moderno prometeram acabar com os excessos e impor as normas do funcionalismo à arquitetura. Casas representativas do movimento moderno, nesse sentido, impactaram pela simplicidade, apesar de a ela se agregarem inúmeros novos elementos.

Figura 7 - Projeto de Sawaya de 1969, com estrutura em concreto armado que faz pensar em uma árvore. Trata-se de projeto publicado no guia Arquitetura Moderna Paulistana, de Carlos Lemos e Eduardo Corona. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autoresFigura 7 - Projeto de Sawaya de 1969, com estrutura em concreto armado que faz pensar em uma árvore. Trata-se de projeto publicado no guia Arquitetura Moderna Paulistana, de Carlos Lemos e Eduardo Corona. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autores

Nos anos 1940/1950, São Paulo se transforma vigorosamente e passa a contar com arranha-céus, grandes avenidas, luminosos, teatros e cinemas em áreas centrais. Nessa São Paulo reinventada por sobre a cidade que se produzira até então, o uso do concreto aparente tornou-se tão característico na produção edilícia local, que passou a compor o que se chamou de “brutalismo paulista”.

A busca das origens da tendência brutalista de São Paulo nos leva à sua afinidade com o Novo Brutalismo inglês, no que se diz respeito à predominância das questões éticas no projeto de arquitetura, e à obra tardia de Le Corbusier em relação à utilização do concreto bruto. (SANVITTO, 1994, p.44)

Segundo Sanvitto (1994), as residências projetadas nesta linha se caracterizam por dois conceitos: “prisma elevado” e “grande abrigo”, o que significa volumes isolados no lote e erguidos do solo, caracterizados também pela opção de desenho em planta livre seguindo eixos e malhas onde se alocam os elementos estruturais, descolados das vedações (fig. 7).

A forma de projetar dos arquitetos de São Paulo, tanto em edifícios como em residências, acabou se reproduzindo por todo o país, a partir da sua visibilidade que se intensificou a partir dos anos 1960, período ápice da arquitetura brasileira no contexto mundial e início de uma crise - tanto ápice quanto início de crise relacionados à construção de Brasília.

É nessa situação que uma nova geração de arquitetos, discípulos dos precursores da arquitetura moderna no Brasil, conclui a formação em cursos universitários.

Figura 8 - Projeto de Sawaya de 1996 com paredes em taipa de pilão. Reinvenção da utilização da taipa de pilão na condição contemporânea. Nota: Ficha produzida pelos autores.  Fonte: Os autoresFigura 8 - Projeto de Sawaya de 1996 com paredes em taipa de pilão. Reinvenção da utilização da taipa de pilão na condição contemporânea. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autores

 

 

 Carranza (2012), ao observar a arquitetura a partir dessa nova geração, refere-se a ela como uma produção diferenciada, uma “Arquitetura Alternativa”, impactada pela movimentação contracultural ocorrida ao longo das décadas de 1950 e 1960 em diversas partes do mundo, resposta à tensão provocada pela Guerra Fria, com a estandardização comportamental da família e da sociedade, industrialização crescente e massificação.

A Arquitetura Alternativa, como produção contracultural, é parte integrante de um universo de questionamentos ao establishment em que novas pautas surgem no cenário arquitetônico. Essa arquitetura se posiciona à margem da nascente Escola Paulista Brutalista (1953-1973) questionando alguns de seus valores, tais como: o uso da tecnologia mais avançada, com ênfase à tecnologia do concreto armado aparente em soluções que valorizam a plástica através através do conceito de “estrutura como arquitetura”; partidos com coberturas geralmente planas com tetos em grelhas “utilizando lajes nervuradas uni ou bidirecionais”; vedos modulares com alvenarias de tijolos de barro ou blocos de concreto sem revestimento para evidenciar a estrutura, soluções projetuais moduladas visando a serialização e possível industrialização dos componentes. A Arquitetura Alternativa se insere, também, nas discussões críticas ao Movimento Moderno e ao Estilo Internacional. CARRANZA (2012, p. 23).

