DESAFIOS E POSSIBILIDADES AO SE PROJETAR NA REGIÃO DO MARAJÓ

Categoria: Ciências sociais aplicadas: Arquitetura Luis Octavio P L de Faria e Silva Imprimir Email

Resumo

Reflexões e considerações sobre a região amazônica do Marajó e sobre a relação Natureza-Sociedade, das quais a Arquitetura pode ser vista como manifestação, além de investigações propositivas para recomposição de edifício de uso escolar no município marajoara de Chaves, realizadas a propósito de participação em ciclo de capacitação de professores da rede de ensino naquele município, no Polo do Alto Cururu, entre 2017 e 2018.

O ciclo de capacitação contou com um grupo multidisciplinar composto por pedagogos, engenheiros, agrônomos, artistas e nele o autor foi convidado a contribuir na perspectiva de sua formação como arquiteto. Algumas viagens foram feitas às escolas no Polo do Alto Cururu e encontros com os professores locais foram realizados, com oficinas de novas práticas pedagógicas e debates sobre o ensino, espaços a ele destinados, possibilidades.

A partir de autores que se dedicam a temas referentes, o artigo se propõe a expor algo da compreensão sobre a Natureza e sua visão no âmbito da Sociedade, que têm sido objeto de reflexão por parte de muitos pensadores, e a postura que se depreende do debate é a de que o ser humano deverá, em suas ações, tratar com cuidado a biosfera, da qual é integrante, compondo a ciência, causa e desdobramento da experiência moderna, com saberes tradicionais perceptíveis nas comunidades locais. Pretende-se, assim, trazer uma contribuição para a necessária revisão de conceituação da ação humana na Amazônia, região chave para o equilíbrio no planeta e que se vê profundamente ameaçada.

Ensaios propositivos para edifício escolar no município de Chaves são apresentados como possibilidades em face de indagações levantadas.

Palavras-Chave: Marajó, Natureza e Sociedade, Arquitetura Local. 

Abstract

Reflections and considerations on the Amazon region of Marajó and on the Nature-Society relationship, from which Architecture can be seen as manifestation, as well as propositional investigations for the reconstruction of a school building in the municipality of Chaves, in the Marajo region, held in connection with participation in cycle of training of teachers of the educational network in that municipality, in the Alto Cururu Pole, between 2017 and 2018. The training cycle counted on a multidisciplinary group composed of pedagogues, engineers, agronomists, artists and in it the author was invited to contribute in the perspective of his training as an architect. Some trips were made to schools in Alto Cururu Pole and meetings with local teachers were held, with workshops on new pedagogical practices and debates on teaching, spaces destined to them, possibilities.

Based on authors who focus on related themes, the article proposes to expose something of the understanding about Nature and its vision within the Society, which have been the object of reflection by many thinkers, and the attitude that comes from the debate is that the human being should, in his actions, carefully treat the biosphere, of which he is a member, composing the science, cause and unfoldment of the modern experience, with traditional knowledges perceptible in the local communities. It is intended, therefore, to contribute to the necessary revision of the conceptualization of human action in the Amazon, a key region for equilibrium in the planet and that is deeply threatened.

Propositional essays for school building in the municipality of Chaves are presented as possibilities in the face of questions raised.

Key-Words: Marajo, Nature and Society, Local architecture. 

Resumen

Reflexiones y consideraciones sobre la región amazónica del Marajó y sobre la relación Naturaleza-Sociedad, de la cual la Arquitectura puede ser vista como manifestación, además de investigaciones propositivas para recomposición de edificio de uso escolar en el municipio de Chaves, en Marajó, realizadas a propósito de participación en la región en ciclo de capacitación de profesores de la red de enseñanza en ese municipio, en el Polo del Alto Cururu, entre 2017 y 2018. El ciclo de capacitación contó con un grupo multidisciplinario compuesto por pedagogos, ingenieros, agrónomos, artistas y en él el autor fue invitado a contribuir en perspectiva de su formación como arquitecto. Algunos viajes se realizaron a las escuelas en el Polo del Alto Cururu y encuentros con los profesores locales se realizaron, con talleres de nuevas prácticas pedagógicas y debates sobre la enseñanza, espacios a ella destinados, posibilidades.A partir de autores que se dedican a temas referentes, el artículo se propone a exponer algo de la comprensión sobre la Naturaleza y su visión en el ámbito de la Sociedad, que han sido objeto de reflexión por parte de muchos pensadores, y la postura que se desprende del debate es que el ser humano deberá, en sus acciones, tratar con cuidado la biosfera, de la cual es integrante, componiendo la ciencia, causa y desdoblamiento de la experiencia moderna, con saberes tradicionales perceptibles en las comunidades locales. Se pretende, así, traer una contribución a la necesaria revisión de conceptualización de la acción humana en la Amazonia, región clave para el equilibrio en el planeta y que se ve profundamente amenazada.Los ensayos propuestos para el edificio escolar en el municipio de Chaves se presentan como posibilidades frente a indagaciones levantadas.

Palabras Clave: Marajó, Naturaleza y Sociedad, Arquitectura Local.  

Amazônia, bioma sob grande pressão antrópica 

Maior extensão de terras florestadas úmidas do planeta, espalhada por vários países, com diversidade de etnias e Culturas, com variados ecossistemas, a Amazônia foi, no entanto, por um período recente apresentada como uma região homogênea.

Por dezenas de anos, a partir da década de 60, a Amazônia foi apresentada ao mundo ocidental como uma região uniforme e monótona, pouco compartimentada e desprovida de diversidade fisiográfica e ecológica. Enfim, um espaço sem gente e sem história, passível de qualquer manipulação por meio de planejamentos feitos à distância, ou sujeito a propostas de obras faraônicas, vinculadas a um muito falso conceito de desenvolvimento (AB’SÁBER, 1996, p. 131-2)

Essa visão falaciosa e deturpada, ainda que por vezes se perceba resistente em alguns discursos extemporâneos, tem sido revisada e substituída em função da divulgação de estudos, relatos e pesquisas que disseminam a riqueza e diversidade daquelas a que se passou a referir como regiões amazônicas, explicitando assim sua pluralidade.

 

Fig. 1 Mapa da Amazônia com áreas indígenas, áreas protegidas e de extrativismo (Na legenda: Direct use - uso direto: madeira, recreação, medicina, educação; Indirect use - uso indireto: ciclagem de nutrientes, redução da poluição do ar) Fonte: RAISG Disponível em <https://www.amazoniasocioambiental.org/pt-br/mapas/#!/areas> Acesso em 04/06/2018Fig. 1 Mapa da Amazônia com áreas indígenas, áreas protegidas e de extrativismo (Na legenda: Direct use - uso direto: madeira, recreação, medicina, educação; Indirect use - uso indireto: ciclagem de nutrientes, redução da poluição do ar) Fonte: RAISG Disponível em <https://www.amazoniasocioambiental.org/pt-br/mapas/#!/areas> Acesso em 04/06/2018

 A perspectiva do desenvolvimento desconectado da preservação ambiental presente em iniciativas de produção agropecuária, energética e de extração mineral - com implantação de infraestrutura e áreas urbanizadas relacionadas - que observamos na Amazônia há décadas tem promovido grande pressão antrópica sobre os ecossistemas ali presentes. Por outro lado, o convívio humano com a grande floresta é milenar e exemplos de relação harmônica com a Hiléia são conhecidos pela arqueologia e através da observação dos chamados povos tradicionais. Estes, em maior ou menor medida impactados pelo contato com a experiência da Modernidade, representam resistências ao avanço da destruição ambiental. Lado a lado com a resistência dos povos tradicionais, há também iniciativas como a institucionalização de áreas de Preservação Ambiental e Parques, além de Reservas como as Extrativistas, associadas ao manejo de grupos cujas atividades pressupõem a manutenção da floresta-em-pé, como castanheiros, seringueiros e extrativistas de açaí (Fig.1). Emblemática no sentido do que se deve evitar é a trágica implantação da ferrovia Madeira-Mamoré, iniciada no final do século XIX no atual Estado de Rondônia, junto à fronteira com a Bolívia. Obra abandonada diversas vezes, com muitos operários mortos por doenças endêmicas na região, com estrutura instalada sempre em desacordo com as condições locais, e que por fim, quando terminada, teve pouco sentido no que se refere ao que se propunha, a saber, escoamento de produtos da região. Recentemente, inclusive, vimos praticamente desaparecerem seus vestígios em função de cheias de grande dimensão dos rios que ladeia, sobretudo o Madeira, numa história que explicita uma visão tecno-mecanicista modernizante desconectada da compreensão de ciclos naturais, afirmação eivada de arrogância e descuido quanto ao lugar e às pessoas envolvidas. (HARDMAN,1988)

Contrariamente a essa visão perturbadora, temos “a cultura [dos povos “naturais”, com culturas ditas tradicionais] (...) nada mais (...) do que o prolongamento da natureza, e foi essa reconciliação ideal que a modernidade oriunda da Revolução Francesa destruiu e se trata enfim de restaurar” (FERRY, 1994, p. 144-5). Essas Culturas tradicionais promovem dinâmicas que vão ao encontro do raciocínio que aqui se empreende, em que é defendido um olhar cuidadoso para as especificidades dos lugares, quando de projetos para a Amazônia em particular, mas procedimento a ser adotado em qualquer ação transformadora. Há, assim, uma reaproximação quanto à perspectiva das culturas tradicionais, resistências locais. Nesse sentido, como podemos compor saberes locais e a perspectiva emancipadora da experiência moderna, da qual não se pretende abrir mão, e que não se acredita indissociável de ações ambientalmente incorretas?

Fomos modernos. Tudo bem. Não podemos mais sê-los do mesmo jeito. (...) continuamos acreditando nas ciências, mas ao invés de encará-las através de sua objetividade, sua frieza, sua extraterritorialidade - qualidades que só tiveram um dia devido ao tratamento arbitrário da epistemologia -, iremos olhá-las através daquilo que elas sempre tiveram de interessante: sua audácia, sua experimentação, sua incerteza, seu calor, sua estranha mistura de híbridos, sua capacidade louca de recompor os laços sociais. (LATOUR, 1994, p.140)

Há que se evitar ações desconexas como a de imposição de modelos generalizantes, a exemplo da ferrovia acima referida ou daquele percebido na implantação dos vários edifícios escolares inacabados que se vê na região do Marajó, no Pará, em função de técnicas e materiais inadequados e custos em desacordo com as condições existentes. Saberes locais e pesquisas científicas poderão se entrelaçar, deixando para trás os equívocos de um esforço de modernização desencontrado:

Os modernos (...) acreditaram que eram revolucionários, porque inventaram a universalidade das ciências, arrancadas para sempre dos particularismos locais, e também porque inventaram organizações gigantescas e racionais que rompiam com todas as lealdades locais do passado. E ao fazerem isto, estragaram duplamente a originalidade daquilo que estavam inventando: uma nova tipologia que permitia atingir quase todos os lugares sem que, para tal, fosse necessário ocupar mais do que estreitas linhas de força. Glorificaram-se por virtudes que não podem possuir - a racionalização -, mas também flagelaram-se por pecados que são incapazes de cometer - esta mesma racionalização. (...) Acreditaram que realmente havia pessoas, pensamentos, situações locais e organizações, leis, regras globais. Acreditaram que havia contextos e outras situações que gozavam da misteriosa propriedade de serem “descontextualizados” ou “deslocalizados”. (LATOUR, 1994, p.118) 

Fig. 2 Regiões amazônicas no território brasileiro, segundo proposta do geógrafo Azizi Ab’Saber Fonte: AB’SABER (1996)     Fig. 2 Regiões amazônicas no território brasileiro, segundo proposta do geógrafo Azizi Ab’Saber Fonte: AB’SABER (1996)

 

 No olhar do geógrafo Aziz Ab’Saber, em seu esforço para compreender contextos e especificidades locais, bases de saberes enraizados, devemos nos referir, quanto à diversificação a que se referiu em texto acima reproduzido, a uma série de regiões na Amazônia brasileira (Fig. 2):

Para evitar generalidades inócuas e abordagens de ocasião (...), temos proposto, como prévia, uma primeira divisão do espaço total da Amazônia brasileira em células espaciais da ordem de 100.000 a 200.000 km2, para diagnóstico das especificidades regionais, balanço das infraestruturas funcionantes da região, reavaliação das potencialidades em recursos naturais inteligentemente aproveitáveis, avaliação dos problemas regionais mais críticos, e, sobretudo, consideração das aspirações das comunidades residentes. (...). Não vemos outro caminho (...) a não ser regionalizar a Amazônia em ordens de grandeza progressivamente mais detalháveis. Contanto que se assegure, de início, uma política ecodesenvolvimentista que garanta modelos de exploração econômica menos predatórios, capazes de garantir a preservação da biodiversidade e atender ao nível de vida socioeconômico e cultural da população. (AB’SÁBER, 1996, p. 135-5)

São identificadas, assim, vinte e sete regiões com características passíveis de configuração como unidades geográficas da Amazônia Brasileira, dentre as quais a Região do Marajó/Breves-Bocas (ou simplesmente Região do Marajó), sobre a qual refletimos aqui quanto a possibilidades de projeto, escalas apropriadas de investigação, desafios. 