 Toda a contestação que marcou os anos 1960 foi fundamental para dar novo fôlego à produção artística (e também arquitetônica) no mundo e reverberou no Brasil. O despojamento proposto pelo movimento hippie, a música, a moda, o cinema, o teatro e também a indústria foram responsáveis por uma alteração comportamental-estética notável, da qual a arquitetura não ficou desconectada. Tratava-se de uma reação a obras que se apoiavam na perspectiva da racionalidade e funcionalidade, resultando em conjuntos construídos que se distanciavam de uma identidade local. Nesse contexto, a reaproximação do arquiteto com a construção, que é defendida por muitos desde a crise e debate no âmbito da arquitetura nos anos 1960, reforçou o diálogo com os materiais e com a paisagem, recuperando o valor de técnicas locais (figs. 6 e 8).

Trajetória e aspectos da produção do arquiteto Sylvio Sawaya

Sawaya atuou como arquiteto em projetos de diferentes usos e dimensões como a Residência João Marino (1969) – (fig. 7), o Templo da Igreja Messiânica junto à Represa Guarapiranga (1989/91) e o prédio da FAPESP, projeto que coordenou no escritório do arquiteto Jorge Wilheim (1974). Foi Presidente da EMPLASA – Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S. A. (1986/87), co-fundador e presidente da ABCTerra (Associação Brasileira dos Construtores com Terra) (2000) e diretor da FAUUSP entre 2007 e 2010.

Foi o arquiteto Hélio Queiroz Duarte que o convidou para lecionar na FAUUSP no início dos anos 1970. Fez então seu doutorado sobre o Largo da Concórdia, sob a orientação de Nestor Goulart Reis Filho. Entre 1976 e 1977, obteve licença da FAUUSP e lecionou na Universidade de Brasília-UnB, a convite do arquiteto e professor Paulo Zimbres. Em 1978, já de volta a São Paulo, passou a dar aulas no curso de Pós-Graduação da FAUUSP. 

Por conta dos contatos realizados no período em que lecionou em Brasília, Sawaya participou de um trabalho de apoio e pesquisa urbana no estado de Rondônia, tendo o geógrafo Milton Santos como um de seus colaboradores diretos, sob patrocínio do Banco Mundial (SILVA; ROSSELLI, CARRANZA, 2016).

Entre 1986 e 1988, trabalhou junto à Prefeitura Municipal de Salvador, Bahia, no Governo do Prefeito Mario Kertsz, no levantamento do bairro do Pau Miúdo.

Ao mesmo tempo que tinha essa diversificada atuação, ao longo de sua trajetória, Sawaya sempre manteve escritório próprio, junto ao qual desenvolveu vários projetos residenciais, alguns dos quais apresentados neste artigo. Quanto a esse tema da residência unifamiliar, o arquiteto declara uma forte influência do ambiente doméstico de sua infância e adolescência com sua família numerosa. Sawaya percebeu em sua experiência familiar pessoal que a casa é composta de espaços de integração e convívio, com relações fluidas entre espaços internos e externos. Suas memórias afetivas, em contato com anseios dos clientes que lhe solicitaram projetos residenciais, resultaram em propostas a partir de uma concepção de viver e morar pautada pela alegria e aconchego no âmbito de dinâmicas coletivas, algo moldado por sua experiência pessoal. Percebe-se, nos projetos que desenvolveu, uma preocupação em permitir a comunicação de espaços, pessoas e acontecimentos. (SILVA; ROSSELLI, CARRANZA, 2016)

Alternando, na juventude, a vivência da cidade, do campo e da praia, Sawaya acabou por incorporar nos seus projetos residenciais a ludicidade da “casa de férias”, com elementos capazes de estimular a alegria e a descontração que se vivenciam nos ambientes de lazer.