Fig. 3 Hidrografia na Região do Marajó (em azul claro, rios sob o domínio do Estado, em azul escuro, rios sob domínio da União; linhas em vermelho: divisões de Bacias Hidrográficas) Fonte: Base Hidrográfica ANA Agência Nacional de Águas, Abril 2017 Fig. 3 Hidrografia na Região do Marajó (em azul claro, rios sob o domínio do Estado, em azul escuro, rios sob domínio da União; linhas em vermelho: divisões de Bacias Hidrográficas) Fonte: Base Hidrográfica ANA Agência Nacional de Águas, Abril 2017

 Habitualmente se refere ao Marajó como sendo uma grande ilha, mas na realidade, considerando-se o que é a região do Marajó/ Breves-Bocas, trata-se de um arquipélago (Fig. 3). Neste, a maior ilha - chamada de Marajó (numa observação mais acurada percebe-se que há ilhas fluviais justapostas mesmo no interior daquela que chamamos de grande ilha do Marajó) - é ladeada por ilhas também significativamente grandes como Mexiana, Caviana, Caviana de Dentro (Cavianinha), entre outras. Em sua margem ocidental, a maior ilha do Marajó se divide do continente através de vários rios e canais que os conectam, chamados localmente de Bocas e Furos, sendo estes inúmeros rasgos de água entre faixas de terra configuradas como ilhas resultantes dessas ligações entre o que parece uma “enxurrada de rios”. Ligam-se, assim, o rio Amazonas com o Rio Pará por Furos como o Furo do Tajapuru, do Buiuçú, de Santa Maria, do Breu (Fig. 4), numa região em que, sendo relativamente fácil esconder-se nos desvãos da caprichosa geometria dos caminhos d’água, edições recentes de piratas são motivo de preocupação por parte de navegantes, que atualmente não viajam solitários, mas sim em grupos de em geral três embarcações com o intuito de contar com ajuda no caso de abordagens criminosas. Assim é a região entre Breves, vila no sudoeste da maior ilha, e o rio Anajás, trajeto frequentemente utilizado na viagem entre Belém e Macapá, que evita a difícil travessia pela margem oriental do Marajó, virando a Ponta do Maguari, atingido pelos intensos ventos alísios.

 

Fig. 4 Furo do Breu, ligação entre o Rio Anajás e o Rio Pará, na Região do Marajó Fonte: foto do autor, Fevereiro 2018Fig. 4 Furo do Breu, ligação entre o Rio Anajás e o Rio Pará, na Região do Marajó Fonte: foto do autor, Fevereiro 2018

 A região do Marajó tem uma extensa área, a oeste e sudoeste, de matas que fazem pensar numa espécie de Amazônia arquetípica, com alto dossel, exuberante diversidade, presença de palmáceas, igarapés habitados (Fig. 4). Na parte oriental do arquipélago, por sua vez, há a predominância de campos naturais intermitentemente alagados (Fig. 5), onde floresceram culturas antigas como a da chamada fase Marajoara, com técnica oleira refinada (HOMMA, 2003, p. 17), perceptível na cerâmica dita marajoara. É nessas Culturas dos campos intermitentemente encharcados onde surgem os tesos, aterros para cultivo e assentamento (NEVES, 1999/2000, p. 93), elevações artificiais que se mantinham secas nas cheias, permitindo, assim a continuidade da agricultura e da presença humana. 

Fig. 5 Campos naturais intermitentemente alagados. Aqui, em tempos de águas altas. Fonte: foto do autor Abril 2018Fig. 5 Campos naturais intermitentemente alagados. Aqui, em tempos de águas altas. Fonte: foto do autor Abril 2018

 Segundo Teodoro Sampaio em seu levantamento de toponímias em tupi no Brasil, Marajó significa “tirado do mar” e, também, “tapa-mar, anteparo do mar” (SAMPAIO, 1987, p. 280), algo que se mostra apropriado como definição de terras que brotam das águas e são intermitentemente engolidas novamente por elas, dinâmica presente no arquipélago do estuário dos rios Pará e Amazonas - neste último onde há, inclusive, o efeito da pororoca - “que arrebenta com estrondo, estouro” (SAMPAIO, 1987, p. 306) - onda que vence a força do grande rio e avança revolvendo as bordas das ilhas, que se transformam já que áreas são removidas, mergulham nas águas, enquanto outras onde havia rio vêem surgir novas terras, os “acrescidos”, como são chamados na região. Recentemente, em função dessa dinâmica na relação das águas com a terra, a ilha da Caviana de Dentro (ou Cavianinha) se uniu com a ilha de Viçosa, já que o canal do Bem Te Vi, que antes as separava, foi assoreado por conta das pororocas. 

Fig.6 Mapa da região do Marajó e suas divisões administrativas Fonte: Marajó Forte, Disponível em <http://movimentomarajoforte.blogspot.com/p/mesorregiao-do-marajo.html> Acesso em 04/06/2018Fig.6 Mapa da região do Marajó e suas divisões administrativas Fonte: Marajó Forte, Disponível em <http://movimentomarajoforte.blogspot.com/p/mesorregiao-do-marajo.html> Acesso em 04/06/2018

A Região do Marajó conta com dezesseis municípios, dos quais doze têm grande parte de seus territórios na grande ilha do arquipélago (Fig. 6). Destes, o que está mais ao norte, com aproximadamente metade de seu território na grande ilha e a outra metade nas ilhas que estão no limite entre o estuário do rio Amazonas e o mar, é o município de Chaves.

Em função de estar predominantemente numa região de campos, relaciona-se naturalmente com os municípios que circundam o lago do Arari, espécie de centro daquela região em que há o ciclo de águas que ora a transforma em um grande charco, ora em terras secas, e na qual estão as nascentes dos rios mais importantes do Marajó (Arari, Anajás, Cururu), conectados por canais que ligam igarapés afluentes seus, próximos às suas nascentes, de maneira que, na época de água alta, é possível circular entre aqueles cursos d’água com barcos de maior calado pelo interior da grande ilha.

Dada a conexão por dentro da grande ilha, por barco, montaria ou, na época de verão (seca), por veículos motorizados com rodas, o município de Chaves tem uma relação de proximidade quanto a dinâmicas culturais e econômicas com os municípios da região dos campos, cujo eixo central é o rio Arari (rio que nasce no lago do Arari e deságua na baía do Marajó).

Há, também, através do rio Cururu, que nasce no município de Chaves e deságua no rio Anajás, uma ligação por rios e Furos com Breves, importante vila no sudoeste da grande ilha.. Em função dos meandros dos rios Cururu e Anajás, e dos Furos e Bocas que o ligam ao rio Pará, trata-se de viagem significativamente mais longa do que aquela empreendida entre Belém e Santa Cruz, na beira do lago Arari, quando da época de água alta (inverno).O município de Chaves, no entanto, tem uma ligação mais intensa com o Amapá e com Afuá (Fig. 8).

No âmbito do município de Chaves, há o que são chamados de Polos, estabelecidos no que se refere à estrutura de gerenciamento de ações relacionadas ao ensino e à saúde, comparáveis ao que se chama de distritos no município de São Paulo (Fig. 7). Pode-se dizer que há Polos mais intensamente relacionados com a borda do rio Amazonas, dentre os quais há os Polos fora da ilha maior, nas menores (ainda que grandes) ilhas no limite do estuário do grande rio; e há Polos no interior da grande ilha, relacionados ao rio Cururu e à área de influência do Arari.

No interior da grande ilha, há os Polos do rio Cururu, recentemente divididos (anteriormente, tratava-se do Polo do Cururu) - o Polo Alto Cururu, em área de campos naturais, e o Polo Baixo Cururu, em área com importante presença de matas.

  

Figs.7 e 8 Identificação feita a partir de interação com habitantes locais quanto à divisão do Município de Chaves em Polos (não existe mapa oficial com essa informação) e Hidrografia do município e vizinhos a partir de Carta Náutica de marítimo (marinheiro) de Chaves Fonte: desenhos do autor a partir de mapas de habitantes locaisFigs.7 e 8 Identificação feita a partir de interação com habitantes locais quanto à divisão do Município de Chaves em Polos (não existe mapa oficial com essa informação) e Hidrografia do município e vizinhos a partir de Carta Náutica de marítimo (marinheiro) de Chaves Fonte: desenhos do autor a partir de mapas de habitantes locais

 O rio Cururu

Os Polos Alto Cururu e Baixo Cururu correspondem de forma geral à bacia hidrográfica do rio Cururu, que nasce próximo ao lago do Arari e deságua no rio Anajás (Fig. 8). O Alto Cururu, como já indicado acima, está em uma região de campos naturais. Conecta-se com outros importantes rios por meio de canais construídos, alguns há muito tempo. Em suas margens e em igarapés que a partir dele são acessados, há localidades com dimensões variadas, distantes entre si poucos quilômetros, ou a alguns minutos de viagem em “rabetas”, embarcações de baixo calado cujos motores de popa têm hélices na extremidade de cabos longos móveis (parecem “rabos” de animais, daí “rabetas”), permitindo ao piloto regular a profundidade daquelas, impedindo que colidam com o fundo do rio, quando da água baixa, ou com os “barrancos” geralmente perceptíveis em função da vegetação aquática sobre esses desníveis no terreno que ficam submersos em tempo de água alta. Em geral, as comunidades ribeirinhas na Amazônia (Figs 9 e 10) - ou beiradeiras, como prefere Ab’Saber - localizam-se em igarapés, segundo o geógrafo, “a grande dádiva da natureza para as comunidades tradicionais da Amazônia”. (AB’SABER, 1996, p. 172)

Do igarapé sai a água que se bebe e a água para cozer os alimentos. Ele é o pesqueiro, fornecedor do alimento básico das populações beiradeiras. (...) à beira dos riozinhos encimados pelo dossel das florestas, desenvolvem-se palmáceas dotadas de frutos comestíveis. (...) E o igarapé é, sobretudo, o caminho suave para a circulação das canoas. é o caminho vicinal mais denso e humanizado que tornou menos solitária a aventura de viver numa das margens da humanidade. (...) [Realidade presente] dos arredores de Belém do Pará aos confins do Acre.” (AB’SABER, 1996, p. 172-3)

 

Fig. 9 e 10 Fotos de comunidade ribeirinha junto ao rio Cururu (localidade de São Benedito) - o mesmo lugar em tempos de seca e em tempos de águas altas Fonte: Fotos do autor Novembro/2017 e Abril/2018 Fig. 9 e 10 Fotos de comunidade ribeirinha junto ao rio Cururu (localidade de São Benedito) - o mesmo lugar em tempos de seca e em tempos de águas altas Fonte: Fotos do autor Novembro/2017 e Abril/2018

 

Relação Natureza/Cultura - Ocupação da Paisagem e Arquitetura 

A transformação antrópica da paisagem amazônica, nem sempre em sintonia com ciclos naturais, faz pensar na relação que o ser humano, a Sociedade estabelece com os lugares e com a Natureza de maneira geral.

O significado de Natureza está associado a uma condição ou visão culturalmente definida. Culturas humanas primevas nela

procuravam entender a vontade dos deuses do mar, dos vulcões e dos rios; Aristóteles, uma hierarquia de formas organizadas; Decartes e os modernos, as alavancas de uma máquina onde "tudo acontece por figura e movimento"; (...) e nós procuramos equilíbrios matemáticos na matéria que só se unem por afloramento, podemos dizer, nas leis do engenheiro do século XIX. (LENOBLE, 1969, p. 28 tradução do autor)

Quanto à presença humana, entendemos que uma relação com a Natureza, resultante da visão que dela se tem, está na sua base e a Cultura é sua expressão. A separação entre a Cultura humana e a Natureza, contudo, seria uma criação mental que fará sorrir gerações futuras?

A natureza é, para nós (modernos), letra morta. No sentido exato: ela não nos fala mais porque deixamos há muito tempo - desde Decartes, pelo menos - de lhe atribuir uma alma e de a crer habitada por forças ocultas. (...) pode muito bem ser que a separação do homem e da natureza, pela qual o moderno humanismo foi levado a atribuir unicamente ao primeiro a qualidade de pessoa moral e jurídica, não tenha sido mais do que um parêntese prestes a encerrar-se? (FERRY, 1994, p. 11-15)

Há, no que se refere a essa relação, a defesa da ideia de que a arquitetura “cria uma fronteira temporária entre a Natureza e a Cultura. Essa arquitetura é matéria (matéria da Natureza) moldada no espaço (espaço humano). Indiscutivelmente, a arquitetura equilibra o ‘talho’ na Natureza/Cultura. Ou, de fato, talvez seja o talho” (CALDENBY, 2013, p.15). A ideia da arquitetura como um talho, um corte ou golpe (slash, na versão em inglês do texto) ou como um ponto de equilíbrio em um movimento entalhador soa pertinente no caso amazônico sobre o qual nos debruçamos aqui.

Para Aristóteles, o ser se define por sua “natureza” e, nesse sentido, “a Natureza é um princípio e uma causa de movimento e, também, de repouso para a coisa na qual está, em que reside diretamente, e a título de atributo essencial e não acidental dessa coisa”. (LENOBLE, 1969, p. 76-7 tradução do autor) Por outro lado, a busca filosófica a partir do chamado atomismo físico, que teve em Demócrito uma de suas principais vozes, traz uma “vontade de atomizar a Natureza inteira para torná-la permeável ao espírito humano (...)” (LENOBLE, 1969, p. 93 tradução do autor). Na perspectiva de liberdade absoluta diante das coisas, investiga-se a existência ou não de regras na Natureza - na Grécia clássica, filósofos “ examinaram minuciosamente a natureza para descobrir as regras que ela dita ao homem; Epicuro, por sua vez, a estuda para se certificar de que ela não dá regras.” (LENOBLE, 1969, p. 103 tradução do autor).