 

 Figura 9 - Projeto de Sawaya de 1996 com alvenarias em tijolos, inicialmente previstos para serem assentados com barro.  Nota: Ficha produzida pelos autores.  Fonte: Os autoresFigura 9 - Projeto de Sawaya de 1996 com alvenarias em tijolos, inicialmente previstos para serem assentados com barro. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autores

Por outro ângulo, percebe-se também uma prática do arquiteto no sentido de explorar ao máximo a capacidade dos materiais empregados, algo que o aproxima tanto do movimento moderno com sua busca da verdade dos materiais, como do que se denominou regionalismo crítico em função da utilização de materiais locais. 

Figura 10 - Projeto de Sawaya de 2002, estrutura em madeira e fechamentos em tijolos assentados com barro, em Cotia, SP.  Nota: Ficha produzida pelos autores.  Fonte: Os autoresFigura 10 - Projeto de Sawaya de 2002, estrutura em madeira e fechamentos em tijolos assentados com barro, em Cotia, SP. Nota: Ficha produzida pelos autores. Fonte: Os autores

Algumas casas projetadas por Sawaya ecoam casas avarandadas de fazendas, por vezes têm os pisos frios das casas caiçaras, janelas coloridas do sul da Bahia, paredes de taipa paulista (figs. 6 e 8) e  fazem pensar em refúgios arquetípicos (figs. 3, 4, 9 e 10). Muitas delas seguem habitadas pelas famílias originais que as construíram, passando de uma geração a outra sem terem sido comercializadas. Percebe-se, ao visitá-las, um grande vínculo afetivo com elas estabelecido.

Ao se analisarem os elementos projetuais característicos do arquiteto Sylvio Sawaya, percebe-se o uso reincidente de retângulos e quadrados nas plantas, mas também experimentações a partir de  modulações com polígonos diversos, dentre os quais o hexágono e o octógono, associados entre si em plantas flexíveis e passíveis de acomodar diversos programas. Mesmo entre os projetos do arquiteto associados à chamada  Escola  Paulista é possível perceber alguma investigação quanto à forma, na utilização de paredes curvas, algo recorrente nos banheiros e lavabos, o que não era incomum entre arquitetos de sua geração. Sawaya faz esse uso das curvas também na configuração dos  espaços  de lavanderias e áreas de serviço e, além disso, é notável a planta circular da casa por ele projetada que se popularizou como "Casa Redonda" (Fig. 5) - a organização em planta circular tampouco pode ser entendida como estranha à produção dita modernista.

Em certos projetos coordenados por Sawaya, algo remonta às casas bandeiristas,  tanto pelo uso de materiais ditos tradicionais, como pela integração de ambientes centrais de distribuição e também, quando possível, por conta de varandas e alpendres.

Na arquitetura  moderna, as vedações são, de forma geral, elementos coadjuvantes e há um destaque para a estrutura, preferencialmente independente. Sawaya e outros arquitetos paulistas fizeram uso dessa estratégia muito associada ao que nos referimos como movimento moderno.

O arquiteto  soube  tirar  partido  de outro  recurso dito modernista - o uso de pilotis, em  projetos  residenciais, sobretudo para lidar com desníveis topográficos acentuados e, em lotes urbanos menores, para garantir uma impressão de amplitude (Fig 2).

Faz  parte  do  posicionamento  modernista, em especial da Escola Paulista a exploração profunda dos materiais utilizados para as obras, bem como, a preocupação com a execução de detalhes construtivos. No caso de Sawaya, soma-se a isso o elemento afetivo: o arquiteto trouxe de suas memórias pessoais muitos detalhes, como as portinholas presentes nas janelas da Casa Redonda, criadas em alusão às fornalhas das casas rurais.

A observação dos projetos residenciais aqui expostos mostrou uma grande versatilidade do arquiteto Sawaya. Identificou-se uma capacidade de dar respostas diferentes à temática da casa, sem necessariamente abandonar premissas do movimento moderno como, por exemplo, na experimentação de possibilidades dos materiais, ainda que se perceba grande abertura à revisão crítica, quanto à arquitetura de forma geral, que se deu no período de sua produção.