A noção de Natureza se transforma desde a chamada Antiguidade na condição ocidental:

“Para um cristão, a Natureza não é eterna: Deus a lançou no ser quando quis e irá descartá-la no último dia como um elemento decorativo. Ela não é o Todo, mas uma coisa nas mãos de Deus. O Homem vai se habituar a situar-se não mais dentro da Natureza, mas defronte a ela, concebendo seu destino independente da história do mundo. Máquina nas mãos de Deus, a Natureza, ele um dia ousará declarar, não é mais que uma máquina, da qual ele também poderá manobrar as alavancas.” (LENOBLE, 1969, p. 227 tradução do autor)

Mas a potência da Natureza “não vai se voltar contra ele?” (LENOBLE, 1969, p. 232 tradução do autor)

No Humanismo que se inaugura na chamada Renascença, o grande problema não é a Natureza, mas o Homem. “´É no interior do Homem não no macrocosmo, que se expande o lugar e o papel da Natureza.” (LENOBLE, 1969, p. 306 tradução do autor) As supostas leis da Natureza teriam, assim, relação peculiar com o destino do Homem. Ainda de acordo com Lenoble (1969), na sua reflexão sobre a ideia que se tem de Natureza, esta é vista, com a revolução maquinista, como uma máquina e a ciência como a técnica de exploração dessa máquina. O século XVIII no chamado Ocidente vê, então, a consolidação de um Homem que deve bastar a si próprio e que, assim, supostamente afastado da Natureza, cultiva hábitos artificiais e se comporta como senhor de seu destino.

 “Será ao menos permitido ao Homem efêmero, engolido pelo cosmos incomensurável, de se ver como depositário de um valor privilegiado que desafiará as normas da duração e do entendimento?” (LENOBLE, 1969, p. 377 tradução do autor)

O que entenderemos, assim, como Natureza? Trata-se, como expresso acima, do Macrocosmo que nos rodeia e inclui? Até que ponto se pode pensá-la como passível de ser manejada pelo ser humano? Essa visão é plausível diante da perspectiva de a Natureza ser inerente ao Homem? Resta

saber se o homem é o único sujeito de direito ou se, pelo contrário, o é o que hoje se denomina a ‘biosfera’ ou a ‘ecosfera’ e outrora se chamava o cosmo. (...) o homem seria (...) o menos simpático, por que o menos simbiótico nesse universo harmoniosos e ordenado onde ele não se cansa de introduzir, por seus excessos, por sua hybris, a mais desagradável e chocante desordem. Não se deveria recorrer a um novo ‘contrato natural’ que reponha esse orgulho em seu devido lugar e restabeleça a harmonia perdida? (FERRY, 1994, p. 18)

Em nome da ciência, “conviria conceder igual respeito a todas as manifestações da vida universal” (FERRY, 1994, pág. 33). Por outro lado,  “(...) como superar a antinomia entre o cartesianismo (que tende a negar todo valor intrínseco aos seres da natureza) e a ecologia profunda (que considera a biosfera o único sujeito autêntico de direito)?” (FERRY, 1994, p. 181)

“(...) não satisfeitos por desencantar o universo, estabelecemos, com o nascimento da indústria moderna, os meios para consumi-lo desenfreadamente até o seu esgotamento total (...). De ‘parasita’, que gerencia em sentido único, logo, de uma forma desigual, a relação com a natureza, o homem deve tornar-se ‘simbionte’, aceitar a troca que consiste em devolver o que se lhe empresta.” (FERRY, 1994, p. 108)

Forma da Presença Humana na Região do Marajó

“O homem pode e deve modificar a natureza, assim como pode e deve protegê-la” (FERRY, 1994, p. 174)

A ideia de duração ou permanência está presente nas ações antrópicas na Natureza. O ser humano, nesse sentido, busca permanecer, mantendo sua possibilidade de presença. No caso do estuário amazônico, a perspectiva da transformação do tempo, no entanto, é particularmente implacável e a localização humana tem constantemente que se acomodar ou modificar, em função das mudanças decorrentes de ciclos naturais.

Ao se percorrer os diferentes ecossistemas na região do Marajó, percebe-se que a relação com os ciclos naturais, sobretudo da água, definem a ocupação humana. Nesse sentido, as construções são frequentemente sobre palafitas, com aspecto que faz pensar em barcos parados. Nos igarapés, tanto nas bordas como no interior das ilhas, em geral as construções estão sobre esteios altos e sob elas o uso se alterna - na estação seca, os vãos abaixo delas são depósitos e apoio, na estação de chuvas, elas parecem flutuar nas águas. 

Fig. 11 Casa com palafitas no Alto Cururu Fonte: foto do autor, Novembro 2017Fig. 11 Casa com palafitas no Alto Cururu Fonte: foto do autor, Novembro 2017

 No caso da bacia do rio Cururu, a ocupação humana é quase integralmente realizada em construções sobre palafitas (Fig. 11). Nas margens do rio, intermitentemente há aglomerações de casas, em geral junto a uma pequena igreja católica ou, mais comumente, a um templo evangélico. Essas localidades (assim são chamadas no Marajó) têm, por vezes, não mais que dez casas, algumas com em torno de cinquenta casas, raramente com mais de uma centena, como é o caso de São Joaquim, no Alto Cururu, considerando-se todo o conjunto construído contíguo e conectado por “pontes”, as “calçadas” locais.

As casas voltam-se para o rio e os moradores acompanham o movimento dos barcos, acenando para passageiros que as cumprimentam durante seu vai-e-vem. Pontes de madeira (“decks” sem proteção lateral), nas localidades mais densas, conectam as casas, passando entre elas e o rio. Por outro lado, durante as águas altas, quando o rio extravasa, a imagem é quase de casas em uma lagoa já que o limite do rio se torna menos preciso. Aquelas pontes não raro chegam a centenas de metros e garantem uma vida de mais intensas trocas sociais. Na medida em que se afastam dos lugares centrais das localidades - frequentemente onde estão os templos religiosos - as casas deixam de ter essa conexão por pontes, sendo acessíveis apenas por barcos.

Na parte posterior das casas se encontram pequenas construções que abrigam as latrinas, não hidráulicas, com fossas simples, algo que só não constitui um problema maior de saúde em função da baixa densidade e pequena população em números absolutos. Para acessar as latrinas, pontes semelhantes àquelas utilizadas como calçadas são construídas. No Alto Cururu, esses fundos das casas se voltam para campos intermitentemente alagados, onde pastam os búfalos e o chamado gado “branco”, bovino.    

Escolas Municipais do Município de Chaves

Cada Polo do Município de Chaves possui uma Escola Sede e, atrelados a ela, os chamados Anexos, que têm um diretor responsável pelo conjunto Sede-Anexos. Em alguns casos, a Escola Sede é significativamente maior do que os Anexos, mas isso não é uma regra geral. Por vezes, a Escola Sede tem a mesma dimensão de um Anexo, com uma única sala, parcialmente circundada por varandas, com uma pequena área de preparo de alimentos e uma também saleta compartilhada por um uso administrativo que possibilita conversas mais reservadas e guarda de livros e material pedagógico.

Há um padrão arquitetônico perceptível nos edifícios das escolas, que são construídas em madeira, sobre esteios quando em terrenos que se alagam no período de águas altas. Têm coberturas de telhas de cimento-amianto, também muito utilizadas nas casas locais, que resultam em espaços internos excessivamente quentes quando da exposição solar e barulhentas quando das chuvas, sendo inadequadas, portanto, para as condições ambientais da região, ainda que de relativamente fácil transporte e manuseio - é sabido que não são salubres para aqueles que com elas trabalham, liberando substâncias cancerígenas durante seu processamento, especialmente quando dos cortes. Têm sido banidas da construção civil em diversos países e a tendência é que não sejam mais produzidas, deixando como legado o desafio de lidar com uma grande quantidade desse material indesejado. 

Fig. 12 Anexo de Escola no Alto Cururu Fonte: foto do autor Janeiro 2018Fig. 12 Anexo de Escola no Alto Cururu Fonte: foto do autor Janeiro 2018

 Afora as telhas, as construções são quase exclusivamente em madeira. Portas contam com dobradiças e maçanetas, mas as janelas são de correr e utilizam guias de madeira, muito simples e de fácil manutenção. Vidros não são utilizados de forma geral e depreende-se que por razões de economia e dificuldade de transporte, o mesmo valendo para as ferragens acima mencionadas, utilizadas apenas onde imprescindíveis.

As Escolas Sede maiores têm mais de uma sala (Fig. 17), varanda mais ampla e áreas de cozinha e aquela compartilhada por administração e espécie de almoxarifado, acima neste texto referida, proporcionalmente maiores. As latrinas são também afastadas e não hidráulicas. Arquitetonicamente, as Escolas Sede, são muito semelhantes aos chamados Anexos (Fig. 12): janelas, guarda-corpos, arremates junto às coberturas e mesmo estas, sempre com telhas de cimento-amianto são do mesmo tipo, arranjadas com poucas variações, fazendo pensar em padrões pré-definidos, absorvidos pelos construtores locais, regionalizados em grande medida.

Percebe-se, de quando em vez, alguns edifícios públicos em alvenaria - postos de saúde e escolas construídas com repasses de recursos federais e/ou estaduais, frequentemente demonstrando sua inadequação quanto ao lugar onde estão: vê-se, neles, o efeito da umidade e situações em que insetos ou outros animais se instalam já que no projeto daqueles equipamentos pouco se respeita saberes locais quanto à ventilação e componentes construtivos. Muitas dessas construções estão inacabadas ou em situação de difícil manutenção.

Arquitetura local, tradicional?

Há algum país que não seja uma “terra de contrastes”? Acabamos todos misturando os tempos. (LATOUR, 1994, p.74)

Na região marajoara, a adequação das construções ao lugar faz pensar no que seria uma arquitetura local, em alguma medida derivada de uma condição tradicional e, assim, podendo eventualmente ser chamada de arquitetura tradicional - fica a dúvida quanto a podermos de fato compreender como tradicional o que se vê nas comunidades ribeirinhas amazônicas atuais, sendo que Tradição se refere a uma prática contínua de ritos e de concepções por parte de um grupo humano, em que a mudança não é vista como um valor, mas como algo do qual se deve precaver. Ao se pensar sobre as comunidades ribeirinhas, com seus saberes locais temperados pela experiência moderna, ecoa a pergunta que se refere ao homem ocidental contemporâneo: “Nós somos tradicionais, então? Também não. A ideia de uma tradição estável é uma ilusão da qual os antropólogos há muito nos livraram. Todas as tradições imutáveis mudaram anteontem.” (LATOUR, 1994, p.75)

A reflexão empreendida até aqui traz o questionamento sobre até que ponto somos ou fomos modernos e a ideia de que uma descontextualização moderna deveria ser revista e superada abre a perspectiva de pertinência de uma condição não moderna, quiçá catalizadora de uma experiência pré-moderna, tradicional, ainda latente.

A implantação das construções, numa condição sobre a qual podemos nos referir como anfíbia, ora sobre as águas - no inverno local, ora sobre a terra em função do tempo de estio, é adequada às condições ambientais e, em função da localização junto às bordas dos rios e igarapés, faz uso dos cursos d’água como rede de mobilidade e escoamento, algo que equivale ao modo tradicional de vida nas Culturas amazônicas milenares de matriz indígena. As construções em madeira, eventualmente desmontáveis e reutilizáveis vão também ao encontro da condição socioeconômica local e deixam entrever uma condição interessante em termos ecológicos de uma dinâmica de reapropriação contínua de materiais absorvidos naturalmente em função de serem parte do ecossistema local.

A utilização da madeira nas construções da região marajoara traz algumas questões importantes. Vê-se ali uma forma de lidar com a madeira não transformada pelas atuais técnicas de colagem. A madeira é, assim, utilizada maciça, processada em serrarias próximas (há uma série delas em Breves e em Afuá, por exemplo), fazendo uso de serras convencionais. Percebem-se em geral, nas edificações marajoaras, ligações com entalhes e pregos - parafusos são pouco vistos. A madeira mais utilizada nas construções junto ao rio Cururu, o Acapu (pelas características indicadas localmente, trata-se de vouacapoua americana ou minquartia guianensis) (LORENZI, 2016, p.149 e 287), provém de regiões de mata menos encharcada, delas retirada e conduzida para serrarias (como as de Breves ou Afuá) onde são processadas. Até que ponto essa madeira é retirada de acordo com as regras adequadas de manejo florestal é algo que inquieta já que não há informações referentes. A vocação madeireira da Amazônia, no entanto, fica clara: resta que a extração seja feita de maneira correta e que o plantio de reposição entre na equação.

Há, no que se refere à construção em madeira na Amazônia, alguns edifícios recentes que apontam para sua reinvenção ou renovação (Figs 13 e 14), sobretudo, mas não somente, quando se pensa na sua utilização combinada com o aço. Um passeio por edifícios contemporâneos em madeira na cidade de Belém, por exemplo, mostra essa associação de peças de madeira através de placas e parafusos metálicos, algumas vezes com geometria que revela compreensão estrutural a partir de matrizes teóricas e não tradicionais, ainda que os materiais e mesmo alguns princípios de implantação façam ecoar práticas imemoriais. 