 

Referências

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BOTTON, Alain de. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

CARRANZA, Edite Galote R. Arquitetura Alternativa: 1956-1979. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

FLORIO, Ana Maria Tagliari. Os projetos residenciais não-construídos de Vilanova Artigas em São Paulo, Tese de Doutorado, FAUUSP, São Paulo, 2012. 

LEMOS, Carlos A.C. Alvenaria Burguesa. São Paulo: Nobel, 1985.

LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. Evolução da casa paulistana e a arquitetura de Ramos de Azevedo. São Paulo: Voz do Oeste. Secretaria de Estado da Cultura. São Paulo, 1981.

MIGUEL, Jorge Marão Carniello. Casa e Lar: a essência da arquitetura in Arquitextos, revista Vitruvius, São Paulo, 2002.

REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1995.

 

ROSSELLI, DanielaUm caminho na arquitetura paulista: observação de casas projetadas pelo arquiteto Sylvio Barros Sawaya. São Paulo: 2017. Dissertação de mestrado em arquitetura e urbanismo, Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2017.

RYKWERT, Joseph. A casa de Adão no Paraíso: a ideia da cabana primitiva na história da Arquitetura. São Paulo: Perspectiva, 2003.

SANVITTO, Maria Luiza Adams. Brutalismo Paulista: Uma análise compositiva de residências paulistanas entre 1957 e 1972. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1994.

SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil (1900-1990). São Paulo: Edusp, 2010.

SCHIMIDT, Rafael Patrick. Um estudo sobre os procedimentos projetuais do arquiteto Joaquim Guedes. Tese de Doutoramento. Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016.

SILVA, Luis Octavio de Faria e; CARRANZA, Edite Galote Rodrigues; ROSSELLI, Daniela Depoimento do Arquiteto Sylvio Sawaya sobre sua trajetória, sobre Arquitetura. Arq. Urb, n. 17, São Paulo, 2016, p. 163.

SILVA, Luis Octavio de Faria e; CARRANZA, Edite Galote; ROSSELLI, Daniela. Caminhos outros na arquitetura paulista. A produção de Sylvio Barros Sawaya. Arquitextos, São Paulo, ano 19, n. 222.00, Vitruvius, nov. 2018 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/19.222/7151>.

 

Minicurrículos:

 

 

LUIS OCTAVIO DE FARIA E SILVA

Arquiteto formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), com mestrado (2001) e doutorado (2008) pela mesma instituição. Professor no Programa de Pós-graduação Stricto Sensu na Universidade São Judas Tadeu (PGAUR-USJT) e na Escola da Cidade, onde coordena o curso de Pós-graduação Lato Sensu Habitação e Cidade. Participa do Grupo Papo Terra, baseado no PGAUR-USJT, do Grupo de Estudos e Práticas (GEP) Camboatã Território Natureza e opera na Plataforma Arquitetura e Biosfera, instância de pesquisa engajada acolhida pela Associação Escola da Cidade.

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DANIELA ROSSELLI

Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade do Grande ABC (2000), com MBA em Gestão Empresarial para o Segmento de Material de Construção pela Universidade Corporativa ANAMACO (2010) e Mestrado pela Universidade São Judas Tadeu (2016). Docente nos Cursos de Graduação em Arquitetura e Urbanismo na USCS-Universidade Municipal de São Caetano do Sul e UNINOVE.

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Como citar:                                                   

SILVA, Luis Octavio P.; ROSSELLI, Daniela. Um Caminho na Arquitetura Paulista: Observação de casas projetadas pelo arquiteto Sylvio Barros Sawaya. 5% Arquitetura + Arte, São Paulo, v.01, n.22, e187, p. 1-19, jul./dez., 2020. Disponível em: http://revista5.arquitetonica.com/index.php/periodico/ciencias-sociais-aplicadas/382-criatividade-nos-edificios-de-escritorios-de-carlos-bratke

 

Submetido em: 2021-03-26

Aprovado em: 2021-11-13

 

 

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