Figs. 13 e 14 Edifícios em madeira em Belém - Memorial dos Povos Indígenas e Restaurante da UFPA- mostram materiais tradicionais em sua reinvenção contemporânea. Fonte: fotos do autor, Janeiro 2018Figs. 13 e 14 Edifícios em madeira em Belém - Memorial dos Povos Indígenas e Restaurante da UFPA- mostram materiais tradicionais em sua reinvenção contemporânea. Fonte: fotos do autor, Janeiro 2018

 Programa SER (Escola Ribeirinha Sustentável)

Com preocupantes índices referentes à Educação, o Município de Chaves teve um decreto (DECRETO 021-2017) que instituiu a intenção de renovação e transformação do seu ensino através do Programa Escola Ribeirinha Sustentável (Programa SER). Foi, assim, promovida a mobilização dos diretores de Escolas do Município para refletir sobre o sistema e, em oficinas de capacitação de professores, a ideia tem sido uma discussão e avanço no sentido do desenvolvimento e mesmo da construção do Programa, que se pretende um processo vivo de reavaliação contínua.

O Alto Cururu foi adotado no município como Polo Piloto para as oficinas de capacitação e vários colaboradores vêm sendo convocados para contribuir no processo: um grupo de pedagogas comprometidas com o método montessoriano tem promovido dinâmicas com os professores locais, apresentando outras possibilidades de atividades em sala de aula, e tendo como prerrogativa o desmonte de uma postura extemporânea na relação com o aluno e com o saber. Técnicos ligados à produção agropecuária têm dado insumos para a discussão no sentido de compreender que em uma região de pescadores-vaqueiros-extrativistas, com agricultura, pesca e criação de subsistência, o tema dessa produção necessariamente deverá estar presente na escola, que serve como base para a maior consciência dos processos e de onde reverberam boas práticas e possibilidades. Hortas, por exemplo, vêm sendo defendidas como um instrumento pedagógico e implantadas nas Escolas através de ações durante as oficinas acima referidas.

No debate, a partir da participação de arquitetos, está também presente a compreensão da transformação da paisagem, que inclui, face às condições e ciclos naturais, o estabelecimento de estruturas necessárias para apoio à vida humana, para seu cotidiano, relações comunitárias e de cooperação, seu desenvolvimento e a produção do alimento. Engenharia Ambiental e Arquitetura são, dessa maneira, objeto de reflexão e há, no âmbito do Programa, a perspectiva de busca da renovação dos espaços das escolas, para que sejam facilitadas novas dinâmicas e compreensão atualizada da busca do desenvolvimento humano.

Nas transformações pretendidas, defende-se, no âmbito dos arquitetos e engenheiros ambientais envolvidos, a ideia de implementação de uma infraestrutura ecológica, que contou com um esboço piloto para a Escola Edmar Barbosa, Escola sede do Polo do Alto Cururu. Têm sido, nesse sentido, entendidas como ações básicas a instalação de placas solares e baterias para possibilitar a utilização de equipamentos elétricos e a iluminação artificial (permitindo assim se pensar na oferta de cursos no período noturno) - não há fornecimento de energia elétrica na região e geradores a diesel são comumente utilizados - e de sistema de captação de águas pluviais, aperfeiçoamento da captação das águas do rio, com estabelecimento de tratamento das águas, sempre com um sentido pedagógico e de pesquisa/monitoramento.

O saneamento tem sido pensado de uma forma diferente do convencional, com defesas no sentido da implantação de banheiros secos (que representam desafio face às condições da região) e de banheiros hidráulicos com tratamentos alternativos (mais custosos e que representam o paradoxo da utilização de uma grande riqueza que é a água como veículo de condução de dejetos, sendo necessária então toda uma parafernália para que possa ser utilizada e para que no sistema esteja incluída sua limpeza constante. Consultores têm, assim, se dedicado à alternativa dos banheiros secos.

O desafio é o de articular a infraestrutura renovada com os espaços e com a ideia de conjunto arquitetônico que respeite e valorize condições locais, além de estimular a atitude científica. Pretende-se que a infraestrutura ecológica já esteja intimamente relacionada ao projeto arquitetônico e não tratada como algo à parte.

Além disso, outros princípios defendidos para as técnicas convocadas nessa renovação dos edifícios escolares são a valorização dos saberes locais, com base na interlocução com construtores das localidades onde estão as escolas e, também, memórias de moradores antigos.

Houve, nesse sentido, a decisão de valorizar a construção de coberturas de palha, em geral da palmeira Buçu (manicaria saccifera https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubu%C3%A7u hoje pouco utilizadas em função de pensamento corrente quanto a tratar-se de técnica ultrapassada e sinônimo de atraso ou pouco desenvolvimento, pensamento que se pretende enfrentar já que os ambientes cobertos por palha demonstram ser adequados às condições climáticas dali, além de serem apropriados às dinâmicas socioeconômicas locais. A adoção de coberturas de palha em parte dos edifícios escolares será no sentido de reverter essa visão negativa da técnica, ainda conhecida e praticada de maneira tímida na região. Basta, inclusive, essa ideia de revisitar a técnica para que surjam inúmeros depoimentos quanto à familiaridade com ela e adesões quanto à sua defesa por parte de moradores nas localidades próximas.

Nas oficinas de capacitação, houve uma contribuição no sentido do desenho da ampliação e reforma da Escola-Sede do Polo Alto Cururu, chamada Edmar Barbosa (Figs 15, 16 e 17), que foi adotada como base para o desenvolvimento do Programa SER, feito através da interação de construtores locais e servidores da Prefeitura. A não existência de um corpo técnico na Prefeitura que pudesse desenvolver efetivamente o projeto levou a que este surgisse no canteiro, com dificuldades e questões relacionadas a essa perspectiva de projeto in loco durante a obra, com interação do mestre-carpinteiro, dos operários e consultores esporádicos (arquitetos e especialistas em saneamento básico ecológico, sistema de produção solar de energia etc.). Esse modelo de desenvolvimento de obra tem sido levado a cabo em função de uma postura voluntária e de pesquisa acadêmica por parte dos técnicos e por ser entendida a obra como investigação.

Os primeiros desenhos realizados indicavam a ideia da ampliação da Escola reproduzindo algumas práticas encontradas na região: pontes conectariam, assim, as novas áreas propostas e diferentes formas de plantio (em canteiros elevados construídos em madeira e em ilhas artificiais produzidas, herdeiras, por assim dizer, dos tesos – tradicionalmente construídos nas regiões intermitentemente alagadas no Marajó).

 

   

 

Fig. 15 e 16 Desenhos resultantes de algumas investigações propositivas por parte do autor quanto à Escola Edmar Barbosa, no Alto Cururu, Município de Chaves, no Marajó. (legenda 1 – Edifício existente; Propostas: 2 – Laboratório de Águas, com caixas d’água e tratamentos; 3 – Refeitório; 4 – Laboratório Cozinha; 5 – Canteiros experimentais para cultivo; 6 – Sala Multiuso Cururu; 7 – Sala Assuã debates; 8 – Laboratório Banheiros secos e Estufa; 9 – Tanque para criação de peixes e plantas aquáticas; 10 – Galinheiro; 11 – reforma estrutura existente para abrigar administração e apartamento professor; 12 – Brinquedos; 13 – Passagens para articulação do conjunto) Fonte: desenhos do autorFig. 15 e 16 Desenhos resultantes de algumas investigações propositivas por parte do autor quanto à Escola Edmar Barbosa, no Alto Cururu, Município de Chaves, no Marajó. (legenda 1 – Edifício existente; Propostas: 2 – Laboratório de Águas, com caixas d’água e tratamentos; 3 – Refeitório; 4 – Laboratório Cozinha; 5 – Canteiros experimentais para cultivo; 6 – Sala Multiuso Cururu; 7 – Sala Assuã debates; 8 – Laboratório Banheiros secos e Estufa; 9 – Tanque para criação de peixes e plantas aquáticas; 10 – Galinheiro; 11 – reforma estrutura existente para abrigar administração e apartamento professor; 12 – Brinquedos; 13 – Passagens para articulação do conjunto) Fonte: desenhos do autor

 

Fig. 18 Edifício da Escola Edmar Barbosa, no Alto Cururu, Marajó Fonte: foto do autor Novembro 2017 Fig. 18 Edifício da Escola Edmar Barbosa, no Alto Cururu, Marajó Fonte: foto do autor Novembro 2017

Conclusão

A participação em oficinas de capacitação de professores da rede de ensino no município de Chaves, no Marajó, PA, trouxe à tona as reflexões que aqui se explicitam, referentes à forma de se lidar com a paisagem em regiões amazônicas, especialmente junto ao estuário do rio Amazonas, ao questionamento sobre a relação Ser Humano/Natureza que se imagina desejável, a partir da indagação sobre o significado de Natureza e da interação que com ela estabelecem as Culturas humanas, resultando no que poderá ser entendido como um híbrido Sociedade-Natureza.

A forma da presença humana no Marajó, a partir da perspectiva desse composto Sociedade-Natureza, foi objeto de observação e reflexão, tendo em vista a intenção de transformar as escolas existentes no município de Chaves a partir de atualização quanto ao debate pedagógico.

A discussão sobre o movimento de renovação do ensino municipal chegou à questão dos edifícios, dos espaços onde se dá o processo pedagógico e das ações no sentido de adaptá-los e transformá-los.

A valorização de uma atitude científica por parte dos alunos apontou para a perspectiva de que as próprias obras de transformação das escolas fossem pensadas como investigação - as especificidades de cada contexto e lugar são, assim, entendidas como objetos de pesquisa nos processos de implantação de novos espaços pedagógicos.

A revisão pretendida dos programas das escolas (a partir do Programa SER - Escola Ribeirinha Sustentável) levou a pensar nas salas de aula e em todos os espaços resultantes de sua renovação como laboratórios. Espaços dedicados ao saneamento e estocagem das águas, cozinha, banheiros, brinquedos - todos são espaços pedagógicos e de pesquisa.

Decisões de projeto deverão estar em consonância com essas perspectivas e com a ideia de valorização de saberes locais quanto ao cotidiano e também quanto a técnicas construtivas muitas vezes abandonadas em nome de uma generalização modernizante que frequentemente resulta na fragilização da Cultura da comunidade que se pretende apoiar e cujo desenvolvimento integral se deseja incentivar.

Nesse sentido, a partir da premissa de que “a temporalidade moderna (...) é uma projeção (...) sobre uma linha transformada em flecha através da separação brutal entre aquilo que não tem história mas que ainda assim emerge na história - as coisas da natureza - e aquilo que nunca deixa a história - os trabalhos e as paixões dos homens” (LATOUR, 1994, p. 70), podemos pensar que “felizmente, nada nos obriga a [mantê-la - temporalidade moderna -] (...) com sua sucessão de revoluções radicais (...) e seu [decorrente] jogo duplo de elogios e reclamações contra ou a favor do progresso contínuo, contra ou a favor da degenerescência contínua.” (LATOUR, 1994, p.73) Podemos empreender esforços no sentido de compatibilizar a ciência, base e contrapartida das dinâmicas modernizantes, com cuidado para com relações comunitárias e saberes relacionados.

A discussão empreendida buscou dar insumos para a formatação de Políticas Públicas do município de Chaves, quanto ao ensino mas também no que se refere à maneira de conceber a presença e transformações humanas na região do Marajó, com seus ritmos e saberes , apontando para uma sensibilização de agentes envolvidos.

Construir, de forma geral, e em uma região amazônica, em particular, pressupõe um olhar cuidadoso para com as dinâmicas locais. A relação entre a ocupação humana a as condições naturais são base de qualquer raciocínio que aponte para a transformação da paisagem. 

Referências 

AB’SÁBER, Aziz Nacib. A Amazônia: do Discurso à Práxis. São Paulo: EDUSP, 1996.

CALDENBY, Claes. Slash architecture in LAURI, Tomas (redator) Naturum Visitor Centers in Sweden Sweden: Arkitektur Förlag, 2013.

DECRETO 021-2017 Prefeitura Municipal de Chaves

Disponível em

<http://www.chaves.pa.gov.br/images/sampledata/decretos/021%20-%20Institui%20o%20Programa%20Escola%20Ribeirinha%20Sustent%C3%A1vel.pdf> Acesso em 10/09/2018

FERRY, Luc. A nova ordem ecológica. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.

HARDMAN, Francisco Foot. Trem Fantasma, a Modernidade na Selva. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.  

HOMMA, Alfredo Kingo Oyama. História da Agricultura na Amazônia: da era pré-colombiana ao terceiro milênio. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2003.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

LENOBLE, Robert. Esquisse d’une histoire de l’idée de Nature. Paris: Éditions Albin Michel, 1969.

LORENZI, HARRI. Árvore Brasileiras: Manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2016.

NEVES, Eduardo Goes. O velho e o novo na Arqueologia Amazônica. São Paulo: Revista USP n44 dez/fev. 1999/2000. www.revistas.usp.br/revusp/article/view/30096/31981

SAMPAIO, T. O Tupi na Geografia Nacional. São Paulo: Editora Nacional, 1987.

 

Minicurrículo:

Luis Octávio SilvaLuis Octávio Silva

Luis Octavio P. L. de Faria e Silva, Doutorado FAUUSP 2008, USJT, Escola da Cidade, Praça Benedito Calixto, 86 apto 12,    Pinheiros, São Paulo, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., link para Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/1819856357349357 , telefone (55 11 ) 996393153

 Como citar:

 SILVA, Luis Octávio P.L. de Faria e. Desafios e possibilidades ao se projetar na região do Marajó. Revista 5% arquitetura+arte, São Paulo, ano 13, volume 01, número 16, pp. 94.1 - 94.27, ago. dez., 2018. disponível em: http://revista5.arquitetonica.com/index.php/periodico-1/ciencias-sociais-aplicadas/desafios-e-possibilidades-ao-se-projetar-na-regiao-do-marajo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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